quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Constatação






Marina Costa

Só para constar... muitas coisas podem vir com o fim do ano... um sequestro, uma gripe, um pneu furado, um funeral. Mas sabe o que invalida todas as frustrações? O sol vai nascer, as festas vão passar mas a vidinha vai estar ali, na mesma cadeira de balanço, tricotando nosso destino e esperando que a gente sorria para ela. 

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Turbilhão



Marina Costa

Contas atrasadas, colégio suspenso, trabalho indigesto. Ponto eletrônico, email não respondido, compras a fazer. Comida fria, cozinha suja e despensa vazia. Cansaço rotina, stress como hábito, baixa libido no fim do dia. Miado de gato em crise de existência. Dinheiro que falta, dinheiro que não sobra, cartão de crédito no vermelho. Telefone da pisiquiatria, família picuinha e salve-se quem puder. Carro enguiçado, eixos quebrados, gasolina além do aceitável. Unha lascada, cabelo pintado, jeans com um número a mais agora. Fim de jornada, volta para casa e a fonte de água continua cantando, pequena cachoeira de paz no meio do turbilhão. E, perdido nisso tudo, fica ao longe e chorosa a saudade que dói, o amor empoeirado, a amizade não polida e a vontade de que as coisas fiquem calmas e quietas para que a gente possa saber o que fazer desse presente muito embrulhado que chamam de vida.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Correntes

Marina Costa

     O pingo de chuva que era direcionado para as frias terras andinas do leste acabou acidentalmente em uma corrente de ar perdida. Perdeu-se com ela em nossas terras quentes. Depois de muito cair, terminou sua queda em uma janela do 18 andar de um prédio cinza e pouco amigável. Caiu com estrondo e fez os quatro olhos se elevarem, curiosos. Ele levantou da cadeira, perturbado com mais um barulho. Nunca havia visto um pingo tão grande. Cismado, abriu a persiana e olhou para o céu. Nem sinal de chuva. Mesmo azul de sempre com a mesma rotineira paz urbana. Ainda mais desconfiado, olhou para o pingo que já se espalhava pelo vidro. Viu refletida a gravata vermelha, os aros grossos, a falta de ânimo típica traduzida pela boca sempre arqueada em um sorriso triste. Ele era assim, como bem viu. O pingo, intimidado, analisou tal figura mas não soube situar sua classifiação, visto que vinha de um mundo onde só existiam nuvens serenas. Ficaram os dois estranhando-se. Por fim, o pingo, sem dar mais importância, secou, voltou ao seu meio natural por forma de vapor e dessa vez não dormiria na decolagem, para pegar o rumo certo e conhecido. Era feliz com sua viagem tendo sempre certo destino. Já o homem ficou a pensar em sua imobilidade, dada sua terrível condição sólida. resolveu, como o pingo, evaporar. Nem que fosse para um destino sempre certo. A paisagem do caminho, sabia de ouvir falar, sempre mudava. Resolveu. E antes que pulasse daquele 18 andar, pegou o elevador rumo ao térreo e um táxi rumo ao aeroporto mais próximo. A gravata vermelha ficou pendurada na janela, tal qual uma bandeira de um território agora perdido.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Azia



Marina Costa

Depois desse natal, eu não tenho inspiração. Não tenho novas idéias, nem um tema genial. Nada de metáforas, boas tiradas ou texto com moral. O que tenho são compromissos não cumpridos, promessas vãs e obrigações renovadas. Miado de gato, roupa suja e folhas na calçada. Muito o que arrumar, prateleiras para limpar e barba por fazer. Expressão, claro, deu para entender. Mas chega de rimas baratas. Depois dessa natal eu tenho uma mala vazia e um mapa. Junto dos dois uma caneta vermelha e óculos de sol. Ano novo vem aí e para variar, outros rumos. Para onde você for eu vou e se eu não gostar do seu gosto, entro no próximo trem. Boa sorte, amigo. Pega uma passagem para o nada e viaja também.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Humor Natalino

Marina Costa

     Eu não acredito em natal. Nem no papai noel, pobrezinho. Não gosto das compras desenfreadas, das ruas estericamente cheias e nem dos cheiros excessivamente apetitosos. Mas eu tenho coração, mesmo que não pareça. Eu, confesso, gosto do clima de benevolência que permeia tudo. Sei que é criado pelo constante bip das máquinas de cartão de crédito e caixas registradoras mas nem tudo é perfeito, nem mesmo no natal. Eu gosto de comer castanhas apesar de sempre ficar um restinho amargo no fundo da garganta. Metáfora da festa: depois do doce açucarado do dia 25 vem o sabor honesto da vida real pós 26.
     Para estragar só mais um pouco o clima dos que me lêm, queria dizer o clichê de sempre: que compras, comidas, bebidas e amigos ocultos não fazem a vida mais bonita, nem deixa a família mais amável nem transforma bandidos em mocinhos. Praticamente todas as culturas do mundo comemoram o nascimento de um ser especial que trouxe renovação, amor, promessa, renascimento. Não necessariamente acompanhado de peru da Sadia, Veuve Clicquot ou uma caixa cheirosa do Boticário. Enfim, presenteie sim, mas de verdade. Seja com uma flor de jardim ou uma Mont Blanc. Mas que seja por vontade de fazer alguém feliz e não por convenção social de datas programadas para vender.
     Vou dar um conselho para mim. Ouça se quiser. Quando chegar a inevitável hora da "noite feliz" vou fechar os olhos e pensar naqueles que eu desejaria que estivessem ao meu lado, sem obrigações ou ilusões. Somente presença no silêncio, sensação de estar perto, amizade pelos olhos, abraço com carinho. Se existe mesmo um velhinho que ouve nossos pedidos, seja ele da terra ou do céu, espero que me atenda. E permita que no ano que vem eu possa distribuir todo o amor que sinto mas que, pela busca sem rumo de vaidades das quais não preciso, acabo por reprimir.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desaguando


Marina Costa

As nuvens em cima da cabeça dela ficaram muito negras, conforme a tarde ia caindo. De repente, eram raios e trovões para todos os lados, saindo de sua boca. Estava tal qual uma grande cumulonimbus, pronta a desabar. E pela madrugada a dentro, choveu e choveu pelos olhos. Encharcou o rosto, deixando-se com cara de campo revolvido. E, até que o sol atreveu-se a brilhar no alto, ela não parou de chover. Era muita tormenta para uma mulher tão pequena. Mas, quando a manhã bateu na janela, de leve, ela revirou-se na cama, já mais sensata. A nuvem agora, não passava de uma tímida cirrus. Sorriso, ainda não existia. Era pedir demais, afinal a colheita, a boa colheita, é demorada. Mas o plantio, apesar de turbulento, foi vasto. A mulher, que emergiu da menina, começou o dia arejando a casa. Enquanto isso, do seu coração, brotava muito verde uma folhinha de vida nova. Acho que era um pé de rosas.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Homeridades




