segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Roteiro


Marina Costa

Do lado de lá do vidro, o sol escalda escalpos. Aqui, do alto de doze imponentes andares, as pessoas são proibidas de transpirar. Protejo o pescoço da gripe iminente, com minha echarpe absurdamente fora do contexto tropical, pois o ar condicionado começa a fazer nevar. Rostos sóbrios, baias repleta de papéis e o assunto de trabalho é a útlima eliminação do Big Brother. . E eu, que não sei nem por onde anda tal programa acabo me sentindo sem assunto. Aposto que nunca leram 1984. E depois o meu silêncio é que é colocado em questão.
O relógio digital trapaceia minha mente insistindo em retroceder de 10 em 10 minutos. A saída espera desde a chegada no banco da praça. Em algumas longínquas horas ela virá me levar pela mão. Vai piscar para a preguiça, que anda do meu outro lado, na cumplicidade de já saber que saio pensando tediosamente no retorno de amanhã, inevitável. O caminho até em casa é feito por suspiros. Não dos brancos e doces. Mas daqueles cansados e amargos. Há, porém, sensação outra, quando finalmente abraço sofá e livro. A vida real que deixei pela manhã, entre capítulos e subtítulos me recebe com alegria. Minha face ganha rosados tons. E sentada na grama, com o amado para sempre desencontrado, sinto o sol aquecer minhas costas. Nesse mundo não existe o perigo dos raios UV.

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