domingo, 28 de dezembro de 2008

Sem Sentido



Marina Costa

Nada para dizer, nada de novo para contar, leio e releio minhas crônicas e percebo infindáveis conselhos moralistas que nem eu mesma sou capaz de seguir muitas vezes.

Imperfeição do ser enquanto humano, “faça o que digo mas não faça o que faço”, seria justificativa para minhas próprias palavras escritas. Não que o que digo sejam coisas utópicas ou sem sentido, mas convenhamos a realidade está tão distante do que gostaríamos que fosse como os tratados de Freud estão cada vez mais próximos da realidade do que podemos imaginar. Mesmo assim não canso de querer mostrar o quão melhor poderíamos ser. O quanto de bem ao mundo poderíamos fazer. Ah, males de um corpo corrompido delirando com os restos de sonhos da alma inocente.

Não tem jeito. Enquanto houver uma mente consciente haverá sonhos, mesmo que indecifráveis ou irrealizáveis buscando o melhor, o mais bonito, o mais feliz. Somos seres utópicos por mais realistas que tentamos parecer. O sonho é inerente ao homem mesmo que nessa terra de carrascos Golias não faça mais sentido sonhar. No mundo interior de cada um tudo é possível. O cinza pode virar azul com um simples sorriso, o mau fica bom e o rosa amor platônico vira tórrida paixão vermelha sem que seja preciso mudar de lugar para isso. Tudo é possível com o sopro da imaginação e se isso me faz feliz o que importa eu dizer coisas impossíveis, sem censo ou sentido, irreais para muitos?

Aqui dentro de mim quero me sentir livre das críticas de quem não tem o que pensar de verdade. Quero me sentir amada como minha mente imagina que o amor deveria ser. Quero imaginar que o quente asfalto árido é um campo de infindáveis lírios balançando ao vento. Quero viver pelo menos quando deito a cabeça no travesseiro. Nesse momento posso me livrar das duras penas que a sociedade de rótulos me impõe. Posso ser simplesmente eu e nada mais.

De que vale estudar e trabalhar toda a vida para no final, a velhice que irremediavelmente chega ser tratada, pela sociedade que tudo me exigiu, como um traste inútil e pesado que nunca serviu para nada? De que vale toda a cultura que aspiro se a maldita televisão aliena todos aqueles com quem eu poderia discutir as boas filosofias da vida? Para que, me digam, botar crianças em um mundo que vai lhes ensinar a lei do mais forte que esmaga o mais fraco, do rico que despreza o pobre, da vida que deixa de ser milagrosa na infância para virar fardo na maturidade? Coisas ilógicas sem sentido. Respondam se é mesmo melhor viver sem sonhos nesse mundo vazio?

Já que não posso fugir de tudo isso, pois já me rendi ao sistema e malditas amarras morais me prendem a toda essa maquete capitalista, eu sonho o quanto quero, como quero, para sorrir pelo menos por dentro.

Assim morro mais devagar. Assim minha alma se mantém um pouco mais pura. Assim no final, sentada em minha cadeira de balanço enquanto todos pensarão que há muito enlouqueci, posso lembrar que pelo menos meus sonhos foram bons, para mim fizeram sentido. Valeram a pena a felicidade momentânea de quem não pôde fazer mais do que sonhar.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Noel


Henrique Fendrich
(...)

E lembrou de uma história do Pato Donald. Deu risada da lembrança, é engraçado lembrar do Pato Donald. Não é todo mundo que se veste com roupa de marinheiro – ainda mais sem calça. Era uma história em que ele e os sobrinhos ficam perdidos na neve. Pedem ajuda numa casa onde mora uma viúva e um casal de filhos. Também é véspera de Natal. A família é pobre. Não tem peru na ceia: há apenas uma lata de ervilhas. Mas quem diria, eles não estão tristes! As crianças explicam que é só fechar os olhos e imaginar que ali diante deles está um delicioso peru, não uma lata de ervilhas. Pato Donald. O gibi imita a vida. Fechar os olhos e imaginar, eis uma das melhores soluções que já ouvi, se encaixa em tantos outros problemas. Não é à toa que saiu da boca de crianças. Havia mais que uma lata de ervilhas em casa, mas ele nunca pensou que isso viria a se tornar um consolo.

