segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mona


Marina Costa

Seu rosto era açoitado pelos cabelos escuros, que se dobravam furiosamente pelo vento. O frio chegava dos céus em grossos pingos de chuva. Do alto daquela única colina, ela olhava o horizonte como se fosse um quadro de imagens infinitas. Pois nada permanecia. As horas em que ficou perdida em devaneios não poderiam ser contadas, pois ali não reinava o tempo. A grama dobrada ao peso da chuva parecia triste ao recolher também as lágrimas dela. Lágrimas de dor, saudade e perda.
Quando o sol finalmente surgiu, após o que pareciam séculos passados em um mundo cinzento, não havia mais sofrimento no coração da mulher. Não havia mais medo ou ânsia. Não havia mais nada ali. Apenas a paz de um tempo que nunca existiu exceto em uma mente irrevelada. Silêncio.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Da ilusão de amor


Marina Costa

Começa pelo olhar. Sabe aquela história de o que o olho não vê? Pois é... só que não dá para andar por aí vendado. E a gente acaba vendo. Em um, é o jeito de andar. No outro, como coça o queixo. Tem aquele ainda, que tem um meio sorriso estonteante. E a gente vai se perdendo no meio de tanta gente. Sei que no frigir dos ovos a gente escolhe uma companhia e vai levando. Pensa que o amor chegou num ponto que não vai mais descer o morro e estacionamos ali. E o amor fica quieto. Até que o tal do pescoço resolve virar pro lado. E o olho encontra outro olho sedento. Um jeito de piscar... E lá vamos nós, outra vez...

sábado, 12 de junho de 2010

Inevitavelmente

Marina Costa

Chuva fina, cerveja escura, casa vazia e nada de televisão. Quando a luz, muito apropriadamente se retirou, as coisas embolaram. Quem puxou quem, nem eles saberiam, eu acho. O que me contaram mesmo é que certa calota polar se desprendeu em algum lugar onde cientistas afirmaram que o calor nunca seria capaz de chegar. E os dois, pobres almas extasiadas, morreram queimados, ali mesmo. Fulminante. Dizem que não sobrou nem cinzas...

domingo, 6 de junho de 2010

Perdas



Marina Costa

O que você faz aqui? perguntou para ela. Caí da lua e não sei voltar, disse a menina cujos olhos cor de pedra brilhavam. E você? dirigindo-se ao homem que carregava armas de guerra, perdi uma batalha e voltei ao campo para sacrificar a terra. Ambos estavam de coração vazio. Mas a noite lhes deu estrelas. E sob seu manto, o calor de um abriu a cicatriz do outro. Peito fértil de novo. Cheiro de vida que a chuva abençou.