domingo, 25 de abril de 2010

Divórcio

Marina Costa

Diz o Papa que o divórcio é uma praga. Acredito que ele nunca tenha se casado a não ser com a santa igreja e que ainda assim, não queira se divorciar dela nunca nessa vida. Pelo menos não assim, às vistas da opinião pública.
Eu nem terminei de ler a tal reportagem, que ocupou uma grande parte da página de certo jornal mineiro e muitas fotos coloridas. Na verdade, só o título, mais ou menos essa minha primeira frase aí, já me encheu de preguiça. Papa, meu caro, a culpa não é sua. Sei que fala essas coisas por que afinal é o que milhões de pessoas esperam que você fale, mesmo que seja pra concordar com a cabeça e discordar com os modos. A preguiça que me dá é de pensar que na atual conjuntura mundial, onde tudo vira manchete de jornal e capa de revista de fofoca, a igreja se preocupe com algo tão batido e vamos dizer, sem importância.
Tá certo que a família é a base (uma “das”, deixo claro) para que não haja adolescentes delinqüentes, dentre outras coisas. Mas pior do que isso é manter mulheres sob o jugo de homens alcoólatras ou violentos, condenando o divórcio e essas mulheres a viver sob o medo constante de espancamento. Não só mulheres nessa situação, mas manter homens humilhados ao lado de mulheres ditas oferecidas, resguardadas as devidas proporções, também não é uma idéia que se faça de um casamento lá muito feliz.
Qual o grande problema de separar-se de uma pessoa a quem pensávamos amar e descobrimos que, bem, não era um amor tão eterno assim? Ou querer abandonar o Dr. Jeckil após descobrir que na verdade se trata de Mr. Hyde? Por que se manter acorrentado aos grilhões de um juramento eterno, se aquela pessoa especial só apareceu depois que as alianças já tinham trocado de mão? Eu não acredito que seja pela máxima “o que Deus uniu o homem não separa”. Deus deve estar ocupado demais com a fome africana, guerras inúteis no Iraque e explosões atômicas na Coréia para se preocupar com fulano que está dormindo na cama de beltrana, mas não é casado com ela em sua igreja.
Não digo que deveríamos todos casar como se estivéssemos comprando uma torradeira e largá-la quando já sair um modelo novo ou perdermos o interesse por pão. Casamento deve ser algo bem pensado, bem pesado, com aquela quase certeza. Quase, pois certeza total, só da morte, como bem se sabe.
Mas que todo mundo possa se preocupar em buscar, inteligentemente, uma felicidade que não deve ficar restrita a um ato bem pensado, mas que infelizmente deu errado. Que cada um possa seguir seu caminho de alma leve, para poder se preocupar com coisas realmente importantes como ajudar o próximo, reciclar o lixo ou consumir produtos que no sejam manufaturados por crianças escravizadas.
A igreja é uma grande entidade, que está a séculos proporcionando conforto a milhões de pessoas, não só espiritual mas físico e  emocional também. O que ela fala, acredito, é no intuito de ajudar ainda mais a todos – cristãos ou hereges – a viver em um mundo melhor.
Mas sinceramente, creio que essa entidade tão importante deva entender que precisa se adequar melhor aos tempos presentes. Aceitar que não vivemos mais com certos conceitos medievais, tanto pela época quanto pela cabeça das pessoas que agora se preocupam muito mais com seus demônios interiores do que com os diabinhos do andar debaixo.
Se a idéia é fazer com que reine no mundo, nos lares uma paz harmoniosa e uma compaixão verdadeira, que primeiro possa haver uma aceitação daquilo que realmente funciona hoje e daí partir para a criação do que pode vir a ser amanhã. Sem conceitos errôneos, sem condenação à danação eterna e, o mais importante, sem tentar imbuir nas pessoas que felicidade é pecado.
 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Busca



Marina Costa


Procura, procura. Sobe em montes. Põe a palma da mão sobre os olhos, para tentar enxergar mais longe. Olha de cá, de lá. Grita, para ver se o eco responde. Mas nada. Só imensidão. Gigante, como o desespero da busca que nunca acaba. Desolada. O sol se foi, o céu rosáceo pergunta "para onde?". E quanto mais perto parece chegar mais tudo se esconde. Escuridão, rotina de todo dia após o anoitcer, de súbito traz iluminação. Não busque. Não corra. Não grite. Apenas morra. Na morte de todo dia, no deixar o que foi ficar na moldura do passado, no museu empoeirado da vida, as pequenas coisas se esvaem... E a alma fica livre para toda a efervecente fertilidade das grandes coisas que virão.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Considerações de travesseiro


Marina Costa

Vida. Porquê tanta pluralidade? Porquê tanta invenção? Porquê chegamos ao ponto de não termos tempo para nada e perdermos tanto tempo com tudo? Minha hora preferida é ao cair da noite, quando deito com a certeza dos sonhos. Sonhar milhões de histórias sem sentido, tão estapafúrdias quanto a vida. Com a diferença de que no sonho eu sigo sem questionar. Tudo tem uma lógica fácil de entender e aceitar, sendo o absurdo a própria realidade. Não preciso conviver, como quando acordada, com o caos de pensamentos sem respostas que permeiam minha mente humanamente ignorante e aflita. Não preciso pensar em futuro e passado. No sonho só há o tempo dele. Do sonho. Até a próxima noite. Até o último sono. Até.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cabeça vazia, oficina minha



Marina Costa

Tem dias que acordo com vontade de engolir o mundo. E como a vontade fica sempre insatisfeita, termino com uma grande indigestão de vazio na barriga. Se Deus existisse e fosse bom, ele não deixava a gente pensar. Aposto que fica é se divertindo lá em cima, com o nó que reina na nossa cabeça. Coisa chata é ter neurônio. Se fossem só feromônios, éramos mais felizes, penso eu.