Da série "Frase Solta"

Marina Costa


- "Como dizia Nelson Rodrigues, as mulheres só deveriam amar homens de 17 anos".
Silêncio perante o ponto.
Mas e onde caberia nosso amor pela liberdade sufocada e indecisa dos 25? Ou a urgência de um lar aos 30? Como deixar de amar o charme fulminante que ronda os 40? Ou ainda a sobriedade fixa dos 50? Há, ainda, concordem comigo, o olhar de conquista dos 60. A boca cheia de riso e história dos 70...
O fato é que, seja em que idade for, eles poderão contar com nossa admiração carinhosa. Seja por orgulho ou paixão, amaremos sempre o homem por trás do número.
Concordo que não há como deixar de amar o belo, o novo, o frescor, a vitalidade. Sejam meninos ou cães, receberão sempre de nós olhares deliciados ofertando colo pelo desejo da posse...
Mas, me perdoe Nelson querido, o tempo quando corre para eles, amadurece e adoça. O que para nós torna ainda mais saborosa a degustação.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Farei

Da série "Frase Solta"

Marina Costa

 - Ah, já pegou? Obrigada!


Sim, penso eu, em meu silêncio rigorosamente bem educado. Já fiz o que você deveria ter feito. Já busquei, analisei, verifiquei e concluí. Está tudo aqui. Nos devidos lugares. Colha meus louros agora com sua cara de pau oco de quem finge saber o que faz. Se ilumine frente aos holofotes do meu bom trabalho enquanto assisto impassível ao circo de babel onde ninguém sabe o que diz.

Ficarei na minha mesa escura e escondida onde regurgitarei cada tarefa sua que foi feita pelas minhas mãos. Devido a isso maquinarei meu plano de destruição dos incompetentes, preguiçosos, ociosos, fofoqueiros, enrroladores, incapazes e medíocres. Faíscas chispam nos meus olhos que sorriem com cordialidade mentirosa para a escória dos fingidos.
Acho que detonarei o mundo inteiro. Não salvarei ninguém, absolutamente, segundo meu conceito.

Explodirei.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Amigo dele

Marina Costa

E  seu amigo, está bem?
Ele não me responde. Não me atende. Não quer me ver. Disse que ficaria tranquilo mas vai saber. Esperei e esperei. Resolvi vir até você. Agora, não que eu não me importe com ele... mas e a gente, como vai ser?
Não sei se foram as nossas conversas enquanto ele me pedia um tempo. Ou as risadas sobre  coisas em que ele não via a mínima graça. Talvez compartilhar comida japonesa, longe da alergia que ele dizia ter. Ou quem sabe era porque, no fundo, não tinha mesmo nada a ver.
Fala para ele que a vida é assim. E a gente só insiste no erro quando o ego não quer perder. Mas não tem derrota. Ninguém é troféu. Vamos sorrir que o mundo é colorido. A vida transborda. E agora, eu amo você.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Convicções

Marina Costa

Sou conspiracionista difusora, comunista convicta, stalinista influenciada e anarquista moderada, misturada no liquidificador com amargura pela humanidade depreciada em suas sinapses neurológicas e descrente sobre a possibilidade de melhora do ser enquanto humano, pois para mim isso é um paradoxo irreversível. Mas quando penso em tudo isso, bebo - soma huxleano da vida real de agora - e tudo volta para os trilhos construídos para que não saíamos deles. Tim tim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Por minha vida

Marina Costa

Respiro, suspiro, inspiro e vou. Sem rumo, sem trégua, sem juízo, sem timo. Buscando, ouvindo, falando mais do que sentindo. E corro, e como, e amo mas acho que não vivo. Vivo? Ao vivo? Quando estamos juntos, será que não estamos perdidos? E se o dia chega e tudo clareia, penso que me encontro na cama sempre cheia. Mas a lua sobe e a noite me esvazia, nesse escuro que me anoitece reconheço minha sina. A buscar, contos de menina, uma estrela perdida. A sorrir, educada filha, criação que o mundo ensina. A pensar, para quê, se é dor que isso traz. A mentir, só quando mais mal não pode ser deixado para trás.

Vem a onda. Afogo. Tudo está longe enquanto me sufoco. E na réstia, no grito, no segundo infinito, venho a tona por mim e em meu colo encontro abrigo. Agora estou comigo. E tudo vai ficar bem.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conto de Paus e Pedras


Marina Costa

Há muito tempo atrás, mais do que a memória das antigas estrelas é capaz de lembrar, havia no meio de um campo, vasto e verde, uma única árvore seca. Ao seu lado, uma pedra cinza. Eram as duas eternas e imóveis, pelos idos destes tempos a sentir o vento e a chuva, depois o sol e o sereno, sobre seus corpos vegetais, acreditando-se imutáveis.
Acostumadas uma a outra, viveram por séculos em adormecimento, visto que a presença de uma era sempre sentida pela outra e tida como comum conforto. Passaram-se as eras.
Conta-se que, certo dia, um raio enviado pela Senhora da vida partiu ao meio o chão duro e separou pedra e árvore. O motivo, ouve-se dizer, é que esquecidas de amar, achavam-se proprietárias de Sua criação. Isso quer dizer que acabaram por matar o amor e a compaixão com o veneno da posse e do ciúme. E assim, sofreram o castigo do equilíbrio. De um lado, a madeira retorcida, de outro a frieza do minério. Devido ao grito que ecoou da garganta da terra, despertaram. Se olharam separadas e não se reconheceram. Sofreram, pois a distância era agora real e irreversível. Por isso, sentiram, mais do que nunca, a falta uma da outra. Não como mero pertence de outrora. Mas como parte de si.
Passaram-se as eras.
E depois de longos dias, quando a solidão já se fazia modo de vida, eis que a água, sábia condutora da emoção, começou a jorrar entre elas, em litros e litros, por anos e anos, sem descanso, cumprindo sua nobre função de ariar o mundo.
Então quando tudo já era esquecido, o solo cedeu e seres tornaram-se a se unir. Tornaram a se sentir como uno pois assim deve ser e este é o mistério da criação. A harmonia renasceu e se espalhou chegando até nós, que ainda a sentimos em ondas de paz. E este é o conto de paus e pedras.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sonata do Homem Sozinho