Pensou em como eram as coisas há alguns anos, quando ele ainda não tinha ingressado no Mundo da Gente Grande. O que era a preocupação nesse tempo? Era olhar pra fora e ver que está ameaçando cair chuva, logo hoje que eu tinha jogo marcado com a turma! Era a preocupação, dessas que não chegam a deixar rugas em nossa testa. E estava-se sempre certo que, de qualquer maneira, independente das molecagens que fizessem, na noite de vinte e quatro sempre se receberia algum mimo, um presente que os deixasse extasiados a semana inteira. E quando fosse vinte e cinco, toda a turma da vizinhança saberia o que cada um ganhou e dividiriam seu entusiasmo, e compartilhariam suas impressões. Pensava essas coisas, e de súbito teve um tímido reconforto. Achou que o Fantasma dos Natais futuros seria mais generoso com ele. Ele estava demorando, mas chegaria, e seria muito melhor. Apenas o Fantasma do Natal presente não lhe passava muita simpatia.

(...)

E aquele caminhãozinho, feito toscamente com as próprias mãos durante a semana, foi o presente. O único. Entregue com o constrangimento de quem achava que tinha a obrigação de estar dando algo melhor. De quem achava que tinha falhado.

- O Papai Noel teve um ano difícil. Mas ele me prometeu que ano que vem vai tirar todo o atraso...

Mas ele nem prestou atenção na desculpa. Apenas seus olhos brilhavam. Explicou: era só fechar os olhos e imaginar que era um carrinho de controle remoto, aquele que ele queria.

E saiu brincando, verdadeiramente contente, olhos fechados.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Amor de Colégio


Marina Costa
No início éramos tímidos, estranhos. Olhávamos-nos de soslaio, esperando que o outro falasse alguma coisa para poder responder com delicadeza e mostrar que queríamos nos aproximar, ficar mais junto, se fazer mais presente. Outras pessoas também estavam conosco todos os dias, mesmo que não tão perto. Elas vinham para nos unir e entre um ensinamento e outro nos faziam dar as mesmas gargalhadas, pensar as mesmas coisas, nos sentir iguais.

O tempo foi passando frágil e mágico como cristal. Nossa convivência aumentava a cada dia, junto com nosso amor e confiança. Não bastava mais ficar o dia todo juntos naquela segunda (por muitas vezes primeira) casa, não bastava fazermos todos os trabalhos juntos, grupos de estudo, reuniões para projetos. Queríamos mais. E assim, quantas e quantas noites, um ligava para o outro convidando para um lanche acompanhado de “causos” e risadas, convidando para um filme, para uma pizza, um sanduíche no trailer da esquina, um sorvete no domingo à tarde. E a gente se unia e se conhecia ainda mais. Gostava-se ainda mais.

Gostávamos de apreciar nossa diversidade, nossas diferenças, cada um com seu estilo próprio e único, uma risada inconfundível, um jeito de fazer piada com tudo, um brilho cálido e especial no olhar. Amávamos nossos defeitos e quantas vezes rimos de nossas próprias gafes. Sim, era um relacionamento bem próximo da perfeição.

Havia brigas também, como em toda boa união. Por vezes, no ápice de emoções exaltadas, falávamos o que não queríamos dizer, ofendíamos sem a intenção clara de machucar, virávamos a cara, cortávamos relações. Quantas vezes juramos nunca mais nos falar? Ah, os extremos da juventude, como ouço dizer os mais velhos. Mas, mesmo que demorasse alguns dias, ás vezes meses, as mãos se davam novamente, o sorriso tímido dava lugar ao riso solto, a fria distância ao abraço apertado e éramos felizes outra vez!

Por três anos, que naquela época pareciam tão longos, e agora vejo que como tudo que é bom passou depressa demais, nos admiramos mutuamente. Ajudamos-nos, choramos juntos, vimos ao mesmo tempo o mesmo mar, numa viagem mais que inesquecível. Sentimos as mesmas dores, torcemos pelo sucesso de cada um. Vivemos talvez uma só vida.

E no dia da despedida, lágrimas rolaram soltas. Nos rostos de nossos parentes vimos sorrisos de alegria, orgulho e um certo alívio pelo fim. Em nossos próprios rostos havia um sorriso por tudo que vivemos e a sabedoria de tudo que aprendemos. Mas no coração a certeza de que acabava ali, que nossa convivência diária terminara, enchia o ar que respirávamos de melancolia.

