domingo, 20 de dezembro de 2009

Tédio



Marina Costa

Suspiro. Suspiro duplo e profundo para essa tarde de quinta feira, terrivelmente oca. Apesar de me encontrar no lugar onde, oficialmente, eu deveria estar plenamente ocupada, o tédio me domina como bicho de goiaba. Já subi em cadeira, arrumei arquivo, fucei daqui e dali em busca de um serviço perdido mas, como uma barata tonta, rodopiei em círculos inúteis até cair novamente no lugar que ocupo, minha cadeira, minha mesinha em frente ao ventilador. Fico parada e quase tão inútil quanto um boneco de ar em posto de gasolina. Sentada em minha mesa, leio três livros ao mesmo tempo e volta e meia jogo todos longe, alegando que são de uma chatice sem limites. Na verdade, tenho é medo que a leitura acabe e aí sim não reste nada para fazer.

Ao todo, e só hoje, já tomei três litros de café, percorri dois quilômetros andando de um lado para outro no corredor e verifiquei que passaram pela minha porta cinco pessoas com camisa cinza, oito com camisa branca, duas meninas de saia jeans e um homem sem roupas, totalmente nu. Mentira. É só para animar pelo menos a crônica.

Não agüento mais o joguinho do celular e nem tenho para quem telefonar. Na verdade, não estou a fim de repetir a mesma conversa de conhecidos entediados e escutar um”ixiiiiii!” quando perguntar sobre algo novo.

O tic tac do relógio (imaginário diga-se de passagem, o relógio é digital mas minha imaginação é multifuncional) não pode me aborrecer mais. A tal seis da tarde parece uma hora inexistente e quase hipnoticamente me vejo a olhar o marcador, na ilusão de que, como na tv, o momento chato possa passar em um segundo e no próximo eu possa aparecer refestelada em uma praça, curtindo um sorvete de kiwi.

Mas nada. Sinto como se estivesse trancada em uma sala branca, cheia de portas brancas com maçanetas douradas. Abro inúmeras delas, mas só vejo mais salas brancas com mais portas brancas e idênticas maçanetas douradas. Às vezes o telefone toca e é como se de repente eu avistasse uma maçaneta azul. Mas quando entendo que ligaram no ramal errado, percebo que na verdade a cor azul era só uma sombra na última maçaneta dourada lá do fundo infinito.

Pior do que ficar nesse tédio sem fim é preenchê-lo com essas palavras imbecis de quem tenta amortecer uma chatice fingindo que tem algo pra fazer. Alguém que passar pelo corredor vai imaginar que trabalho, eu vou me passar pra trás fingindo que faço pelo menos uma crônica útil e assim, ao final do expediente, todos vamos pra casa enganados, na ilusão de que tudo correu como devia.

Não que eu seja incompetente. Que somos enganados e nos fingimos de desentendidos para muita coisa na vida, lá isso é verdade. O que me falta aqui na realidade é ocupação. Ou quem sabe criatividade para ir além de minhas obrigações de funcionária pública.

Mais uma vez percebo, por minha própria boca – ou seriam dedos – , que sou comodista. Ao invés de ir atrás de inovações, trabalhos, diversificação, fico aqui esperando que o serviço caia do céu, consciente de que isso só acontecerá se o armário não se agüentar e jorrar processos em minha cabeça.

Bom, concluo então que o meu comodismo gera meu tédio que faz com que eu me sinta uma inútil completa. É, acho que a possibilidade de fazer alguma coisa está nas minhas mãos e apenas nelas. Tal como naqueles detestáveis livros de auto-ajuda - “Só você pode fazer mais por você mesma, com sua força interior e beleza! Acredite em você!”. Não penso duas vezes. Uma luz se acende em minha cabeça. Já sei o que fazer para acabar com toda essa sensação. No exato momento em que colocar neste papel o último ponto final, vou atirar no lixo minha pena. Na atual circunstância, quero dizer que no instante em que der por terminada essa tediosa narrativa, puxarei a tomada desse maldito computador e sem remorsos vou voltar a observar modelitos passando pelo corredor desse departamento, na esperança de que apareça aquele tal homem nu.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Antes de dormir

