domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eu vou


Marina Costa

Sexta. No carro, vamos indo. O relógio continua me perturbando, contando os segundos para levar meu fim de semana mas eu jogo essa coisinha asquerosa pela janela, pego a canga e depois daquela pedra tudo fica verde esperança com respingos de amarelo delícia no nosso capô. O dia amanhece limpo e lindo, o céu estalando de tão azul e assim que ele olhou para mim, eu disse “eu vou”! A praia estava vazia, o coco trincando de tão gelado, o mar piscando de um jeito sapeca e a areia impacientemente esquentando meu pé. Virei e disse: já fui! Os meninos bronzeados, as meninas de biquíni – pára de olhar! - , o sol todo enrolado no meu corpo, a água escorrendo fria pela minha barriga, o garçom me olhou com o sorriso de cúmplice mais fiel da orla e eu digo feliz “pode vir”! A onda quebra na praia, aparece uma estrela laranja que sussurra “me leva” e eu ganho esse presente de Iemanjá. Sua benção do mar. E eu sou. Levei. Uma explosão no horizonte, alguém chutou um balde de tinta rosa no céu, as estrelas começam a pipocar brilhantes e acho que vi um ser em uma bicicleta cruzando a Lua redonda. Dou um tchauzinho, olho para ele e sei que a gente pensa “vam’ embora”! Já fui! Sonhei. Ficar aqui para o resto da vida, sem conta no banco ou CPF, como um grão no chão... ao léu... Um nada. Um nada cheio de vida e fora da correria para tentar ser um nada no degrau de cima. Prefiro. Só que não tem jeito. O coração do papai não ia agüentar. E isso é o suficiente para me deixar na forca. Eu fico. E meu medo? Deus dá o frio conforme o cobertor, né mãe? Mas o problema é que conheci o edredom. Enfim... E ela chega, sinuosa e escorregadia, preparando o bote, já dá para sentir o aperto no pescoço... A segunda. Acordo pensando “tenho que ir”. Mas ainda tenho a soneca, só mais cinco minutinhos de paz e volto para o sonho de ser hippie, morar no oco da árvore, fazer artesanato de durepox, usar dread colorido e acreditar que minha juventude vai durar para sempre como nos filmes de Woodstock. E quem disse que não vai... Eu vou! Ah, Jeri...

2 comentários:

  1. Delícia de crônica. Consegue realmente passar uma agradável sensação de férias. Me senti fazendo parte desse ambiente, também louco para permanecer lá para sempre.

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  2. E anos depois da crônica eu tenho dreads coloridos... Será um sinal feliz dos céus? Rs!

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