domingo, 4 de outubro de 2009

Quina da Parede


Marina Costa


Domingo. Dia bendito e maldito que trás descanso e cansaço simultaneamente. As horas que me restam para fingir que não existo são as mesmas que faltam para me por apostos para o serviço. Termino meu dia observando a quina branca da parede. Os livros já me entediam, a televisão me dá náuseas com seus programas sub-culturais, o rádio toca melancólicas canções sertanejas que contribuem para meu asco. Assim, me perco analisando a quina da parede.

Deito de cabeça para baixo para melhorar meu ângulo de visão. Viro de lado para enxergar o ponto que some aos olhos. Fecho os mesmos olhos para trabalhar a memória. Por fim me perco no labirinto do que vejo, esquecendo do resto do domingo, da tal quina, das horas.

Um pensamento puxa o outro, pula para um lugar distante e cai dentro da minha própria cabeça de proporções infinitas. A leitura do último livro que li me coloca no lugar de sua personagem principal. O homem dos meus sonhos, mais idealizado do que real, se transmuta no príncipe perfeito da história contada. E com detalhes vislumbro o campo sempre verde das histórias felizes, o céu sempre azul de dias de eterna paz, o sorriso rosa na boca das pessoas que não se preocupam com os domingos da vida.

Seria bom viver dentro de um livro. Eternamente dormindo, trançando os cabelos, sendo aquecida pelo sol sem me importar com o maldito cuco que rege a vida aqui fora. Então quando por ventura o livro fosse aberto, pularia da grama rapidamente, num passe de mágica estaria vestida a dizer as mais belas frases comoventes: “Amado dos olhos meus, prometes que fica?”...

Aí, quando o leitor se enjoasse de mim, ele jogaria o livro na estante, eu riria para o “Amado dos olhos meus” com a cumplicidade de quem mais uma vez serviu de passatempo a outro ser entediado. Deitaria novamente na grama, apreciando a lua cheia que chegou aqui dentro da obra, sem nem mesmo imaginar o que significa resto de domingo. Ou quinas de parede...

Mas eis que um estrondo me leva ao chão frio do quarto real. Na televisão um grupo de adolescentes morre em um acidente de carro. As mães choram, a árvore implora pela absolvição de sua culpa inocente, as cinzas são carregadas para o mar em uma onda sem volta.

Eu apago os últimos vestígios de delírios da minha mente, abalada pela vida nova que brutalmente se extinguiu. Deito e rezo para um Deus que não sei se existe, mas me justifica existir e sonhar e entender que antes o tédio do viver do que a precipitação num buraco sem fundo e sem volta, a perdição de uma vida que podia ser tudo e em poucos segundos voltou a ser nada.


Que venha a segunda-feira.

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