sexta-feira, 5 de março de 2010

O Sino da Igreja

Henrique Fendrich

Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. É bom que cante baixo, ou alguém reclamará. Pois se não é pra pensar assim! Imaginem que existe uma igreja, igual a todas as igrejas, e que ela tem um sino, igual a todos os sinos – pessoalmente, jamais vi um sino de igreja, mas imagino que sejam muito parecidos entre si. E imaginem também que, não sabendo fazer outra coisa, só resta ao sino badalar. Faz parte da ordem natural das coisas que exista uma igreja com um sino e que ele badale. Agora imaginem como pode ser chato um sino badalando.

Tão chato que alguém resolveu escrever uma carta ao jornal, reclamando daquele barulho infernal – com o perdão da expressão. Queixava-se o sujeito do excessivo número de vezes que o sino da igreja se põe a tocar. Esse sino que ele fala, eu conheço de ouvir tocar. Se são quatro horas da tarde, ele irá tocar quatro vezes, uma atrás da outra. Depois de quinze minutos, voltará a tocar, uma única vez. Baterá ainda a meia-hora e os três quartos de hora. E continuará fazendo isso religiosamente, na hora seguinte e por toda a eternidade – tal é a missão do sino.

Imagino que o homem que se queixa more perto da igreja, e que o escute tocando justamente nos horários em que queria descansar e não ouvir barulho algum. Esqueci de falar que aquele sino em especial, sendo fervorosamente católico, se põe a tocar desesperadamente às seis horas da tarde, a hora do Angelus, o momento da Anunciação do Cristo. Talvez também toque às seis horas da manhã, não sei dizer, o que provavelmente causa o aborrecimento de alguns pobres cachorros que se queixam como podem – uivando. E de senhores de família que se queixam mandando cartas ao jornal.

No lugar onde minha mãe nasceu, existe um sino que trabalha ainda mais. Se durante o dia ele começa a tocar de forma insistente, é um claro sinal de que alguém morreu. E as pessoas então se lembram de alguma pessoa que estava doente nos últimos dias, e se perguntam se é por ela que o sino dobra. Mas na minha terra, o sino já não toca nessas ocasiões. A cidade cresceu tanto, e começou a morrer tanta gente que o sino teria que passar o dia inteiro anunciando funerais – coisa que a vizinhança também não aprovaria.

Também hoje, o sino deixou de regular as nossas horas. Ele badala porque quer. Ninguém aguarda o seu sinal para saber que horas são. Há alguns mais antigos que acertam os seus relógios de pulso com o relógio da igreja – que, em geral, está sempre atrasado. Aquele relógio, eu conheço a história. É alemão, foi construído em 1925. Um senhor da cidade doou um conto de réis para que fosse comprado. Quando a igreja foi demolida para dar lugar a uma mais nova, ele foi junto. Possui marcadores em todos os quatro lados, e quando anoitece ele ainda pode ser observado à distância, graças a um sistema de iluminação interna. Se ninguém observa, não é por omissão dele.

Tem o relógio a doce vantagem de ser mudo. Da minha janela, não ouço qualquer sino, não vejo qualquer igreja. Não há, mesmo, nada digno de ser visto nem ouvido. E então eu pego novamente o jornal, que é coisa que sempre tem o barulho de que preciso.

2 comentários:

  1. Tem a vantagem o relógio de ser mudo. O jornal de só falar quando queremos, as revistas que nos interessa escolhemos e às pessoas que não queremos conviver nos esquivamos...E nossas escolhas visando resguardo de nossa vida em busca de paz vão nos isolando das poucas coisas que existem de eterno.... sons, cheiros, visões... Viramos seres cheios de nove horas. E ai do sino que tenta nos alertar para isso! Talvez o que disse não faz o mínimo sentido... é, realmente, não!

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  2. Na verdade perante a energia que criou o mundo? todos somos livres, portanto a igreja católica poderia dar o direito às pessoas de não ouvirem o sino se assim não fosse sua vontade, pois impor sua vontade aos outros é ignorância pura, pois esta energia até hoje dá o direito total ao ser HUMANO de fazer oque ele bem entende, portanto ninguem é obrigado a escutar o SINO! seja ele de quem for!.

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