Marina Costa

Pedro, sentado na porta de sua casa de sapé, com seus olhos velhos e infinitos, olhava a chuva. Pé rachado, calça puída e respingos frios na camisa formavam sua figura. Lá dentro, um rádio velho tocava uma música ainda mais antiga com uma tristeza infinita repleta de um passado enterrado. E no coração de Pedro, a dor da solidão da canção se unia ao barulho do vento e ele pensava em como não chorar.
Houve dias em que Pedro, nos idos de seus poucos anos, desperdiçou dinheiro e vida nas rodas do mundo. Largou uma Maria, que como todas as Marias, só queria um cantinho e um braço forte onde se aquecer. Era pouco para a sua urgência que precisava abraçar milhares de anos em poucos segundos.
Depois, quando a idade bateu à porta e mudou-se para seu quarto trazendo o discernimento dos anos, Pedro não tinha mais como voltar atrás, porque Maria, como todas as Marias, resignou-se da perda e seguiu. E Pedro, como muitos Pedros, ficou só, apenas com lembranças de uma vida que nunca soube se realmente quis viver.
Hoje ele passa o dia sentado em frente sua porta, vendo o mundo que não gira. O sol se levanta, a lua deita no céu, o milho cresce dourado e a seca assola a terra enquanto ele, como rocha, olha o tempo com seus olhos vazios.
O que espera, nunca soube. O que procura, nunca falou. Mas ele crê que quando a morte vier buscá-lo pela mão, ele vai voltar a ser o menino descalço e sujo, que imaginava que os velhos nasciam velhos e acreditava que ele seria para sempre uma criança cuja única certeza na vida era que o amanhã não existia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sex on the Beach


Marina Costa

Ela fazia a cereja girar dentro do copo de vodka com suco... o drink não leva, todos sabem, mas o que fazer se ela simplesmente ama lábios vermelhos e doces?
Ele, de longe, olhava, com sua cara de bobo.
Ela, de perto, sentia, com seu corpo incandescente.
A promessa, feita para si mesma, estava indo para o espaço no meio de todo aquele fogo.
E a noite acabou, entre drinques e pegadas, no chão da sala.
De manhã, sol tímido querendo entrar. Ela acordou, meio sonza e inebriada. O álcool? O amor? Um pouco dos dois, talvez.
Ao abrir os olhos, viu a meia dele jogada, ao lado do sofá. Sorriu. E voltou a ressonar, sonhando com uma praia e uma paixão louca para todo o sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pelas tantas de tarde

Marina Costa

Da copa sai o cheiro do café novinho. Na mesa ao lado, a colega fala da pedra no dedo da futura princesa. Ainda existem, no mundo, princesas. Lá embaixo, do alto de 10 andares escuto o barulho da vida: buzinando, acelerando, gritando a última do jornaleco diário. E aqui, na minha tela escura, passam números, passam letras, passo eu.
Alguém sabiamente me diz que estou com cara de "puta merda". Preguiça, retruco eu. Mas nunca ouvi melhor definição para minha cara de 3 da tarde. Cara de quem segura no peito a explosão de um vulcão.
Tenho vontade de defenestrar o calendário. Largar sem mãe a bagunça de papéis, sair batendo a porta e dizendo até uma hora aí.Desligar o celular. Subir numa colina. Sentar debaixo de um pé de goiaba vermelha para ver a vida correr sem mim. Ver que ela não corre, afinal. Nem eu.
Mas insisto em terminar a tarde. Outra tarde. Tarde. Tarde...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lá Vai Ela


Marina Costa

Sempre que a gente olhava pra ela e via seu tamanho, pensávamos: esse mundo é meio pequeno para esse tanto de mulher. E aí os meses correram atrás das semanas, que fugindo dos anos nos trouxe essa vida de agora. E lá vai ela outra vez. Pelo mundo a fora, procurando o que nenhuma de nós, sábias meninas, sabe bem do que se trata. Lá foi ela, atrás de um trabalho, de um amor, de uma outra vida, de um novo canto, de flores mais coloridas, quem sabe. Corre. A saudade chegou, para tomar seu lugar, com uma mala grande demais para caber no meu guarda roupa egoísticamente enlutado. Mas, delicada como você mesma, me trouxe um lencinho lilás para secar a lágrima que cai do meu olho quando a sua falta aperta. Lá se foi você, menininha grande. A gente espera pra ti o que esperamos pra gente. Muito sorriso. Muita alegria. Um pouquinho de choro no travesseiro quando a noite cai porque isso é sinal de que você foi mas volta. Lá vai ela. Um dia vamos também.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Toque bem tocado


Marina Costa

Uma leitora hábil, sagaz e íntima ligou me hoje e fiquei estupefata. Queria reclamar que há dias não posto. Tentei argumentar, alegando desmotivação, pois penso que ninguém me lê. Ela retrucou, dizendo que minha obrigação é escrever por mim. Ergui a sobrancelha e parei de fazer quatro coisas ao mesmo tempo para ouvi-la. Pois ela disse mais. Disse que espera ler minhas criações para entender outras vidas. E que às vezes me manda energias positivas para eu ser mais doce em meus dizeres. Outras vezes me direciona uma certa raiva do mundo que acaba cuspida em minhas palavras. Fiquei abismada. Quer dizer então que, enquanto eu imaginava retratar minhas próprias vontades e criações, alguém envia pensamentoas à minha mente desavisada? Sou apenas manipulada e meus dedos agem independente de meus sentimentos? Não sei, respondeu ela, e não quero saber de seus problemas. Se você está com crise de identidade, não serei eu a lhe ajudar a desatar o nó da sua própria cabeça. O que quero, em minha vontade egoísta de leitora é que continue escrevendo e agora espero uma nova crônica por dia até o fim deste mês!! Tenho dito! 

Tu, tu, tu...
Desligou. Na minha cara. 
E desde então, vivo o dilema de me saber criatura em mãos de criador. Mas não arrisco mais a deixar a publicação para amanhã! Vai que ela resolve me dizer outras verdades que ainda não posso ouvir...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Narciso

Marina Costa

Sabe quando a gente finge? Sabe quando a gente finge que está fingindo e depois de tudo não sabe mais aonde foi parar o nó da verdade pelo fingimento, onde desata tudo? Sabe quando a gente lê cartas rasgadas, muito tempo depois do choro, e não sabe mais quem escreveu pela nossa mão? Hoje eu te vi e fiquei pensando assim...

Fiquei pensando se eu não procuro coisas em lugares que eu não devo abrir... E para pegar a chave eu acabo falando palavras mágicas que não entendo bem o querem dizer...

Eu poderia te perguntar mas acho que você também finge.

E aí seríamos dois, a questionar nossas prórprias ambições sem motivos. Sem fundamento. Buscando algo que dê para segurar. E arremesando bem longe, em seguida, para não olhar por uma segunda vez.

Uma segunda vez verdadeira... como uma vela por detrás da sombra no espelho. 

