domingo, 1 de fevereiro de 2009

O amigo

Da série: "O Namorado da minha amiga".

Marina Costa

Eles iam fazer três anos de namoro. No dia das mães. A sogra, mãe da namorada, ia fazer um grande almoço para comemorar tudo de uma vez só. Afinal, um genro como aquele, era mesmo caído dos céus, direto do colo de Deus para os braços de sua filha. Um menino de ouro. Sempre limpinho, sempre cheiroso, sempre sorrindo. Tão educado, de família tão boa. Bem apessoado, instruído, quase formando. Já tinha carro próprio, um bom salário, um emprego fixo e além do mais, tinha aquele sorriso encantador. Ah, como era feliz pela filha! Ia fazer um belo casamento! Não importava que ambos fossem muito jovens. Estabilidade cedo, era disso que todo mundo precisava para ter uma boa vida pela frente!
O dia das mães – o tal dia – raiou. A filha ligou, dizendo que estava na rodoviária, se o pai poderia buscá-la. A mãe, com o gancho do telefone suspenso e sem ter muita certeza do que dizia perguntou ao pai que respondeu afirmativamente. E depois de desligar não disse uma palavra até a filha chegar.
Não queria pensar. Eles tinham confirmado presença, no dia anterior mesmo, ela e o bom partido, digo, o namorado. Sentou e esperou. Então ela chegou. Sorridente e cheia de saudades. Abraçou a mãe, que espiava por cima do seu ombro, procurando por ele. Ficou sem entender. O que a mãe buscava, tão ansiosa? Ah! Claro! Tirou da mochila uma caixa rosa. A mãe, mecanicamente, abriu. Talvez houvesse um bilhete dele. Descobriu um creme anti rugas. Nem se abalou. Mas não agüentava mais. Perguntou por ele. Terminamos, disse a garota, sempre sorrindo.
A mãe se sentou. Tateou a mesinha de centro em busca dos óculos e perguntou “o quê”. A filha achou graça. Até parecia que com os óculos ela ouviria melhor! Mas repetiu. É mãe. Andei descobrindo umas coisas dele aí. Fiquei sabendo que um amigo dele andou trazendo recado da ex, levando do meu agora ex, descobri uns emails muito cheios de flores para outra, vi umas fotos com beijinhos pra cá, na faculdade era beijinho pra lá, por fim me enchi.
Encheu? Mas como assim encheu? Um rapaz tão bom! Tão bonito! E como era simpático o menino! Ô minha filha, sabe quando você vai arrumar coisa melhor... ia dizendo a mãe quando a filha se saiu com essa: e quer saber mãe, depois que ele perdeu o emprego andava muito cara de pau. Acredita que me pediu vinte reais pra visitar o tal amigo, semana passada?
Se é que era possível, a mãe ficou ainda mais passada! O que???? Te pedindo dinheiro? Perdeu o emprego? Olha, minha filha bem que seu pai andava dizendo que não era hora de arrumar um namoro tão sério assim como o seu... afinal, você ainda é tão pequenininha! Ah, meu bebê...
A mãe abraçou a filha. E a filha deu uma piscadinha pro pai. Não pensem vocês, caros leitores, mal desse cara senhora. Sabem como é, vivemos em um sistema capitalista, onde o lema é cada um por si e vamos ver quem se sai melhor. E além do mais, pai e filha sabiam que era antes deixá-la iludida quanto à essa mesquinha mudança do menino do que lançar-lhe à face a verdade realmente acontecida.
O fato é que sua doce filhinha, em sua inocência interiorana, não percebeu que de seus quase três anos de namoro, dois passou sendo enganada. O tal amigo era na verdade mais íntimo do que os ditos preceitos cristãos podem aceitar. E por tal motivo, o bom menino achou por bem tomar um moça séria, de família uma espécie de cartão de visitas.
Demorou pra moça séria aceitar – mais do que entender – que essa era a postura de seu primeiro namorado, o homem com quem queria se casar. Mas quando percebeu que não poderia mais ter ilusões, resolveu dar um basta na situação. Não que tivesse ficado escandalizada ou que fosse algo absurdo. Absurdo era não deixar as pessoas serem felizes, cada uma da sua maneira pois ninguém foi feito usando máquina de xerox. E se ela insistisse, não seria feliz muito menos deixaria com que os dois fossem. Cada um que seguisse seu caminho então e boa sorte. O amor que ela tinha podia mesmo encontrar um destino novo. E o amor que eles queriam ter, se fossem mais honestos, podia até virar história de novela.
O pai, ao ouvir a narrativa, no curto caminho da rodoviária até em casa não pode deixar de rir. Disse que aquela polidez nunca o enganou. O moço ser educado e perfumado tudo bem. Mas não pegar nem na mão da namorada dizendo, nos tempos de hoje, que é respeito pelos pais, não cola mais. A filha achou divertido o pai levar na esportiva e juntos criaram a desculpa-conforto para a mãe.
Quem ficou feliz com isso foi um antigo namoradinho, que vendo sua chance retornar cinco anos depois, não deixou escapar e no sábado mesmo já a convidou pra sair. Pelo que sei agora, os dois andam como pombinhos e ele garantiu pra ela que só tem amigas. Ela ficou bem mais aliviada. Porque o seu próprio taco ela garante com certeza. Agora, concorrer com alguém que entende mais de loção pós barba do que ela, definitivamente não dá.


3 comentários:

  1. Marina,

    Esta foi ótima! Gostei..rsrs..

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  2. A parte inicial com a angústia da mãe que esperava pelo namorado é sensacional rs.. Suas crônicas sobre esses temas de relacionamento sempre mostram sentimentos pungentes. São bons temas, e escritos de uma maneira atraente e bem-humorada, ainda que não deixe de lado a emoção.

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