quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Bom dia


(créditos da imagem: http://miseriahq.blogspot.com/)
Marina Costa

Natanael  é um homem imundo que mora na esquina e fede a ser humano. Sua  maior posse é um saco plástico e sua conta bancária, metade de uma garrafa pet. A copa de uma pata de vaca transformou-se em seu teto há cerca de uma semana atrás. Sua aparência é composta por olhos vidrados e filosoficamente cansados, roupas esfarrapadamente marrons e pele tingida da negritude do pó de asfalto levantado pelos carros importados que passam na frente da residência de Natanael. Homem de sorte! Área nobre da cidade e ainda por cima, não paga IPTU. A cada dia, ele aumenta um pouco sua casa, se deslocando mais para frente na calçada. As pessoas se irritam, porque precisam aumentar seu grau de desvio ante o incômodo. Pois além da sujeira na praça, das palavras toscamente balbuciadas e da poluição visual no bem cuidado bem municipal, Natanael ainda tem a audácia de incomodar os narizes chanelentos dos transeuntes com seu cheiro fétido. Audácia! Pois amanhã, tomarei um resolução ao passar por Natanael, visando o bem comum. Vou lhe servir chá inglês em porcelana made in china. Conversaremos sobre a bolsa, o  caos do sistema  financeiro mundial e como isso afeta nossa vida de consumo essencial e outras coisas estupidamente importantes para o bem andar social. Assim, Natanael  poderá ser elevado à categoria de ser humano e essas pessoas victor huganas não poderão mais desprezá-lo. Ou não mais ignorá-lo. Ele deixará de ser um mendigo e será um mendigo que, graças ao bom deus do capital, entenderá da moda de valentino. E quem sabe logo, transformará sua podridão visual na próxima tendência de Paris.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto, se precisar de mais colaborações, estamos aqui para isso...

    abraços

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