A realidade é madrasta. Machuca e ensina. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beijo

Beijo - Fernando Scheidt

Marina Costa

O cheiro de canela vinha do brinco na orelha e enebriava o sentido já atordoado pelo calor do corpo dela. Quente e úmido. Sentiu, no bigode, a respiração morna e macia, rápida mas equilibradamente constante. Quando encostou-lhe os lábios sentiu o frio do gloss que ela usava. Frio com gosto de cereja em conserva. Relevou. Nesse momento já havia fechado os olhos. Depois de conferir se ela fechara os dela. Três mordidinhas depois ele entreabriu a boca pequena com sua língua firme. Buscando o que ele já sabia estar ali. E ela cedeu. Com um pequeno suspiro estremecido. E ele sentiu se inundar de uma sensação de afogamento no calor de uma tarde de sol forte. Lento, molhado, ressaca. Como o mar. Infinito. Perdeu-se ali. Para sempre no beijo que sonhou e do qual nunca mais ia acordar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Réstia

Marina Costa

Quando o sol, mais uma vez, se levanta na janela branca do quarto dela, ela sorri porque sabe o que a espera.
Quando a lua sai triunfal, arrastando seu manto de ponta laranja pelo horizonte a dentro, ele sente uma certa dose de desalento, que não deixa de ser emoção.
Se a noite, que é retrato dela, se retira misteriosa, é para deixar vir o dia sereno, pleno, como o que ele mostra.
Da treva, caldeirão do mundo, vem o pulsar da semente que ela carrega.
Da luz, fertilidade da vida, vem o jorro brilhante que move os céus.
E assim para sempre, no branco e no negro, estarão juntos a criar eras, seres, pensamentos e susurros. Nas folhas secas e nos galhos tortos do silêncio retumbante. Nas labaredas vermelhas e ondas transparentes de efervescente harmonia. Unidos por uma força invísivel mas inegável. Que gera tudo. Que compõem o nada. Escondida na luz da noite. Alardeada no escuro do dia.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Abundância


Marina Costa


Por detrás da colina, verde como o mar da terra que deixamos, um raio de sol caminha, refletido na manta branca do homem que volta para casa.

Ele tem os pés descalços, a face suja da terra trabalhada, os olhos apertados para não enxergar o cansaço. Mas emana a paz daquele que cumpriu seu dever.

É primavera, e a terra, depois de cuidada, amada e cultivada, vai florescer.

Nos campos, a chuva, que foi anunciada por grandes e pesadas nuvens cinzetas, derrama seu perfume de mulher recém descoberta. Pingos. Gotas. Torrentes.

O barulho ensurdece. No solo, grandes buracos de lama começam a respingar em nossas vestes esfarrapadamente dignas. As mãos, erguidas para o céu, agradecem a benção que cai a cântaros.

Do fundo da terra pequenos brotos verdes lutam para chegar à superfície. Como todos nós. E de nossos rostos, o suor se mistura com a chuva e delineia o sorriso harmônico da criação. Como toda a natureza.

É a vida que criou a vida. E, depois de brotar e crescer, ela vai se espalhar pelo mundo, levando à cada mão vazia a plenitude de uma alma repleta. Pois o que a terra dá, o homem multiplica e compartilha ajudando cada um a seguir seu próprio caminho com mais calor no coração.

domingo, 12 de setembro de 2010

Acalento

Marina Costa

Sabe de uma coisa, eu não ligo para suas opiniões políticas e acho que você desperdiça seu tempo tentando mostrar que existe uma esquerda e uma direita. Já te disse, as coisas devem andar pelo meio. Também não me interessa qual posto de gasolina vende mais barato. Falo de novo, você devia começar a andar mais a pé, até porque é para isso que servem suas pernas. Se a cerveja está quente, se o trânsito está pior a cada dia ou se você não ganha o tanto que gostaria, é tudo problema seu. E não, eu não quero assistir esse filme porque ele é estupidamente comercial demais e a gente não precisa se enganar dessa forma. Olha pra mim. Presta atenção. Deixa eu falar agora. O que eu quero mesmo saber é qual é o seu maior sonho impossível, porquê sempre antes de comer você gira o garfo no ar, qual o motivo para você preferir o branco ao invés de todas as outras cores, desde quando você acredita em fim do mundo, como você imagina uma vida dentro de uma caverna nas montanhas, quais são suas vontades que nunca são satisfeitas, porquê o seu beijo tem sempre gosto de menta mesmo se você não escovar os dentes, qual foi sua maior alegria infantil, o que você pensa logo que abre os olhos de manhã... Sabe, me conta isso.  Me mostra o que tem aí dentro. E larga esse mundo cinza pra lá. Vem?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Feriado


Marina Costa

O relógio despertou pela quinta vez, por volta das onze da manhã. Ninguém alertou-o que deveria calar-se pelo 7 de setembro. Ele não entenderia, de qualquer forma. Como muitos, não se interessa pela comemoração da independência. Saimos do espeto e caimos na brasa, é o que acredita. Ruim com eles tanto pior sem. Se é que estamos sem.
 
Duas da tarde e continua olhando para esse trabalhador desocupado. Realmente não entende porquê só ele trabalha sem descanso. Ele que nem brasileiro é. Tawain, de repente, ficou familiar. Gostaria de voltar para a China ou pelo menos poder ter alguns dias de descanso, uma espécie de festival da fonte dos relógios digitais. Acha que merece.
 
4 da tarde e finalmente o sujeito sai da cama. Despenteado e com marca de baba na barba por fazer. Senta-se na frente da tv para ver os desfiles. Rumina a cerveja que bebeu na noite anterior para comemorar o dia de folga. Assiste o jornal que mostra as mortes do feriadão. Come o resto de marmitex frio da geladeira. Dorme no sofá. Afinal, é dia de descanso. Liga para sua colega de trabalho e combina um jantar. Pensa em finalmente dar o bote. Seria um bom jeito de terminar seu feriado. Liga em seguida e desmarca. Está com preguiça de deixar seu estofado. Prefere resolver seu problema sozinho e ir dormir. É uma ótima forma de terminar seu feriado. Finalmente toma um banho e olha o relógio. 20 para as onze da noite. Apaga a luz e dorme. Amanhã terá outro dia difícil de trabalho. Para em seguida descansar no merecido final de semana...
 
O relógio, desapontado, não vê mais motivos para continuar marcando as horas. Nessa casa, todas elas serão sempre iguais. Vazias e inférteis. Como mulheres frívolas. Cansado, seus números começam a falhar. E antes da meia noite, pifa definitivamente. Quis assim. Melhor queimar do que se apagar aos poucos. Que fique só o homem urbano, com seu tempo preenchido por nada e seus dias infinitamente iguais.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O marido da minha amiga

Da série: "O namorado da minha amiga"

Marina Costa

Eles caminhavam rápido. Ele, se via de longe, estava nervoso. Ela, triste. Do outro lado da calçada, ele, o outro, ficou a olhar os dois que se afastavam. No dedo dela, o sol reluziu na aliança dourada. Enquanto andavam, ele – o marido – não pensava em nada. O choque fora grande demais. Sua mulher e seu melhor amigo. E pensava que isto só acontecia em novelas. Ou então, em música sertaneja.