Marina Costa

Passo parte do dia sem saber se realmente estou acordada e parte da noite desperta, com medo do que posso sonhar. Ando às cegas, tateando as paredes brancas da vida sem entender para onde estamos indo e inconformada com a lâmina fria do “por quê estamos aqui” não respondida. Se há algo que me sustenta e me faz acreditar que vivo são as palavras que, pelos dedos ou pela boca, terminam por se libertar de mim. No meu pensamento, não acredito mais. Sabe-se lá se não há uma máquina que organiza tudo aqui dentro. Mas, inevitavelmente, penso. Cada dia chego mais perto da conclusão, ainda obscura, que vai se formando em minha mente, dizendo: “Pense, mas guarde tudo para si. Eles estão na esquina, prontos para te fazerem acreditar que você é um nada, assim que abrir sua maldita boca”. As palavras, como diria Exupéry, são realmente uma fonte de mal entendidos e estou cansada de me ver tão pouco compreendida, como muitos, antes e depois de mim, se viram. Guardo o que descobri para os seres que vivem dentro de mim, pois não quero vê-los açoitados em conseqüência de meus disparates. Cansei de tentar unir uns e outros, exteriores à mim, à minha cegueira individual. De agora em diante quem quiser que caminhe por si, com seus próprios passos incertos. Já me basta o fardo de carregar esse meu mundo sem cor.
Não sou depressiva, nem tenho o germe da revolta, ao contrário, há muito já me resignei. Aprendi, com dores e lágrimas, que o mundo é mecânico e somos programados ao nascer para falar o que eles querem ouvir, pensar o que é permitido concluir, sorrir apenas quando a situação não deixa margens para o choro. Tentei, confesso que pouco mas tentei, libertar minhas mãos e pés desses grilhões pesados da ignorância humana, mas só consegui cicatrizes, dentro e fora de mim. Pareço uma anciã ranzinza, com tantas palavras duras, eu sei. Mas a humanidade tem um passado condenado e um futuro que parece não querer se mostrar. Eu me decepcionei. E nem o tiro da misericórdia não me é mais permitido. O mundo de hoje está construído sobre os ideais nobres de guerreiros outrora destemidos e, alimentados por nossos medos e fraquezas, esse mesmo mundo criou vida, engolindo as engrenagens, e alimentando com ferro e ouro os seres vazios e incapazes de pensar, que nos transformamos. Acordei por um segundo, mas preferi tornar a me deitar. Sobreviver no vácuo humano a que fomos sujeitados talvez seja mais fácil do que gritar à ouvidos que são incapazes de escutar, à mãos que são incapazes de atirar paus e pedras contra escudos de plástico. Pode um homem só lutar contra a indiferença de exércitos? Onde estão meus semelhantes que não gritam junto comigo? Cansei de procurar e ouvir zombarias. Estou farta de dar a mão e sentir a dor da palmatória. Vou me deitar sobre minha cama de pregos e dormir o sono dos condenados.
Vivendo nessa irrealidade construída para a satisfação dos fracos, todos temos chances de acreditar que somos mais do que somos. E no fundo não é o que queremos? Ser melhor? Não para nós mesmos, mas para nos mostrar frente a outros que vêm no “ter” a razão do existir. Ser o que perdoa, o que doa, o que concede, o justo e sábio. Mas não somos e isso nos deixa frustrados. Saber que nossa moral tão enobrecida só é feita de sujeira e corrupção fere a carne como fogo. A verdade não tem lugar nas relações que queremos agora, pontes construídas com mentiras são mais baratas e mesmo que acabem por ruir, pouco importa os corações que forem soterrados, desde que mentes já tenham sido dominadas. É fácil, basta esconder tudo o que não aceitamos debaixo do tapete. E fingir que somos felizes e perfeitos como o criador que inventamos. Talvez as minhas descobertas, de que o mundo apodreceu, de que somos metade ruindade e metade indiferença – como bem alertou Saramago –, de que nada mais tem jeito nessa vida, acabem por ser soterradas pelos vícios da sociedade corrompida em que vivo. Começarei a tentar acreditar que trabalhar e pagar impostos é nosso ideal de vida para sermos velhinhos limpos e repletos de memórias de tempos que nunca existiram para relatar fingidos conselhos a nossos netos fúteis, comemorando fundamentos sem princípios nos natais onde reuniremos familiares atolados em frustrações acumuladas e maquiados por falsos sorrisos.
Triste pode parecer, mas só pra quem por momentos despertou. Para aqueles que vivem a dormir, é a vida ideal. O objetivo final. Mas para quem acordou, como já disse, traz a dor insuportável de saber que nada é real a ponto de entendermos o porquê dessa raça ter andado por tanto tempo num caminho que parecia o certo e ter apresentado por tantas vezes seres iluminados que quiseram lutar contra nossa cegueira.
Mesmo que lágrimas escorram por meus olhos, não se preocupem, eu não choro de verdade. É apenas uma forma de rebeldia inocente e fingida, para não provocar a ira daqueles que cavalgam sobre nossos lombos, buscando a ganância que nunca cessa.
Não se assustem também com meu silêncio e com meus olhos brancos. A partir de agora, talvez por apenas algumas horas ou pelo resto da vida, eu sou o que querem que eu seja. Alguém que olha sem ver. E sorri sem saber o por quê. Palavras duras como o fel que me envenena. Lanço-as ao mundo para que eu me sinta pura.

