domingo, 14 de março de 2010

Casos e comidas em colchões avulsos

Marina Costa

   Com 35 e três casamentos fracassados, ela se sentiu transportada para outra vida quando acordou e a primeira imagem que veio à sua mente foi aquele sorriso maliciosamente infantil. Os quinze anos de diferença entre os dois eram como pólvora para aumentar sua excitação. A propriedade com que ele se aproximava dela dava às suas faces muito crescidas medos avermelhados de menina puberal. Veja se isso ia dar certo? Pois era aí o ponto. O errado, nesse caso, é que satisfazia. E, afinal, passou da idade de acreditar no tal do felizes para sempre. Dane-se o sempre. Felicidade plástica e instantânea é o item abstrato mais vendável do mercado. Ela podia pagar. Funcionava assim.
    O difícil foi entender quando chegou o fim. Muitas ligações não atendidas, lágrimas no encosto do sofá, emails com ameaças de suicídio virtual. Nada que falasse ou fizesse , levaria essa pessoa à voltar atrás. Não era ruindade. Nem foi tão só pelo sexo quente. O fato é que ela, desde pequena, sempre cansou cedo dos brinquedos.
    Eles ainda têm sorte que, ao contrário daqueles tempos, ela não arranque mais cabeças.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Sino da Igreja

Henrique Fendrich

Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. É bom que cante baixo, ou alguém reclamará. Pois se não é pra pensar assim! Imaginem que existe uma igreja, igual a todas as igrejas, e que ela tem um sino, igual a todos os sinos – pessoalmente, jamais vi um sino de igreja, mas imagino que sejam muito parecidos entre si. E imaginem também que, não sabendo fazer outra coisa, só resta ao sino badalar. Faz parte da ordem natural das coisas que exista uma igreja com um sino e que ele badale. Agora imaginem como pode ser chato um sino badalando.

Tão chato que alguém resolveu escrever uma carta ao jornal, reclamando daquele barulho infernal – com o perdão da expressão. Queixava-se o sujeito do excessivo número de vezes que o sino da igreja se põe a tocar. Esse sino que ele fala, eu conheço de ouvir tocar. Se são quatro horas da tarde, ele irá tocar quatro vezes, uma atrás da outra. Depois de quinze minutos, voltará a tocar, uma única vez. Baterá ainda a meia-hora e os três quartos de hora. E continuará fazendo isso religiosamente, na hora seguinte e por toda a eternidade – tal é a missão do sino.

Imagino que o homem que se queixa more perto da igreja, e que o escute tocando justamente nos horários em que queria descansar e não ouvir barulho algum. Esqueci de falar que aquele sino em especial, sendo fervorosamente católico, se põe a tocar desesperadamente às seis horas da tarde, a hora do Angelus, o momento da Anunciação do Cristo. Talvez também toque às seis horas da manhã, não sei dizer, o que provavelmente causa o aborrecimento de alguns pobres cachorros que se queixam como podem – uivando. E de senhores de família que se queixam mandando cartas ao jornal.

No lugar onde minha mãe nasceu, existe um sino que trabalha ainda mais. Se durante o dia ele começa a tocar de forma insistente, é um claro sinal de que alguém morreu. E as pessoas então se lembram de alguma pessoa que estava doente nos últimos dias, e se perguntam se é por ela que o sino dobra. Mas na minha terra, o sino já não toca nessas ocasiões. A cidade cresceu tanto, e começou a morrer tanta gente que o sino teria que passar o dia inteiro anunciando funerais – coisa que a vizinhança também não aprovaria.

Também hoje, o sino deixou de regular as nossas horas. Ele badala porque quer. Ninguém aguarda o seu sinal para saber que horas são. Há alguns mais antigos que acertam os seus relógios de pulso com o relógio da igreja – que, em geral, está sempre atrasado. Aquele relógio, eu conheço a história. É alemão, foi construído em 1925. Um senhor da cidade doou um conto de réis para que fosse comprado. Quando a igreja foi demolida para dar lugar a uma mais nova, ele foi junto. Possui marcadores em todos os quatro lados, e quando anoitece ele ainda pode ser observado à distância, graças a um sistema de iluminação interna. Se ninguém observa, não é por omissão dele.

Tem o relógio a doce vantagem de ser mudo. Da minha janela, não ouço qualquer sino, não vejo qualquer igreja. Não há, mesmo, nada digno de ser visto nem ouvido. E então eu pego novamente o jornal, que é coisa que sempre tem o barulho de que preciso.

terça-feira, 2 de março de 2010

Diminuimento


Marina Costa

Chuvinha. Preguicinha. Mentirinha. Caminha. Trabalhinho. Amorzinho. Soninho. Vidinha. Tudo inha. Tudo inho. Definição de dicionário: desalento.