Ela, tropeçando às vezes devido à combinação fatal de pressa, calçamento e salto alto, a custo segurava uma lágrima que teimava em querer descer. Não sabia o que fazer. Até ali, não fizera nada. Resistira, desconversara, dizia que seu marido a mataria. Mas ele – o outro – afirmou que seu amor era maior que tudo aquilo, e ela no momento em que indubitavelmente se deixaria levar, viu com uma surpresa aterradora ele – o marido – entrar, furioso, naquele restaurante.
 
Chegaram em casa. Ele não disse nada, sentou no sofá e chorou. Ela se trancou no quarto e me ligou.Me contou tudo o que eu ainda não sabia. Me sentia cúmplice por já ser conhecedora de uma parte daquela história. Pelo menos eu não estava ali, eu não tinha que encará-lo – o marido. Eu fiquei sem saber como consolá-la. Em parte, tinha vontade de gritar! De me contagiar com sua histeria. Mas também sentia pena dela. Deles. Do casamento, até ali, empurrado. Da constante ameaça de ex – malditos ex – que os vivia rondando, aos dois. Agora, tudo estava perdido. E eu, a quase 300 km de distância, não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Eu também tinha vontade de chorar.
 
Abruptamente, ela desligou. Meu sangue gelou! Em um segundo, tive a certeza de ler, nos jornais da manhã seguinte, como um marido quase traído, pela mulher e pelo melhor amigo, perdera a cabeça, esfaqueara ambos – usando certa faca de dois gumes da cozinha do casal – para depois se jogar da janela do apartamento dos dois, esquecendo, “uma fatalidade”, noticiaria o diário, que moravam no primeiro andar. Cenas de violência, membros decepados, lençóis ensangüentados me vieram à cabeça repentinamente. Larguei o emprego, alegando uma dor inexistente, que não passou nem perto de ser engolida pelo meu chefe e corri para a rodoviária. Quisesse Deus que ainda desse tempo.
 
Uma hora de viagem. Duas. Prolongava-se meu tormento. O celular, só desligado. Minha amiga, coitadinha! Eu podia tanto ter alertado. Aconselhado, amarrado ao pé da cama, eu devia ter feito alguma coisa. Ia, o resto da vida, me culpar daquela tragédia. Agia como se eu fosse a causadora de tudo. E olha que nem ex eu era.
Finalmente, entrei na cidade. O táxi não poderia ser mais lento, inevitavelmente. Paramos na porta, paguei e não peguei o troco. Corri, subi as poucas escadas aos pulos, como se fosse decidir minha própria vida. Com uma dor aguda no estômago, toquei a campainha. Ele atendeu – o marido. Não sorriu. Eu não esperava o contrário. Procurei sangue na camisa, nas mãos. Nada. Ele parecia sem rumo mas mesmo assim não entendia o meu olhar arregalado. Vi marcas de lágrima no rosto. Perguntei por ela, e ele disse que estava no quarto.Com olhar de cão desconfiado, eu subi mais alguns degraus. Empurrei a porta. Ela trocava de roupa. Gritou de alegria ao me ver. Me abraçou e não me deixava falar. Eu procurava algum corpo inerte no quarto – o do outro. Quando ela finalmente me acalmou e me certificou de que faca nenhuma ( o que seriam mesmo dois gumes?), encostara em ninguém, me sentei.
 
Então ela contou que depois da tempestade inicial, os dois conversaram. Chegaram à conclusão que eram novos demais quando se casaram, que o amor não passou de uma paixão mais exacerbada e que resolveriam tudo amigavelmente. Literalmente, continuariam bons amigos. Eu fiquei abobalhada. Tive vontade de esmurrar, se isso fosse possível, minha imaginação fértil. Gaguejei, soltei muitos “mas”, outros tantos “então” como se tivesse ficado decepcionada com o final feliz daquela história. Nem eu mesma me entendia. Brasileiro gosta de sangue e sexo, como diria um sábio escritor. Fiquei envergonhada de perceber que, com toda minha cultura muito alardeada, eu ainda me encaixava nessa categoria. Enfim...

Ela, sempre sorridente, disse que foi melhor assim. Sem a interferência de ninguém, nem pais, nem avós, nem amigos, só os dois resolvendo suas próprias vidas, pela primeira vez. Eu engoli em seco todos os meus conselhos não ditos. Intimamente, agradeci por ter ficado calada daquela vez.
 
Em cima da cama, uma mala. Olhei e perguntei se então, ela iria viver com ele – o outro - agora. Ela, muito surpresa, me olhou abismada e soltou um sonoro não, como se estivesse refutando uma blasfêmia minha. Disse ter concluído que ele – o outro – é que não tinha nada a ver com ela mesmo. Foi só um pequeno deslize, um sonho bobo de amor mal resolvido, uma espécie de “Síndrome Bovary”. Me perguntei quando ela, que era avessa aos livros, teria lido Flaubert, mas isso não vinha ao caso. As malas, continuou, eram para umas férias há muito merecidas. Ia para o litoral, limpar o corpo e a alma das preocupações cotidianas nas águas salgadas do Rio de Janeiro, que devia continuar lindo. Seria uma espécie de lua de mel, agora com ela mesma. Ele – o marido, na verdade o agora ex-marido - sorriu de leve ao se despedir de mim, antes que eu entrasse no táxi, de volta à rodoviária em que eu desembarcara, atordoada, uma hora antes. Disse que, no final das contas, a vida era assim mesmo. Umas decepções aqui, outras ali, mas no fundo o que importa é a gente estar feliz. E ele queria que ela fosse feliz. Queria ser feliz também. E para os dois já não dava mais. Melhor cada um continuar sozinho, lembrando com carinho do que passou. Eterno enquanto dure, não é assim que dizem por aÍ? Ele perguntou. Eu, não entendi nada. Concordei com a cabeça e me despedi. Ele ainda me pediu para não sumir. Deslocada, como se tivesse sido o meu casamento a desabar, voltei pra casa resistindo aos protestos dela, para prolongar minha “doença” e viajarmos juntas. Imagina, uma lua de mel para nós duas... Recusei, educadamente! Eu estava mais para viúva do que noiva. Viúva de uma história que nem minha era. Maldita mania de tomar as dores dos outros. Eles mesmo, pareciam não estar sentindo muito com nada daquilo...