domingo, 29 de novembro de 2009

Elas


Marina Costa

Passa dias sem ligar e de repente surpreende, dizendo hoje. O frio na barriga sobe para a boca que ri de expectativa nervosa. As horas então pingam mais lentamente, molhando as mãos. Quando o céu começa a ficar rosa, tal qual a boca dela, chega a hora. Na mesa do bar, o vidro do copo está amarelado, pegou emprestado a cor do vestido dela. E o tempo é todo ela.

Assunto qualquer, pra ouvir o tinir da sua voz com a minha. Palavras empunhadas pelo ar, desviadas pelos cílios longos que fingem sorrir um riso sem preocupação. Mas o olho não engana, turvo como a tempestade que arrasa minha cabeça. E o perfume de canela, tonteando minha já pouca sensatez. Tenho a impressão que o mundo vai morrer no sorriso dela.

As estrelas, bebericando nossa cerveja, estão atentas às reticências. Cada ponto tão cheio de significação que o próprio ar prende a respiração esperando o que vem depois. E eu, balanço a perna no balanço do cabelo enrolado dela. Querendo enrolar com ela. E ela, vai me enrolar, eu sei.

Fim de noite, cadeiras para cima, tchauzinho do táxi pela janela. Um último gole molha a garganta seca, de ânsia. Ávida de saliva outra. Não resta muito a não ser pensar no próximo dia, roleteado pela vontade dela. Porque já não existe a minha.

Em casa, os sapatos ficam perto do sofá. O vestido, manchado, cai no azulejo branco amanhecido. No rádio, alguém canta um versinho frio como a água do chuveiro, sozinho como minha vontade. E na minha pele branca, no meu corpo de menina, ensaboado de saudade, eu sinto a brisa pouca, o desejo muito e a tristeza sóbria de não poder me dissolver no colo dela...

sábado, 7 de novembro de 2009

"Je est um autre."

Marina Costa
(De como uma prova de faculdade pode virar postagem...)

Modernidade, senhora de tantos teoremas e tratados, sinônimo de contemporâneo criativo, de progresso do ócio humano em todos os campos (arte?), de descobertas jamais imaginadas pelas mentes sossegadas dos homens de ontem que agora olham, estarrecidos, esse futuro que chegou. Tal estarrecimento, em alguns, deixa-se diluir no fluxo da vida corrida, cheia de atribuições ordenadas e jamais questionadas por ela ( a modernidade, lembra?...)

Mas entre estes seres há sempre aqueles: os deslocados, os incomodados, destoantes desse novo que soa falso, como um cenário teatral. E no centro dessa peça, assistimos Fernando Pessoa libertando personagens fazendo de sua voz a voz de outros que reivindicaram e obtiveram sua completa independência do criador que deixa de assim o ser.

Para quê estamos aqui? Ora, racionalismo simples: buscar a nossa plenitude. O homem individualmente completo, soberano de corpo e mente. Falácia? Não para o ideal reinante. Utopia para os que compreenderam, pelo mal ou pelo mal, que somos milhões de partes atravessando o tempo sem jamais se integrar.

Crise de meia idade? Crise de modernidade! Cada vez que as opções se tornam mais vastas, o pensamento (veja bem, daqueles senhores não castrados mentalmente) sente-se mais perdido, mais partido, como cascalho na estrada... Cada pedrinha de cascalho, entre tantas outras, sente doer sua limitação, seu isolamento que jamais pode ser desfeito – afinal, a montanha não passa de ilusão.