Então cada um seguiu seu caminho, sua estrela. O mundo se tornou pequeno demais para nós. Uns foram para longe, outros estão mais perto, outros se perderam nas estradas do vida e não deixaram referências estando agora menos acessíveis. Mas o amor de todos uns pelos outros, às vezes mais, às vezes menos, nos une ainda nos fazendo relembrar o quanto fomos felizes.

Ah! Tempo de colégio! Eu podia querer mais alguma coisa além de toda aquela vida colorida que meus amigos me ajudavam a pintar?

É! O que é bom dura o tempo suficiente para se tornar inesquecível, usando essa frase meio piegas, mas repleta de verdade. Porque aquela Turma daquele Colégio vai ficar para sempre na minha cabeça, gravada em brasa de sentimentos felizes no meu coração.

Amigos, colegas, irmãos, amores... nós ensinamos uns aos outros o sentido de crescer em harmonia. E isso é mais uma lição que cada um de nós, mesmo com o fim daquela fase tão boa, vai levar por toda a vida!


domingo, 7 de dezembro de 2008

Capitão

Henrique Fendrich
O leitor certamente sabe o que está acontecendo em Santa Catarina. E se não sabe, deveria saber. Não é preciso que eu informe nada a respeito. O que ele certamente não sabe é sobre o casal de velhinhos. Eles moram em Blumenau, ou Itajaí, ou mais provavelmente Ilhota. Moravam em uma pequena casa no alto de um morro. E veio a chuva. Cada vez mais forte e arrasadora, destruindo a cidade. Ora, era questão de tempo até que também a casa dos velhinhos desmoronasse e eles morressem soterrados. Qualquer cidadão com um número mínimo de miolos teria saído dali o mais rápido possível.

Mas não aquele casal de velhinhos, que lá permaneceu tranquilamente. Placidamente, a senhora lavava as louças da casa quando apareceu um bombeiro intrometido querendo salvá-la. Qual! Ela disse que não queria sair dali. O marido disse a mesma coisa, e ainda alegou o seguinte: “Se é pra morrer, vai ser na minha casa”. E lá se deixaram ficar, indiferentes ao perigo que corriam. Antes que meus pacientes leitores se alarmem, já adianto que a história terminou bem e eles foram resgatados.

Não faltará quem diga, no entanto, que o casal estava caduco. Nada sei a esse respeito. Apenas vejo com sincero respeito aquele senhor que não achou necessário receber ajuda. Era, na verdade, um sábio capitão, que afundaria junto com a casa, se fosse preciso. Não iria abandoná-la assim, tão facilmente. Ora, pois viveu a vida toda ali! As paredes eram revestidas pelos seus antigos e suaves sentimentos de amor e tristeza. Elas guardavam um passado que já não interessava sequer aos seus parentes. E escondiam os motivos de todas suas rugas. O capitão, em suma, estava em cada pedaço da sua casa. E vejam que idéia, tirá-lo de lá e falar que o estavam salvando! Não se cogita a hipótese de semelhante ato – que, na verdade, representa o que há de mais ultrajante para um capitão.

Além do mais, que vantagem poderia caber a um capitão que fica sem navio? Fosse ele um robusto jovem, e talvez o naufrágio não lhe custasse a vida. Não lhe faltaria oportunidade para conseguir um novo, e logo tudo estaria refeito. Teria tempo e juventude para isso. Mas não é o que acontece com o nosso velho capitão. Sua casa afundará. Vamos dizer que ele não esteja dentro e consiga escapar. Vai sobreviver, mas sobreviver sem navio. E não tem tempo nem dinheiro nem vontade de adquirir um novo. Ora, está velho e acabado. Não há como suportar a perda de algo que estima tanto. De modo que, para ele, entre perder a casa e morrer não há tanta diferença assim.

Mas a imagem que fica não é do capitão. É, ao contrário, a do velho turrão. Tire o leitor a conclusão que achar mais adequada. A mim, cabe apenas escolher um fato miúdo do cotidiano e transformá-lo em assunto principal. Já agora acho a comparação desse texto ultrapassada, e talvez de mal gosto. Que fique aí, ao menos, como um das provas de que a tragédia de Santa Catarina foi capaz de atingir quem morava muito longe.