domingo, 16 de novembro de 2008

No ônibus




Marina Costa
Hoje é dia de visitar a biblioteca pública durante meu horário de almoço, este curto espaço do meu dia, que é todo ocupado pelo serviço matutino e pela preguiça noturna; as únicas duas horas disponíveis para resolver meus pequenos problemas causados por essa vida civilizada. Pois se não fosse a civilização, eu não teria esses pequenos problemas. Nem horário de almoço. Mas também não teria que trabalhar.
Enfim, saí de meu local habitual, atravessei uma avenida, neguei esmola a um homem sujo que cheirava a álcool, cheguei na praça e subi no ônibus. Não que a biblioteca fique longe. Mas, convenhamos, andar debaixo de sol quente, atormentada pela poluição visual e sonora da cidade grande, parando a cada trinta passos em sinais que se mantêm eternamente fechados para pedestres, além do subir e descer ladeiras, não é bem a idéia que se tem de um programa de fácil digestão. Não que o ônibus não passe pelo mesmo caminho e seja impermeável as estas mesmas coisas. Mas pelo menos dentro dele estou sentada (na maioria das vezes) e como boa brasileira nasci cansada - as exceções da regra queiram por favor me desculpar o disparate.
Bom então, continuando, entrei no ônibus e me sentei na parte da frente, esperando o trocador liberar a passagem pois estávamos no ponto final e, apesar do motor ligado, havia um horário a respeitar. Além do que, o motorista, ainda não havia terminado sua animada discussão com o pipoqueiro.
Minha mente, para variar inquieta, dirigiu suas atenções ao volante e a chave na ignição. Tratou logo de fazer uma mirabolante viagem para passar o tempo inútil. Imagine - pensava ela - alguém sentar na poltrona do motorista e sair dirigindo esse ônibus... mais ainda, imagine eu, que não tenho nem carteira B, me sentar ali e sair dirigindo, só para distrair...
Eu andaria provavelmente menos de dez metros, pois naquela via movimentada, acabaria batendo em algo, o ônibus acabaria enguiçando ou poderia até levantar vôo – uma mulher no volante, como muitos dizem, nunca se sabe - enfim...
Mas ele se moveria, um pouco que fosse. Nessa aventura então eu me sentiria dona de minhas verdadeiras vontades. Os passageiros, desesperados com a alteração de sua sagrada rotina, gritariam, estarrecidos. Os motoristas e trocadores que se encontravam no ponto final, atordoados pelo movimento do ônibus fantasma, correriam atrás de mim a gritar “Páaaaaara!!!!!” ou “Pega!!!!”. Os transeuntes, parariam sua vida corrida para assistir aquele episódio inédito e engraçadíssimo – pois ora, vejam, que garota maluca! – diriam aos risos. E então, depois de segundos que pareceriam eternos ( tal é o poder da alteração na nossa mesmice diária), o ônibus finalmente pararia.
Eu desceria do lugar do motorista, calma, com um leve sorriso nos lábios - cara de quem sonha - com todos a me lançar olhares espantados-cômicos-raivosos e, ao chegar a viatura, o policial, de saco cheio das loucuras da capital me interpelaria para saber quais eram minhas pretensões.
“Uma terrorista querendo entrar com ônibus e tudo, em algum prédio público?”
“Uma louca fugida do hospício do quarteirão ao lado?”
“Uma ladra, integrante de uma gangue estabelecendo uma nova modalidade de roubo”?
Eu, em minha calma habitual, com a cara de quem sonha sendo interpretada como cara de quem tem parafusos a menos, responderia simplesmente que “ah, me deu vontade de dirigir um ônibus, uai!”
Talvez eu fosse presa ali mesmo e levada a uma delegacia, onde assinaria um B.O e receberia alguns comentários repressores por perturbar a ordem pública. Ou eles me amarrariam em uma camisa de força e ligariam para meus pais, para confirmar que eu não era certa de minhas próprias idéias. Poderia acontecer também de eu ser linchada ou ovacionada pela população ali presente (dependendo de ser início ou fim de mês). Ou então, vendo minha cara inocente, apenas me ameaçariam com a prisão e me mandariam embora dali aos gritos.
O único desfecho mais improvável do que essa minha idéia, seria aparecer nos lábios dos espectadores daquela cena fantástica um sorriso de entendimento e ver que eles aceitariam naturalmente o meu “deu vontade, oras!”, pois nessa vida tão regrada, quem no mundo não tem também idéias malucas de rebeldia?
O ônibus então saiu, me tirando do devaneio sem sentido, não sendo, obviamente, por obra minha.
Íamos aos solavancos típicos daquele transporte enquanto eu, já longe do motorista para não cair na tentação de lhe tomar aos sopapos a direção, olhava distraída a paisagem lá fora, as pessoas com sua habitual pressa, os sinais habitualmente fechados, as buzinas como sempre impacientes...
Divagava: “Ah mundo! Infeliz de nós que, domesticados em sua pobre rotina, perdemos a coragem de cometer atos insanos, com medo do que outros, tão insanos quanto nós, podem acabar pensando...” Mas, veja bem, que isso não é um movimento no sentido de “vamos todos sair por aí a dirigir ônibus”. É apenas um suspiro de desesperança pelo desejo de vivermos mais de acordo com nossas próprias vontades e não podermos. É simplesmente um... Bah! Vocês entenderam!

3 comentários:

  1. Amei as coisas que escreve.. Achei seu blog sem querer pq tava fazendo um trabalho pra fakul sobre Gari. Entre tantos outros sites achei seu blog e li o texto em que falou do Gari na chuva.. gostei e resolvi ler mais...
    Mto bom!! Linkei vc, td bem?
    bjo

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  2. Mari,
    Está certíssima, realmente teria problemas de natureza jurídica caso não tive conseguido suprimir a vontade de sentar-se no lugar do motorista e dar umas boas voltas por aí...Bom, se os tivesse, tem seu velho amigo aqui, bastava ligar! Ah, mas vou te contar uma coisa boa, se não atropelasse ninguém, nem causasse dano ao patrimônio, o "furto" do ônibus em si, da forma como seria praticado, não lhe acarretaria sanção penal, pois, o "Furto de uso" não caracteriza crime, isto por falta do elemento subjetivo, o "animus furandi",ou seja, a vontade de tomar a coisa como própria. Sendo assim, da próxima vez, se não for bater o ônibus, nem causar nenhuma vítima, sinta-se mais a vontade! rsrs... Mas, brincadeiras a parte,entendi o real sentido da crônica e adorei, como sempre vc e o Henrique mandando super bem. Sempre agradáveis de serem lidos.
    Abraços!
    Luz e Paz.
    Jorge

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  3. Me diverti bastante com a situação inusitada rs.. as reflexões que vc fez são de uma profundidade estupenda. O argumento "estava com vontade, uai" mostra bem como a gente anda distante daquilo que realmente gostaríamos de fazer. Criamos nossas regras, e achamos que somos bem sucedidos quando as cumprimos. Mas jamais saberemos da delícia, da verdadeira delícia que é dirigir um ônibus. Gostei muito de quando falou que ser ovacionada ou linchada dependeria do dia do mês rs.. tá cheio de ironias muito bem boladas. E traz verdades admiráveis.

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