domingo, 21 de dezembro de 2008

Noel


Henrique Fendrich
(...)

E lembrou de uma história do Pato Donald. Deu risada da lembrança, é engraçado lembrar do Pato Donald. Não é todo mundo que se veste com roupa de marinheiro – ainda mais sem calça. Era uma história em que ele e os sobrinhos ficam perdidos na neve. Pedem ajuda numa casa onde mora uma viúva e um casal de filhos. Também é véspera de Natal. A família é pobre. Não tem peru na ceia: há apenas uma lata de ervilhas. Mas quem diria, eles não estão tristes! As crianças explicam que é só fechar os olhos e imaginar que ali diante deles está um delicioso peru, não uma lata de ervilhas. Pato Donald. O gibi imita a vida. Fechar os olhos e imaginar, eis uma das melhores soluções que já ouvi, se encaixa em tantos outros problemas. Não é à toa que saiu da boca de crianças. Havia mais que uma lata de ervilhas em casa, mas ele nunca pensou que isso viria a se tornar um consolo.

Pensou em como eram as coisas há alguns anos, quando ele ainda não tinha ingressado no Mundo da Gente Grande. O que era a preocupação nesse tempo? Era olhar pra fora e ver que está ameaçando cair chuva, logo hoje que eu tinha jogo marcado com a turma! Era a preocupação, dessas que não chegam a deixar rugas em nossa testa. E estava-se sempre certo que, de qualquer maneira, independente das molecagens que fizessem, na noite de vinte e quatro sempre se receberia algum mimo, um presente que os deixasse extasiados a semana inteira. E quando fosse vinte e cinco, toda a turma da vizinhança saberia o que cada um ganhou e dividiriam seu entusiasmo, e compartilhariam suas impressões. Pensava essas coisas, e de súbito teve um tímido reconforto. Achou que o Fantasma dos Natais futuros seria mais generoso com ele. Ele estava demorando, mas chegaria, e seria muito melhor. Apenas o Fantasma do Natal presente não lhe passava muita simpatia.

(...)

E aquele caminhãozinho, feito toscamente com as próprias mãos durante a semana, foi o presente. O único. Entregue com o constrangimento de quem achava que tinha a obrigação de estar dando algo melhor. De quem achava que tinha falhado.

- O Papai Noel teve um ano difícil. Mas ele me prometeu que ano que vem vai tirar todo o atraso...

Mas ele nem prestou atenção na desculpa. Apenas seus olhos brilhavam. Explicou: era só fechar os olhos e imaginar que era um carrinho de controle remoto, aquele que ele queria.

E saiu brincando, verdadeiramente contente, olhos fechados.

Um comentário:

  1. Bonita. Dessas belezas frias e distantes. Do tipo de beleza que você olha, sente o nó na garganta mas prefere não comentar. Natal... o que são essas datas senão um fechar de olhos pra fingir que tudo é paz e vai bem... Já começo a ter asco de tudo isso... Mas enfim, um feliz natal! E obrigada pela linda visão!!

    ResponderExcluir

Para contato, o email é vidanacronica@gmail.com