domingo, 29 de novembro de 2009

Elas


Marina Costa

Passa dias sem ligar e de repente surpreende, dizendo hoje. O frio na barriga sobe para a boca que ri de expectativa nervosa. As horas então pingam mais lentamente, molhando as mãos. Quando o céu começa a ficar rosa, tal qual a boca dela, chega a hora. Na mesa do bar, o vidro do copo está amarelado, pegou emprestado a cor do vestido dela. E o tempo é todo ela.

Assunto qualquer, pra ouvir o tinir da sua voz com a minha. Palavras empunhadas pelo ar, desviadas pelos cílios longos que fingem sorrir um riso sem preocupação. Mas o olho não engana, turvo como a tempestade que arrasa minha cabeça. E o perfume de canela, tonteando minha já pouca sensatez. Tenho a impressão que o mundo vai morrer no sorriso dela.

As estrelas, bebericando nossa cerveja, estão atentas às reticências. Cada ponto tão cheio de significação que o próprio ar prende a respiração esperando o que vem depois. E eu, balanço a perna no balanço do cabelo enrolado dela. Querendo enrolar com ela. E ela, vai me enrolar, eu sei.

Fim de noite, cadeiras para cima, tchauzinho do táxi pela janela. Um último gole molha a garganta seca, de ânsia. Ávida de saliva outra. Não resta muito a não ser pensar no próximo dia, roleteado pela vontade dela. Porque já não existe a minha.

Em casa, os sapatos ficam perto do sofá. O vestido, manchado, cai no azulejo branco amanhecido. No rádio, alguém canta um versinho frio como a água do chuveiro, sozinho como minha vontade. E na minha pele branca, no meu corpo de menina, ensaboado de saudade, eu sinto a brisa pouca, o desejo muito e a tristeza sóbria de não poder me dissolver no colo dela...

Um comentário:

  1. Adoro suas cronicas Marina...viajei demais nessa!!!!!!!!continue postando

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