Tomei um café e fui me deitar. Sacudi a cabeça e deixei pra quem quisesse entender esses pseudo amores arrebatados. Não que não devesse ser comum... mas poderiam não banalizar demais! E eu entendo o que disso, afinal? Deixo pra lá, é demais pra mim.
 
Agora, enquanto tento achar outro emprego verifico os emails que ela me enviou de suas férias, que já se prolongam por duas semanas. Milhares de fotos de sua carinha sorridente, com um leve ar sapeca, entre surfistas loiros e bronzeados de Saquarema. Me diz ter encontrado o paraíso (brinca dizendo que os anjos têm pranchas ao invés de asas) e afirma ainda ter uma vaga à minha disposição em seu quarto. Balanço a cabeça. Não posso deixar de sorrir. E antes de dormir penso seriamente em investir meu seguro desemprego comprando um carrinho de água de coco...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Som do



Marina Costa

No desenrolar da língua seca encontro minhas reticências interrogativas. Sem resposta. O gelo do copo alcoolizado refresca minhas dúvidas auto explicativas. Que pergunta? E na mente alterada pela claridade do rum emito sons que penso esclarecerem pensamentos tortos. Alguns só escutam. Outros pedem um gole. De vez em quando alguém responde. Olho bem nos olhos deste, vejo o reflexo do meu desentendimento e me pergunto: para onde?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Puro, simples e macio

Marina Costa

Suspiro. Fecho o livro. A Enya há muito parou de cantar e a aurora daqui a pouco começa a chegar. Bocejo. Torço o nariz para os assuntos vazios da cozinha. 15 para as duas. Estômago roncando mas prefiro aquecê-lo com o edredom Afinal, melhor de tudo é sempre o sono. Puro, simples e macio. Quem sabe, talvez o último. Primeiro? A vida é para isso. Para não esquecer que qualquer coisa pequena acontece. Que qualquer pessoa pequena é só uma pessoa pequena. No final, ou no começo, vida é suspiro.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Bom dia


(créditos da imagem: http://miseriahq.blogspot.com/)
Marina Costa

Natanael  é um homem imundo que mora na esquina e fede a ser humano. Sua  maior posse é um saco plástico e sua conta bancária, metade de uma garrafa pet. A copa de uma pata de vaca transformou-se em seu teto há cerca de uma semana atrás. Sua aparência é composta por olhos vidrados e filosoficamente cansados, roupas esfarrapadamente marrons e pele tingida da negritude do pó de asfalto levantado pelos carros importados que passam na frente da residência de Natanael. Homem de sorte! Área nobre da cidade e ainda por cima, não paga IPTU. A cada dia, ele aumenta um pouco sua casa, se deslocando mais para frente na calçada. As pessoas se irritam, porque precisam aumentar seu grau de desvio ante o incômodo. Pois além da sujeira na praça, das palavras toscamente balbuciadas e da poluição visual no bem cuidado bem municipal, Natanael ainda tem a audácia de incomodar os narizes chanelentos dos transeuntes com seu cheiro fétido. Audácia! Pois amanhã, tomarei um resolução ao passar por Natanael, visando o bem comum. Vou lhe servir chá inglês em porcelana made in china. Conversaremos sobre a bolsa, o  caos do sistema  financeiro mundial e como isso afeta nossa vida de consumo essencial e outras coisas estupidamente importantes para o bem andar social. Assim, Natanael  poderá ser elevado à categoria de ser humano e essas pessoas victor huganas não poderão mais desprezá-lo. Ou não mais ignorá-lo. Ele deixará de ser um mendigo e será um mendigo que, graças ao bom deus do capital, entenderá da moda de valentino. E quem sabe logo, transformará sua podridão visual na próxima tendência de Paris.

domingo, 8 de agosto de 2010

Mesmice

Marina Costa


Acordei cinco minutos antes do relógio despertar. Dei bom dia a vida, me espreguicei e fui direto para a cozinha, como sempre, acordei faminta. Com calma e dispersão, tomei o café que me nutre e sustenta, agradecendo a dádiva de me alimentar em um mundo onde milhões morrem de fome. Automático. Mas pelo menos agradeço. Olhei pela janela para ver se o dia estava igual aos dias, nem quente nem frio. Vesti o uniforme, para também me tornar igual as pessoas, peguei minha bolsa e meu celular que nunca toca, desejei bom dia para quem ficou e saí. Girei a chave duas vezes e confiri se a porta estava trancada. Como todos os dias. Melhor prevenir, o seguro morreu de velho, bem já dizia minha avó que não tinha seguro. Mas eu acredito. 
O elevador demorou a subir como sempre, mas já não me impaciento mais. Desci. Fui andando para tentar enxergar as novidades do dia. Vejo a mesma pressa em pessoas diferentes. Outros mendigos dormindo nas mesmas calçadas. Os mesmos ônibus que jogam no ar fumaças novas mas que poluem como as de ontem. As árvores de sempre presas dentro das grades do parque. Pelo menos há árvores. Sorrio para elas, como todos os dias.
Cheguei. Abri a sala, liguei computadores e ventiladores. Olhei a agenda e anotei algo sem importância, mas que eu certamente me esqueceria se não deixasse registrado. É tanta coisa igual que a memória acaba esquecendo o que foge a regra. Pelo menos a minha esquece.
Começo a sessão de mais bons dias. Penso seriamente na possibilidade de fazer uma placa com a saudação e pendurar em meu pescoço. Pouparia minha falta de graça ao repetir todos os dias, para as mesmas pessoas, a mesma coisa, com a mesma entonação. 
Leio. Atendo o telefone. Não demora e o relógio me diz que já posso sair para almoçar. Mas como sempre não saio. Como alguma porcaria enquanto meu corpo não reclama. Ouço um programa humorístico que já não me faz rir com suas piadas repetidas. Leio emails prometendo milagres para iluminar a vida. Nem dou atenção pois cada um tem o poder de iluminar sua própria, basta pagarmos a conta de luz. Piada batida, eu sei. É o costume. Divago olhando a quina da parede. Trabalho.
A tarde passa como que arrastada. Lá fora ouço as mesmas buzinas de ontem. Aqui dentro continuo me sentindo presa em uma caixa de cimento. Vejo o dia passar pela janelinha da sala ao lado. Mais uma vez chegam as tão queridas dezoito horas. Faço o ritual de encerramento diário: desligo tudo e confiro se realmente desliguei. Tranco  a sala. Volto a pé para sentir a liberdade do fim do dia. Compro pão para o café, que continua delicioso apesar de ter o mesmo gosto de ontem. E apesar de eu saber que terá também o mesmo gosto de amanhã.
Vejo os mendigos que procuram no lixo os restos que alimentam suas vidas. Todos os dias. Até quando eles poderão aguentar essa situação? Eu não sei! Me entristeço mais uma vez ante minha impotência de mudar algo. Vejos os mesmos rostos cansados que só querem suas casas e seus aparelhos de tv, que mostram as mesmas novelas água com açúcar onde todo mundo tem um final feliz e uma vida diferente. Mas a história é sempre a mesma. 
Já em casa, tomo um banho demorado enquanto penso se minha pele pode realmente se gastar, como diz minha mãe. Visto um pijama velho porque não me acostumei ao novo. Assisto as mesmas notícias tristes em lugares diferentes. E vislumbro em pessoas diferentes a mesma centelha de esperança de que tudo será melhor amanhã.
Oro. Peço a Alguém mais poderosa do que eu que abençõe aqueles que estão longe. Acredito que se não pedir isso todos os dias, eles podem ser esquecidos. Peço para dar conforto aqueles que não posso confortar. Agradeço pelo meu dia. Peço pelo dia de amanhã. Penso ainda em nada durante cinco minutos e finalmente cedo ao sono cheio de sonhos. Visito lugares fascinantes, vejo pessoas desconhecidas, faço coisas mirabolantes.
E mais uma vez acordo cinco minutos antes do despertador. Já me acostumei e acabei entrando em uma silenciosa gincana onde não deixo ele me vencer. Olho pela fresta da cortina e vejo que será um dia igual, nem quente nem frio. Um pensamento me passa pela cabeça: “vai começar a mesmice.” E um sorriso largo se abre no meu rosto. Me espreguiço e cheia de um felicidade serena desejo um bom dia a vida.

