domingo, 7 de dezembro de 2008

Capitão

Henrique Fendrich
O leitor certamente sabe o que está acontecendo em Santa Catarina. E se não sabe, deveria saber. Não é preciso que eu informe nada a respeito. O que ele certamente não sabe é sobre o casal de velhinhos. Eles moram em Blumenau, ou Itajaí, ou mais provavelmente Ilhota. Moravam em uma pequena casa no alto de um morro. E veio a chuva. Cada vez mais forte e arrasadora, destruindo a cidade. Ora, era questão de tempo até que também a casa dos velhinhos desmoronasse e eles morressem soterrados. Qualquer cidadão com um número mínimo de miolos teria saído dali o mais rápido possível.

Mas não aquele casal de velhinhos, que lá permaneceu tranquilamente. Placidamente, a senhora lavava as louças da casa quando apareceu um bombeiro intrometido querendo salvá-la. Qual! Ela disse que não queria sair dali. O marido disse a mesma coisa, e ainda alegou o seguinte: “Se é pra morrer, vai ser na minha casa”. E lá se deixaram ficar, indiferentes ao perigo que corriam. Antes que meus pacientes leitores se alarmem, já adianto que a história terminou bem e eles foram resgatados.

Não faltará quem diga, no entanto, que o casal estava caduco. Nada sei a esse respeito. Apenas vejo com sincero respeito aquele senhor que não achou necessário receber ajuda. Era, na verdade, um sábio capitão, que afundaria junto com a casa, se fosse preciso. Não iria abandoná-la assim, tão facilmente. Ora, pois viveu a vida toda ali! As paredes eram revestidas pelos seus antigos e suaves sentimentos de amor e tristeza. Elas guardavam um passado que já não interessava sequer aos seus parentes. E escondiam os motivos de todas suas rugas. O capitão, em suma, estava em cada pedaço da sua casa. E vejam que idéia, tirá-lo de lá e falar que o estavam salvando! Não se cogita a hipótese de semelhante ato – que, na verdade, representa o que há de mais ultrajante para um capitão.

Além do mais, que vantagem poderia caber a um capitão que fica sem navio? Fosse ele um robusto jovem, e talvez o naufrágio não lhe custasse a vida. Não lhe faltaria oportunidade para conseguir um novo, e logo tudo estaria refeito. Teria tempo e juventude para isso. Mas não é o que acontece com o nosso velho capitão. Sua casa afundará. Vamos dizer que ele não esteja dentro e consiga escapar. Vai sobreviver, mas sobreviver sem navio. E não tem tempo nem dinheiro nem vontade de adquirir um novo. Ora, está velho e acabado. Não há como suportar a perda de algo que estima tanto. De modo que, para ele, entre perder a casa e morrer não há tanta diferença assim.

Mas a imagem que fica não é do capitão. É, ao contrário, a do velho turrão. Tire o leitor a conclusão que achar mais adequada. A mim, cabe apenas escolher um fato miúdo do cotidiano e transformá-lo em assunto principal. Já agora acho a comparação desse texto ultrapassada, e talvez de mal gosto. Que fique aí, ao menos, como um das provas de que a tragédia de Santa Catarina foi capaz de atingir quem morava muito longe.

Um comentário:

  1. Outra crônica para a selação "nó na garganta". As suas palavras me mostraram o sentido real da expressão construir a vida... Notamos que quanto mais o tempo passa mais falamos do passado que é tão tênue e as vezes meio irreal... No fundo, é o que você me fez entender: vivemos sob o que construímos... e ao chegar a certo ponto da vida entendemos que a morte não é um final tão terrível assim (se é que é mesmo um final). Acho que acabamos por compreender o que é realmente o tempo. Tenho a impressão que até nos tornamos amigos. Quanto ao casal de velhinhos, talvez nem seja tão bom que tenham sido resgastados. Apenas se houverem pessoas para vê-los como capitães. E quanto aos desastres em Santa Catarina o povo,como um ser só, irá reconstruir aquele estado tão bonito. E os anônimos serão lembrados apenas aqui, nas páginas dos escritores do cotidiano.

    ResponderExcluir

Para contato, nosso email é vidanacronica@gmail.com