terça-feira, 25 de maio de 2010

Angústia



Marina Costa



Você não sabe que existo. Ou pelo menos acredito que não saiba. Mas mesmo assim já fiz tanta coisa por nós. Menti tantas verdades inocentes, sorri tantos sorrisos fáceis, passei tantas horas apenas pensando em sua imagem. Meu coração se aperta por acreditar que pode estar andando em caminhos errados. Mas ele não quer saber de pedir informação pra você, isso não. Por quê? Ah, não sei. Ele tem medo de ouvir um não. E aí toda essa fantasia criada em torna de algo perfeito vai sumir como nuvem na noite. Meu coração vai ficar de novo negro e sombrio, não vai aceitar que você brilhe em outro céu. Então continuo, por ele, nesse círculo quase infinito de sete dias. Vivendo em função de esperar as poucas horas que passarei do seu lado, por mais impessoais que elas sejam. O que virá daí? Ou melhor, virá algo daí? E meu peito se enche de angústia cada vez que penso assim.
E depois, o que dizer? Como explicar as mentiras inocentes, as manipulações apaixonadas? Eu não sou mais uma adolescente mas não mudarei nunca, será que dá pra entender? Continuo sonhando e moldando a realidade ao meu redor de acordo com meus desejos. Será que você vê isso? Que tudo que fiz foi pro meu bem? Um bem que só queria ser seu também? A verdade sozinha não é capaz de explicar tudo o que sinto, diz uma música que não me canso de escutar, por isso minhas pequenas mentiras a auxiliam e tudo se justifica nesse amor sem por quê que sinto por alguém que na verdade não passa de um íntimo desconhecido de minha mente.
Um doce desconhecido. Que rouba meus momentos de lucidez, meus momentos de paz. Invade meus pensamentos sem que eu deseje, fazendo com que eu não sinta mais vontade de parar de pensar em você. Em seus belos olhos cheios de vazio, em seu modo único, diferente de tudo que já vi...
Quanto mais minha mente delira mais meu peito se oprime. Será que poderei ficar assim até o fim da vida? Não que ela dure muito, com toda essa angústia que me invade. Mas até quando irei suportar esse vulcão dentro de mim em silêncio? A lava está me queimando por dentro e eu não tenho nem mesmo o direito de chorar, porque me omito.
Alma acanhada. Refugiada em livros, em poemas e canções que traduzem pela voz de outros o que sinto. Refugiada em filmes açucarados que tem o irreal final feliz que tanto desejo para esse meu amor tão platônico.
Não consigo mais suportar tanto querer, tanta vontade de ficar perto, em silêncio, imóvel só para sentir a sua respiração junto de mim. Não consigo. Ou esqueço ou me mostro à luz dos holofotes, mas pelos deuses, meu medo dessa imensa platéia  (que se restringe a você) me mantém estagnada. Me diga, o que faço? A que recorro? Indiretas? Cartas? Bola de cristal? Nada disso serve para me inspirar confiança. Por mais que o tarô me diga “sim”, meu medo desse amor, que já me consome mesmo existindo pouco, é tão grande que não tenho coragem de andar.
Por quê não podemos dizer tudo o que queremos em um olhar? Ou porque não entendemos tudo o que é em um olhar?
Querer, desejar, sonhar, maldita vontade humana sempre insatisfeita. Não me basta te ver, tenho que te tocar, não basta pensar em você, tenho que te ouvir, não me basta existir só, preciso de amparo. Você é meu amparo. Quando perceberá?
Enquanto isso caminho em ondas longitudinais, em movimentos retos e circulares, sem gravidade, me fingindo de tonta, esperando um tempo fora desse espaço, ouvindo sua voz, onda sonora capaz de se propagar em meu universo infinito. Espero impaciente, passarem os sete dias que me separam de você. E tenho a impressão de que morrerei sufocada em tanto sentimento se a areia da ampulheta se extinguir e você se perder para sempre nas dunas desse amor deserto que plantei em minha vida.





sábado, 15 de maio de 2010

Inconsciente

Sonhei com Tamara na mesma noite em que ela sonhou comigo. Não lembro de muitos detalhes, e tampouco lembra ela. Segundo ela, estávamos em Brasília – não sei. Sei apenas que a aparição de Tamara se deu de forma natural: aconteceu de estar no meio de outras pessoas que eu conhecia. E, por ser assim, nada houve que pudesse lembrar o nosso passado em comum. E nada haveria a ser contado se não fosse por essa estranha coincidência. Se os sonhos realmente têm algum significado, o nosso talvez seja esse: ainda não nos livramos totalmente daquilo que poderia ter sido.

Henrique Fendrich