domingo, 1 de agosto de 2010

Não falem comigo


Marina Costa

Acordei com dois pés esquerdos hoje. Isso mesmo. Me sinto revirada, visível ao avesso e por isso mesmo transtornada. Motivos? Não me pergunte. O tal ser racional e seus sentimentos são uma caixa tão secreta que nem ele próprio sabe o que contém. O tempo hoje está frio e nublado e o que tanto me deixa feliz em dias normais agora me faz ficar ainda mais irritada. Será que não mereço nem ver o sol  brilhando em dias como hoje? Mas, sabendo de minhas próprias controvérsias, acredito que se houvesse sol brilhando me sentiria escarnecida e ainda mais aborrecida. 

Não quero que falem comigo, nem que olhem para mim. Sorrir ao me ver então é querer brigar. Se possível passe por mim como passaria pela porta de sua casa, pelos mendigos de sua rua, sem se dar conta dessa existência infeliz. Hoje quero ficar só, inerte em meus pensamentos raivosos, meditando sobre todas as loucas situações que armo em minha cabeça, chorando de ódio por aquilo que nem sei se realmente desejo mas que mesmo assim insiste em não acontecer. Hoje prefiro ser obrigada a agüentar apenas eu mesma.

Por favor não chame meu nome. Não o gaste. Me enerva vê-lo profanado em sua boca inútil que não diz nada além de asneiras. Caso eu ouça me chamar poderia te dar uma má resposta em troca, mesmo contrariando meus princípios de doces sorrisos e boa educação. Mamãe me perdoe, mas tem dias que nem mesmo a senhora me aguentaria.

Para aquele que me lê, digo que seu problema agora é ainda mais seu. Não quero mesmo saber e me importa pouco se algo te faz feliz, talvez até mesmo eu fique contente em ver que, ao contrário, algo te entristece. Chega de ser boazinha, solícita, meiga, delicada. Que se dane o céu a que tantos aspiram. Já chega de meus próprios fardos, reais e inventados. Estou cansada de achar que carrego o mundo nas costas. Hoje quero me libertar, me soltar dos grilhões, gritar com o mundo, dizer que não, eu não sou como Cristo e estou cheia de ser pregada na cruz por esse viver ingrato.

Árvores e flores se virem ao me ver passar. Nem o bom dia diário que dou a vocês com tanto gosto sou capaz de dizer hoje sem que caia uma gota de fel em suas folhas e pétalas. Não, não exagero. Me sinto como um dragão enfurecido, pronto a cuspir fogo em tudo que estiver em meu caminho, tenho medo até mesmo de que essa crônica não saia caso minha ira se volte contra o papel.

Maldito telefone que insiste em tocar. Será que não ouviu o que eu disse? Nem você quero atender agora e digo que te defenestrarei com gosto se insistir em me incomodar. Loucura. Acesso. Acho que é disso que preciso. Literalmente, enforcar alguém. Corruptos e cínicos, não ousem passar em minha frente até que acabe esse dia de nervosia. Ou não me responsabilizarei pela justiça cega que serei capaz de fazer por mim mesma.

Mundo, mundo, me perdoe! No fundo não tenho raiva de você. Minha raiva é dessa sociedade que corrompe o homem bom por natureza e faz com que sentimentos contraditórios me invadam ao despertar e ter que aceitar essa realidade doentia. Meu ódio é pelas minhas vontades desnecessárias e insatisfeitas que não me deixam em paz um momento sequer. Meu desprezo é pelo capitalismo incorreto que vigora e me devora roendo meus ossos, lambendo meu sangue, desvalorizando meu suor. Minha tristeza é pelo cinza do dia que reflete toda a tempestade dentro de meu coração, é pelo amor que corre na minha frente sem nem mesmo olhar para trás e escarnece de mim. Minha rebeldia é pelo fato de que enquanto escrevo essas palavras sombrias e nervosas, enquanto lanço minha ira no papel, a vida não pára de caminhar, a estrela que tanto desejo brilha em outro céu e eu, completamente confusa nessa mistura de razão e emoção não sei nem mesmo o que fazer com tanto entender dentro de mim e tenho medo de que no final acabe morrendo envenenada por minhas próprias convicções.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Duplo

Marina Costa

Cala a boca e some! Mas... Caaaalada! Estou cansada de ouvir suas histórias tolas. É mentira para todo lado, parece que você vive de inventar histórias malucas. É que... Eu já disse que chega! Isso é absurdo! Você simplesmente não existe. Inventa, imagina, pensa, conjectura, explora, testa... Então, é porque... Nem um pio!!!! Se eu ouvir mais algum absurdo seu, juro que vou te defenestrar. Nós duas você quer dizer. É! Mas pelo menos, fico livre de você!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Análise


Marina Costa

Feche os olho, sinta o ar e não analise... Não entendo porque não sigo tais idéias simples. Insistindo em pensar, articular, projetar. Como todos? Como tudo? Por medo de ficar junto? Ou Sozinho? Estranho. Eu praticamente faço uma tradução livre da música que ouço, me esquecendo de direitos autorais como me esqueço de prender meus pés na cama quando durmo, para não voar para muito longe. Sempre vou longe demais. Enquanto os outros ficam aqui e acenam para mim. Problema meu? Deles? Sous simplória ou maliciosos eles?