A moderhumanidade avança ampulheta a baixo, e a solidão no meio de tantos iguais (?) começa a tomar consciência da fragilidade da própria carne... Não somos deuses! Os ideais não são mais os mesmos, as lembranças aparecem anuviadas, a felicidade fácil (parecia) torna-se mais inalcançável proporcionalmente ao aumento do conhecimento.

Sinto-me múltiplo. Os heterônimos de Pessoa representam o ápice de nosso estilhaçamento individual. É o homem moderno em crise. Crise silenciosa, prática e sempre sem rumo, sem saber aonde vai dar, como tudo na modernidade. Então, seremos vários dentro de um, para dar conta dos inúmeros papéis que precisamos ter para não enlouquecer. E se o fim do caminho for mesmo lá? Quem não estará destinado à loucura?

domingo, 4 de outubro de 2009

Quina da Parede


Marina Costa


Domingo. Dia bendito e maldito que trás descanso e cansaço simultaneamente. As horas que me restam para fingir que não existo são as mesmas que faltam para me por apostos para o serviço. Termino meu dia observando a quina branca da parede. Os livros já me entediam, a televisão me dá náuseas com seus programas sub-culturais, o rádio toca melancólicas canções sertanejas que contribuem para meu asco. Assim, me perco analisando a quina da parede.

Deito de cabeça para baixo para melhorar meu ângulo de visão. Viro de lado para enxergar o ponto que some aos olhos. Fecho os mesmos olhos para trabalhar a memória. Por fim me perco no labirinto do que vejo, esquecendo do resto do domingo, da tal quina, das horas.

Um pensamento puxa o outro, pula para um lugar distante e cai dentro da minha própria cabeça de proporções infinitas. A leitura do último livro que li me coloca no lugar de sua personagem principal. O homem dos meus sonhos, mais idealizado do que real, se transmuta no príncipe perfeito da história contada. E com detalhes vislumbro o campo sempre verde das histórias felizes, o céu sempre azul de dias de eterna paz, o sorriso rosa na boca das pessoas que não se preocupam com os domingos da vida.

Seria bom viver dentro de um livro. Eternamente dormindo, trançando os cabelos, sendo aquecida pelo sol sem me importar com o maldito cuco que rege a vida aqui fora. Então quando por ventura o livro fosse aberto, pularia da grama rapidamente, num passe de mágica estaria vestida a dizer as mais belas frases comoventes: “Amado dos olhos meus, prometes que fica?”...

Aí, quando o leitor se enjoasse de mim, ele jogaria o livro na estante, eu riria para o “Amado dos olhos meus” com a cumplicidade de quem mais uma vez serviu de passatempo a outro ser entediado. Deitaria novamente na grama, apreciando a lua cheia que chegou aqui dentro da obra, sem nem mesmo imaginar o que significa resto de domingo. Ou quinas de parede...

Mas eis que um estrondo me leva ao chão frio do quarto real. Na televisão um grupo de adolescentes morre em um acidente de carro. As mães choram, a árvore implora pela absolvição de sua culpa inocente, as cinzas são carregadas para o mar em uma onda sem volta.

Eu apago os últimos vestígios de delírios da minha mente, abalada pela vida nova que brutalmente se extinguiu. Deito e rezo para um Deus que não sei se existe, mas me justifica existir e sonhar e entender que antes o tédio do viver do que a precipitação num buraco sem fundo e sem volta, a perdição de uma vida que podia ser tudo e em poucos segundos voltou a ser nada.


Que venha a segunda-feira.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eu vou


