domingo, 20 de dezembro de 2009

Tédio



Marina Costa

Suspiro. Suspiro duplo e profundo para essa tarde de quinta feira, terrivelmente oca. Apesar de me encontrar no lugar onde, oficialmente, eu deveria estar plenamente ocupada, o tédio me domina como bicho de goiaba. Já subi em cadeira, arrumei arquivo, fucei daqui e dali em busca de um serviço perdido mas, como uma barata tonta, rodopiei em círculos inúteis até cair novamente no lugar que ocupo, minha cadeira, minha mesinha em frente ao ventilador. Fico parada e quase tão inútil quanto um boneco de ar em posto de gasolina. Sentada em minha mesa, leio três livros ao mesmo tempo e volta e meia jogo todos longe, alegando que são de uma chatice sem limites. Na verdade, tenho é medo que a leitura acabe e aí sim não reste nada para fazer.

Ao todo, e só hoje, já tomei três litros de café, percorri dois quilômetros andando de um lado para outro no corredor e verifiquei que passaram pela minha porta cinco pessoas com camisa cinza, oito com camisa branca, duas meninas de saia jeans e um homem sem roupas, totalmente nu. Mentira. É só para animar pelo menos a crônica.

Não agüento mais o joguinho do celular e nem tenho para quem telefonar. Na verdade, não estou a fim de repetir a mesma conversa de conhecidos entediados e escutar um”ixiiiiii!” quando perguntar sobre algo novo.

O tic tac do relógio (imaginário diga-se de passagem, o relógio é digital mas minha imaginação é multifuncional) não pode me aborrecer mais. A tal seis da tarde parece uma hora inexistente e quase hipnoticamente me vejo a olhar o marcador, na ilusão de que, como na tv, o momento chato possa passar em um segundo e no próximo eu possa aparecer refestelada em uma praça, curtindo um sorvete de kiwi.

Mas nada. Sinto como se estivesse trancada em uma sala branca, cheia de portas brancas com maçanetas douradas. Abro inúmeras delas, mas só vejo mais salas brancas com mais portas brancas e idênticas maçanetas douradas. Às vezes o telefone toca e é como se de repente eu avistasse uma maçaneta azul. Mas quando entendo que ligaram no ramal errado, percebo que na verdade a cor azul era só uma sombra na última maçaneta dourada lá do fundo infinito.

Pior do que ficar nesse tédio sem fim é preenchê-lo com essas palavras imbecis de quem tenta amortecer uma chatice fingindo que tem algo pra fazer. Alguém que passar pelo corredor vai imaginar que trabalho, eu vou me passar pra trás fingindo que faço pelo menos uma crônica útil e assim, ao final do expediente, todos vamos pra casa enganados, na ilusão de que tudo correu como devia.

Não que eu seja incompetente. Que somos enganados e nos fingimos de desentendidos para muita coisa na vida, lá isso é verdade. O que me falta aqui na realidade é ocupação. Ou quem sabe criatividade para ir além de minhas obrigações de funcionária pública.

Mais uma vez percebo, por minha própria boca – ou seriam dedos – , que sou comodista. Ao invés de ir atrás de inovações, trabalhos, diversificação, fico aqui esperando que o serviço caia do céu, consciente de que isso só acontecerá se o armário não se agüentar e jorrar processos em minha cabeça.

Bom, concluo então que o meu comodismo gera meu tédio que faz com que eu me sinta uma inútil completa. É, acho que a possibilidade de fazer alguma coisa está nas minhas mãos e apenas nelas. Tal como naqueles detestáveis livros de auto-ajuda - “Só você pode fazer mais por você mesma, com sua força interior e beleza! Acredite em você!”. Não penso duas vezes. Uma luz se acende em minha cabeça. Já sei o que fazer para acabar com toda essa sensação. No exato momento em que colocar neste papel o último ponto final, vou atirar no lixo minha pena. Na atual circunstância, quero dizer que no instante em que der por terminada essa tediosa narrativa, puxarei a tomada desse maldito computador e sem remorsos vou voltar a observar modelitos passando pelo corredor desse departamento, na esperança de que apareça aquele tal homem nu.


2 comentários:

  1. Adoro todas as suas cronicas.. sou fã de carterinha.. e essa eu super me identifiquei, mas aqui não são pessoas que passam na minha frente, e sim sapos, abelhas, siriemas, formigas, aranhas e outros bichinhos...

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  2. Sabe o que eu acho? Eu, nas mesma condições, diante de tamanho tédio, não conseguiria escrever coisa alguma. Ficaria tão irritadiço que acharia uma droga qualquer coisa que escrevesse. E vc, no entanto, escreveu bem e bastante. Com direito até a tiradas "para animar a crônica" =). As primeiras linhas foram lidas em ritmo rápido, depois a narrativa se tornou mais devagar, como se contagiada pela sua tarde de quinta feira terrivelmente oca.

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