domingo, 4 de janeiro de 2009

Reforma Ortográfica


Henrique Fendrich

Ele se chama Ivinimpapa e, mesmo assim, é brasileiro. Está com muitas luas de vida e vive numa grande maloca na Aldeia Maronal, no sudoeste do Amazonas – e portanto, dentro do Brasil. É o cacique dos índios marubos, que são aproximadamente 1300, uma das maiores tribos do Vale do Javari. O local ideal para tirar fotos no fim de semana e depois voltar para a nossa vida civilizada. A tribo já teve contato com os caras-pálidas, mas muitos de seus costumes ainda perduram. Dizem que é devido à distante localização, já nas proximidades do Peru. Os índios da região souberam achar uma utilidade para as roupas dos brancos: afastar o carapanã. E o pobre do homem branco precisa de um intérprete para saber que eles estão falando dos mosquitos.

Os índios mais jovens, esses sim, sabem falar português. Sabem porque já foram para Atalaia do Norte, a civilização mais próxima. Hoje, eles ensinam para a tribo. Mas ensinam em Pano, a língua que todos sabem falar, incluindo as mulheres e as crianças. É com palavras dessa mesma língua que Ivinimpapa cobra atitudes do governo para acabar com a malária, a hepatite e a tuberculose. O cacique não sabe ainda que o governo, seja qual for, não atende nem quem fala em português, que dirá em Pano. E para isso nem adiantam tradutores, pois todos são devidamente ignorados e em seguida comidos vivos no caldeirão da civilização.

Ora, estão falando em unificar a língua do Brasil com a de Portugal e com a dos outros países lusófonos. Só que há também 180 línguas indígenas faladas dentro do território brasileiro. A partir de janeiro do ano que vem, o tradutor do cacique Ivinimpapa também deverá se adequar às mudanças – e terá três anos para isso. Do contrário, será ainda mais difícil provar que os marubos fazem parte do Brasil.

2 comentários:

  1. Uma metáfora curta e direta sobre o que é essa história toda... No final das contas, a língua deixa de ser uma face da cultura popular para se adequar às finesses e politicagens de governantes... Em vários países do mundo pessoas que moram a menos de 100 km de distância falam dialetos às vezes completamente diferente. E aí agora eles chegam com essa papo de unificação da língua portuguesa e blá blá blá. Deviam entender que a língua muda por si só e não vai ser um livro com as normas da reforma que vai lembrar ao senhor Tião do Toco lá no Norte de Minas que não precisa mais usar o trema quando for contar aos netos que em seu quinquagesemo aniversário verá o mar pela primeira vez...

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  2. Não usar o trema tudo bem, mas o acento é bom neh... :P
    Voltando à ativa depois de alguns dias fora do alcande dos computadores... Existe vida sem internet, alguém acredita???

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