Marina Costa

Sexta. No carro, vamos indo. O relógio continua me perturbando, contando os segundos para levar meu fim de semana mas eu jogo essa coisinha asquerosa pela janela, pego a canga e depois daquela pedra tudo fica verde esperança com respingos de amarelo delícia no nosso capô. O dia amanhece limpo e lindo, o céu estalando de tão azul e assim que ele olhou para mim, eu disse “eu vou”! A praia estava vazia, o coco trincando de tão gelado, o mar piscando de um jeito sapeca e a areia impacientemente esquentando meu pé. Virei e disse: já fui! Os meninos bronzeados, as meninas de biquíni – pára de olhar! - , o sol todo enrolado no meu corpo, a água escorrendo fria pela minha barriga, o garçom me olhou com o sorriso de cúmplice mais fiel da orla e eu digo feliz “pode vir”! A onda quebra na praia, aparece uma estrela laranja que sussurra “me leva” e eu ganho esse presente de Iemanjá. Sua benção do mar. E eu sou. Levei. Uma explosão no horizonte, alguém chutou um balde de tinta rosa no céu, as estrelas começam a pipocar brilhantes e acho que vi um ser em uma bicicleta cruzando a Lua redonda. Dou um tchauzinho, olho para ele e sei que a gente pensa “vam’ embora”! Já fui! Sonhei. Ficar aqui para o resto da vida, sem conta no banco ou CPF, como um grão no chão... ao léu... Um nada. Um nada cheio de vida e fora da correria para tentar ser um nada no degrau de cima. Prefiro. Só que não tem jeito. O coração do papai não ia agüentar. E isso é o suficiente para me deixar na forca. Eu fico. E meu medo? Deus dá o frio conforme o cobertor, né mãe? Mas o problema é que conheci o edredom. Enfim... E ela chega, sinuosa e escorregadia, preparando o bote, já dá para sentir o aperto no pescoço... A segunda. Acordo pensando “tenho que ir”. Mas ainda tenho a soneca, só mais cinco minutinhos de paz e volto para o sonho de ser hippie, morar no oco da árvore, fazer artesanato de durepox, usar dread colorido e acreditar que minha juventude vai durar para sempre como nos filmes de Woodstock. E quem disse que não vai... Eu vou! Ah, Jeri...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O amigo

Da série: "O Namorado da minha amiga".

Marina Costa

Eles iam fazer três anos de namoro. No dia das mães. A sogra, mãe da namorada, ia fazer um grande almoço para comemorar tudo de uma vez só. Afinal, um genro como aquele, era mesmo caído dos céus, direto do colo de Deus para os braços de sua filha. Um menino de ouro. Sempre limpinho, sempre cheiroso, sempre sorrindo. Tão educado, de família tão boa. Bem apessoado, instruído, quase formando. Já tinha carro próprio, um bom salário, um emprego fixo e além do mais, tinha aquele sorriso encantador. Ah, como era feliz pela filha! Ia fazer um belo casamento! Não importava que ambos fossem muito jovens. Estabilidade cedo, era disso que todo mundo precisava para ter uma boa vida pela frente!
O dia das mães – o tal dia – raiou. A filha ligou, dizendo que estava na rodoviária, se o pai poderia buscá-la. A mãe, com o gancho do telefone suspenso e sem ter muita certeza do que dizia perguntou ao pai que respondeu afirmativamente. E depois de desligar não disse uma palavra até a filha chegar.
Não queria pensar. Eles tinham confirmado presença, no dia anterior mesmo, ela e o bom partido, digo, o namorado. Sentou e esperou. Então ela chegou. Sorridente e cheia de saudades. Abraçou a mãe, que espiava por cima do seu ombro, procurando por ele. Ficou sem entender. O que a mãe buscava, tão ansiosa? Ah! Claro! Tirou da mochila uma caixa rosa. A mãe, mecanicamente, abriu. Talvez houvesse um bilhete dele. Descobriu um creme anti rugas. Nem se abalou. Mas não agüentava mais. Perguntou por ele. Terminamos, disse a garota, sempre sorrindo.
A mãe se sentou. Tateou a mesinha de centro em busca dos óculos e perguntou “o quê”. A filha achou graça. Até parecia que com os óculos ela ouviria melhor! Mas repetiu. É mãe. Andei descobrindo umas coisas dele aí. Fiquei sabendo que um amigo dele andou trazendo recado da ex, levando do meu agora ex, descobri uns emails muito cheios de flores para outra, vi umas fotos com beijinhos pra cá, na faculdade era beijinho pra lá, por fim me enchi.
Encheu? Mas como assim encheu? Um rapaz tão bom! Tão bonito! E como era simpático o menino! Ô minha filha, sabe quando você vai arrumar coisa melhor... ia dizendo a mãe quando a filha se saiu com essa: e quer saber mãe, depois que ele perdeu o emprego andava muito cara de pau. Acredita que me pediu vinte reais pra visitar o tal amigo, semana passada?
Se é que era possível, a mãe ficou ainda mais passada! O que???? Te pedindo dinheiro? Perdeu o emprego? Olha, minha filha bem que seu pai andava dizendo que não era hora de arrumar um namoro tão sério assim como o seu... afinal, você ainda é tão pequenininha! Ah, meu bebê...
A mãe abraçou a filha. E a filha deu uma piscadinha pro pai. Não pensem vocês, caros leitores, mal desse cara senhora. Sabem como é, vivemos em um sistema capitalista, onde o lema é cada um por si e vamos ver quem se sai melhor. E além do mais, pai e filha sabiam que era antes deixá-la iludida quanto à essa mesquinha mudança do menino do que lançar-lhe à face a verdade realmente acontecida.
O fato é que sua doce filhinha, em sua inocência interiorana, não percebeu que de seus quase três anos de namoro, dois passou sendo enganada. O tal amigo era na verdade mais íntimo do que os ditos preceitos cristãos podem aceitar. E por tal motivo, o bom menino achou por bem tomar um moça séria, de família uma espécie de cartão de visitas.
Demorou pra moça séria aceitar – mais do que entender – que essa era a postura de seu primeiro namorado, o homem com quem queria se casar. Mas quando percebeu que não poderia mais ter ilusões, resolveu dar um basta na situação. Não que tivesse ficado escandalizada ou que fosse algo absurdo. Absurdo era não deixar as pessoas serem felizes, cada uma da sua maneira pois ninguém foi feito usando máquina de xerox. E se ela insistisse, não seria feliz muito menos deixaria com que os dois fossem. Cada um que seguisse seu caminho então e boa sorte. O amor que ela tinha podia mesmo encontrar um destino novo. E o amor que eles queriam ter, se fossem mais honestos, podia até virar história de novela.
O pai, ao ouvir a narrativa, no curto caminho da rodoviária até em casa não pode deixar de rir. Disse que aquela polidez nunca o enganou. O moço ser educado e perfumado tudo bem. Mas não pegar nem na mão da namorada dizendo, nos tempos de hoje, que é respeito pelos pais, não cola mais. A filha achou divertido o pai levar na esportiva e juntos criaram a desculpa-conforto para a mãe.
Quem ficou feliz com isso foi um antigo namoradinho, que vendo sua chance retornar cinco anos depois, não deixou escapar e no sábado mesmo já a convidou pra sair. Pelo que sei agora, os dois andam como pombinhos e ele garantiu pra ela que só tem amigas. Ela ficou bem mais aliviada. Porque o seu próprio taco ela garante com certeza. Agora, concorrer com alguém que entende mais de loção pós barba do que ela, definitivamente não dá.


