terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Antes de dormir

Marina Costa

Passo parte do dia sem saber se realmente estou acordada e parte da noite desperta, com medo do que posso sonhar. Ando às cegas, tateando as paredes brancas da vida sem entender para onde estamos indo e inconformada com a lâmina fria do “por quê estamos aqui” não respondida. Se há algo que me sustenta e me faz acreditar que vivo são as palavras que, pelos dedos ou pela boca, terminam por se libertar de mim. No meu pensamento, não acredito mais. Sabe-se lá se não há uma máquina que organiza tudo aqui dentro. Mas, inevitavelmente, penso. Cada dia chego mais perto da conclusão, ainda obscura, que vai se formando em minha mente, dizendo: “Pense, mas guarde tudo para si. Eles estão na esquina, prontos para te fazerem acreditar que você é um nada, assim que abrir sua maldita boca”. As palavras, como diria Exupéry, são realmente uma fonte de mal entendidos e estou cansada de me ver tão pouco compreendida, como muitos, antes e depois de mim, se viram. Guardo o que descobri para os seres que vivem dentro de mim, pois não quero vê-los açoitados em conseqüência de meus disparates. Cansei de tentar unir uns e outros, exteriores à mim, à minha cegueira individual. De agora em diante quem quiser que caminhe por si, com seus próprios passos incertos. Já me basta o fardo de carregar esse meu mundo sem cor.
Não sou depressiva, nem tenho o germe da revolta, ao contrário, há muito já me resignei. Aprendi, com dores e lágrimas, que o mundo é mecânico e somos programados ao nascer para falar o que eles querem ouvir, pensar o que é permitido concluir, sorrir apenas quando a situação não deixa margens para o choro. Tentei, confesso que pouco mas tentei, libertar minhas mãos e pés desses grilhões pesados da ignorância humana, mas só consegui cicatrizes, dentro e fora de mim. Pareço uma anciã ranzinza, com tantas palavras duras, eu sei. Mas a humanidade tem um passado condenado e um futuro que parece não querer se mostrar. Eu me decepcionei. E nem o tiro da misericórdia não me é mais permitido. O mundo de hoje está construído sobre os ideais nobres de guerreiros outrora destemidos e, alimentados por nossos medos e fraquezas, esse mesmo mundo criou vida, engolindo as engrenagens, e alimentando com ferro e ouro os seres vazios e incapazes de pensar, que nos transformamos. Acordei por um segundo, mas preferi tornar a me deitar. Sobreviver no vácuo humano a que fomos sujeitados talvez seja mais fácil do que gritar à ouvidos que são incapazes de escutar, à mãos que são incapazes de atirar paus e pedras contra escudos de plástico. Pode um homem só lutar contra a indiferença de exércitos? Onde estão meus semelhantes que não gritam junto comigo? Cansei de procurar e ouvir zombarias. Estou farta de dar a mão e sentir a dor da palmatória. Vou me deitar sobre minha cama de pregos e dormir o sono dos condenados.
Vivendo nessa irrealidade construída para a satisfação dos fracos, todos temos chances de acreditar que somos mais do que somos. E no fundo não é o que queremos? Ser melhor? Não para nós mesmos, mas para nos mostrar frente a outros que vêm no “ter” a razão do existir. Ser o que perdoa, o que doa, o que concede, o justo e sábio. Mas não somos e isso nos deixa frustrados. Saber que nossa moral tão enobrecida só é feita de sujeira e corrupção fere a carne como fogo. A verdade não tem lugar nas relações que queremos agora, pontes construídas com mentiras são mais baratas e mesmo que acabem por ruir, pouco importa os corações que forem soterrados, desde que mentes já tenham sido dominadas. É fácil, basta esconder tudo o que não aceitamos debaixo do tapete. E fingir que somos felizes e perfeitos como o criador que inventamos. Talvez as minhas descobertas, de que o mundo apodreceu, de que somos metade ruindade e metade indiferença – como bem alertou Saramago –, de que nada mais tem jeito nessa vida, acabem por ser soterradas pelos vícios da sociedade corrompida em que vivo. Começarei a tentar acreditar que trabalhar e pagar impostos é nosso ideal de vida para sermos velhinhos limpos e repletos de memórias de tempos que nunca existiram para relatar fingidos conselhos a nossos netos fúteis, comemorando fundamentos sem princípios nos natais onde reuniremos familiares atolados em frustrações acumuladas e maquiados por falsos sorrisos.
Triste pode parecer, mas só pra quem por momentos despertou. Para aqueles que vivem a dormir, é a vida ideal. O objetivo final. Mas para quem acordou, como já disse, traz a dor insuportável de saber que nada é real a ponto de entendermos o porquê dessa raça ter andado por tanto tempo num caminho que parecia o certo e ter apresentado por tantas vezes seres iluminados que quiseram lutar contra nossa cegueira.
Mesmo que lágrimas escorram por meus olhos, não se preocupem, eu não choro de verdade. É apenas uma forma de rebeldia inocente e fingida, para não provocar a ira daqueles que cavalgam sobre nossos lombos, buscando a ganância que nunca cessa.
Não se assustem também com meu silêncio e com meus olhos brancos. A partir de agora, talvez por apenas algumas horas ou pelo resto da vida, eu sou o que querem que eu seja. Alguém que olha sem ver. E sorri sem saber o por quê. Palavras duras como o fel que me envenena. Lanço-as ao mundo para que eu me sinta pura.

Um comentário:

  1. Eu acho interessante esses mergulhos existenciais, ou existencialistas. Sempre há o risco de ser individual demais, mas acho que vc suscita vários pontos que extrapolam sua própria vida.

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