Mudo? Como sempre, penso nisso.Seja em mudança ou silêncio. Como sempre, sei que não vou. Seja mudar ou calar. Feche os olhos, feche os olhos. Eu gosto mesmo é de deixar minha imaginação andar, solta e descalça, por aí...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mona


Marina Costa

Seu rosto era açoitado pelos cabelos escuros, que se dobravam furiosamente pelo vento. O frio chegava dos céus em grossos pingos de chuva. Do alto daquela única colina, ela olhava o horizonte como se fosse um quadro de imagens infinitas. Pois nada permanecia. As horas em que ficou perdida em devaneios não poderiam ser contadas, pois ali não reinava o tempo. A grama dobrada ao peso da chuva parecia triste ao recolher também as lágrimas dela. Lágrimas de dor, saudade e perda.
Quando o sol finalmente surgiu, após o que pareciam séculos passados em um mundo cinzento, não havia mais sofrimento no coração da mulher. Não havia mais medo ou ânsia. Não havia mais nada ali. Apenas a paz de um tempo que nunca existiu exceto em uma mente irrevelada. Silêncio.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Da ilusão de amor


Marina Costa

Começa pelo olhar. Sabe aquela história de o que o olho não vê? Pois é... só que não dá para andar por aí vendado. E a gente acaba vendo. Em um, é o jeito de andar. No outro, como coça o queixo. Tem aquele ainda, que tem um meio sorriso estonteante. E a gente vai se perdendo no meio de tanta gente. Sei que no frigir dos ovos a gente escolhe uma companhia e vai levando. Pensa que o amor chegou num ponto que não vai mais descer o morro e estacionamos ali. E o amor fica quieto. Até que o tal do pescoço resolve virar pro lado. E o olho encontra outro olho sedento. Um jeito de piscar... E lá vamos nós, outra vez...

sábado, 12 de junho de 2010

Inevitavelmente

Marina Costa

Chuva fina, cerveja escura, casa vazia e nada de televisão. Quando a luz, muito apropriadamente se retirou, as coisas embolaram. Quem puxou quem, nem eles saberiam, eu acho. O que me contaram mesmo é que certa calota polar se desprendeu em algum lugar onde cientistas afirmaram que o calor nunca seria capaz de chegar. E os dois, pobres almas extasiadas, morreram queimados, ali mesmo. Fulminante. Dizem que não sobrou nem cinzas...

domingo, 6 de junho de 2010

Perdas



Marina Costa

O que você faz aqui? perguntou para ela. Caí da lua e não sei voltar, disse a menina cujos olhos cor de pedra brilhavam. E você? dirigindo-se ao homem que carregava armas de guerra, perdi uma batalha e voltei ao campo para sacrificar a terra. Ambos estavam de coração vazio. Mas a noite lhes deu estrelas. E sob seu manto, o calor de um abriu a cicatriz do outro. Peito fértil de novo. Cheiro de vida que a chuva abençou.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Angústia



Marina Costa



Você não sabe que existo. Ou pelo menos acredito que não saiba. Mas mesmo assim já fiz tanta coisa por nós. Menti tantas verdades inocentes, sorri tantos sorrisos fáceis, passei tantas horas apenas pensando em sua imagem. Meu coração se aperta por acreditar que pode estar andando em caminhos errados. Mas ele não quer saber de pedir informação pra você, isso não. Por quê? Ah, não sei. Ele tem medo de ouvir um não. E aí toda essa fantasia criada em torna de algo perfeito vai sumir como nuvem na noite. Meu coração vai ficar de novo negro e sombrio, não vai aceitar que você brilhe em outro céu. Então continuo, por ele, nesse círculo quase infinito de sete dias. Vivendo em função de esperar as poucas horas que passarei do seu lado, por mais impessoais que elas sejam. O que virá daí? Ou melhor, virá algo daí? E meu peito se enche de angústia cada vez que penso assim.
E depois, o que dizer? Como explicar as mentiras inocentes, as manipulações apaixonadas? Eu não sou mais uma adolescente mas não mudarei nunca, será que dá pra entender? Continuo sonhando e moldando a realidade ao meu redor de acordo com meus desejos. Será que você vê isso? Que tudo que fiz foi pro meu bem? Um bem que só queria ser seu também? A verdade sozinha não é capaz de explicar tudo o que sinto, diz uma música que não me canso de escutar, por isso minhas pequenas mentiras a auxiliam e tudo se justifica nesse amor sem por quê que sinto por alguém que na verdade não passa de um íntimo desconhecido de minha mente.
Um doce desconhecido. Que rouba meus momentos de lucidez, meus momentos de paz. Invade meus pensamentos sem que eu deseje, fazendo com que eu não sinta mais vontade de parar de pensar em você. Em seus belos olhos cheios de vazio, em seu modo único, diferente de tudo que já vi...
Quanto mais minha mente delira mais meu peito se oprime. Será que poderei ficar assim até o fim da vida? Não que ela dure muito, com toda essa angústia que me invade. Mas até quando irei suportar esse vulcão dentro de mim em silêncio? A lava está me queimando por dentro e eu não tenho nem mesmo o direito de chorar, porque me omito.
Alma acanhada. Refugiada em livros, em poemas e canções que traduzem pela voz de outros o que sinto. Refugiada em filmes açucarados que tem o irreal final feliz que tanto desejo para esse meu amor tão platônico.
Não consigo mais suportar tanto querer, tanta vontade de ficar perto, em silêncio, imóvel só para sentir a sua respiração junto de mim. Não consigo. Ou esqueço ou me mostro à luz dos holofotes, mas pelos deuses, meu medo dessa imensa platéia  (que se restringe a você) me mantém estagnada. Me diga, o que faço? A que recorro? Indiretas? Cartas? Bola de cristal? Nada disso serve para me inspirar confiança. Por mais que o tarô me diga “sim”, meu medo desse amor, que já me consome mesmo existindo pouco, é tão grande que não tenho coragem de andar.
Por quê não podemos dizer tudo o que queremos em um olhar? Ou porque não entendemos tudo o que é em um olhar?
Querer, desejar, sonhar, maldita vontade humana sempre insatisfeita. Não me basta te ver, tenho que te tocar, não basta pensar em você, tenho que te ouvir, não me basta existir só, preciso de amparo. Você é meu amparo. Quando perceberá?
Enquanto isso caminho em ondas longitudinais, em movimentos retos e circulares, sem gravidade, me fingindo de tonta, esperando um tempo fora desse espaço, ouvindo sua voz, onda sonora capaz de se propagar em meu universo infinito. Espero impaciente, passarem os sete dias que me separam de você. E tenho a impressão de que morrerei sufocada em tanto sentimento se a areia da ampulheta se extinguir e você se perder para sempre nas dunas desse amor deserto que plantei em minha vida.