domingo, 4 de janeiro de 2009

Reforma Ortográfica


Henrique Fendrich

Ele se chama Ivinimpapa e, mesmo assim, é brasileiro. Está com muitas luas de vida e vive numa grande maloca na Aldeia Maronal, no sudoeste do Amazonas – e portanto, dentro do Brasil. É o cacique dos índios marubos, que são aproximadamente 1300, uma das maiores tribos do Vale do Javari. O local ideal para tirar fotos no fim de semana e depois voltar para a nossa vida civilizada. A tribo já teve contato com os caras-pálidas, mas muitos de seus costumes ainda perduram. Dizem que é devido à distante localização, já nas proximidades do Peru. Os índios da região souberam achar uma utilidade para as roupas dos brancos: afastar o carapanã. E o pobre do homem branco precisa de um intérprete para saber que eles estão falando dos mosquitos.

Os índios mais jovens, esses sim, sabem falar português. Sabem porque já foram para Atalaia do Norte, a civilização mais próxima. Hoje, eles ensinam para a tribo. Mas ensinam em Pano, a língua que todos sabem falar, incluindo as mulheres e as crianças. É com palavras dessa mesma língua que Ivinimpapa cobra atitudes do governo para acabar com a malária, a hepatite e a tuberculose. O cacique não sabe ainda que o governo, seja qual for, não atende nem quem fala em português, que dirá em Pano. E para isso nem adiantam tradutores, pois todos são devidamente ignorados e em seguida comidos vivos no caldeirão da civilização.

Ora, estão falando em unificar a língua do Brasil com a de Portugal e com a dos outros países lusófonos. Só que há também 180 línguas indígenas faladas dentro do território brasileiro. A partir de janeiro do ano que vem, o tradutor do cacique Ivinimpapa também deverá se adequar às mudanças – e terá três anos para isso. Do contrário, será ainda mais difícil provar que os marubos fazem parte do Brasil.