domingo, 8 de agosto de 2010

Mesmice

Marina Costa


Acordei cinco minutos antes do relógio despertar. Dei bom dia a vida, me espreguicei e fui direto para a cozinha, como sempre, acordei faminta. Com calma e dispersão, tomei o café que me nutre e sustenta, agradecendo a dádiva de me alimentar em um mundo onde milhões morrem de fome. Automático. Mas pelo menos agradeço. Olhei pela janela para ver se o dia estava igual aos dias, nem quente nem frio. Vesti o uniforme, para também me tornar igual as pessoas, peguei minha bolsa e meu celular que nunca toca, desejei bom dia para quem ficou e saí. Girei a chave duas vezes e confiri se a porta estava trancada. Como todos os dias. Melhor prevenir, o seguro morreu de velho, bem já dizia minha avó que não tinha seguro. Mas eu acredito. 
O elevador demorou a subir como sempre, mas já não me impaciento mais. Desci. Fui andando para tentar enxergar as novidades do dia. Vejo a mesma pressa em pessoas diferentes. Outros mendigos dormindo nas mesmas calçadas. Os mesmos ônibus que jogam no ar fumaças novas mas que poluem como as de ontem. As árvores de sempre presas dentro das grades do parque. Pelo menos há árvores. Sorrio para elas, como todos os dias.
Cheguei. Abri a sala, liguei computadores e ventiladores. Olhei a agenda e anotei algo sem importância, mas que eu certamente me esqueceria se não deixasse registrado. É tanta coisa igual que a memória acaba esquecendo o que foge a regra. Pelo menos a minha esquece.
Começo a sessão de mais bons dias. Penso seriamente na possibilidade de fazer uma placa com a saudação e pendurar em meu pescoço. Pouparia minha falta de graça ao repetir todos os dias, para as mesmas pessoas, a mesma coisa, com a mesma entonação. 
Leio. Atendo o telefone. Não demora e o relógio me diz que já posso sair para almoçar. Mas como sempre não saio. Como alguma porcaria enquanto meu corpo não reclama. Ouço um programa humorístico que já não me faz rir com suas piadas repetidas. Leio emails prometendo milagres para iluminar a vida. Nem dou atenção pois cada um tem o poder de iluminar sua própria, basta pagarmos a conta de luz. Piada batida, eu sei. É o costume. Divago olhando a quina da parede. Trabalho.
A tarde passa como que arrastada. Lá fora ouço as mesmas buzinas de ontem. Aqui dentro continuo me sentindo presa em uma caixa de cimento. Vejo o dia passar pela janelinha da sala ao lado. Mais uma vez chegam as tão queridas dezoito horas. Faço o ritual de encerramento diário: desligo tudo e confiro se realmente desliguei. Tranco  a sala. Volto a pé para sentir a liberdade do fim do dia. Compro pão para o café, que continua delicioso apesar de ter o mesmo gosto de ontem. E apesar de eu saber que terá também o mesmo gosto de amanhã.
Vejo os mendigos que procuram no lixo os restos que alimentam suas vidas. Todos os dias. Até quando eles poderão aguentar essa situação? Eu não sei! Me entristeço mais uma vez ante minha impotência de mudar algo. Vejos os mesmos rostos cansados que só querem suas casas e seus aparelhos de tv, que mostram as mesmas novelas água com açúcar onde todo mundo tem um final feliz e uma vida diferente. Mas a história é sempre a mesma. 
Já em casa, tomo um banho demorado enquanto penso se minha pele pode realmente se gastar, como diz minha mãe. Visto um pijama velho porque não me acostumei ao novo. Assisto as mesmas notícias tristes em lugares diferentes. E vislumbro em pessoas diferentes a mesma centelha de esperança de que tudo será melhor amanhã.
Oro. Peço a Alguém mais poderosa do que eu que abençõe aqueles que estão longe. Acredito que se não pedir isso todos os dias, eles podem ser esquecidos. Peço para dar conforto aqueles que não posso confortar. Agradeço pelo meu dia. Peço pelo dia de amanhã. Penso ainda em nada durante cinco minutos e finalmente cedo ao sono cheio de sonhos. Visito lugares fascinantes, vejo pessoas desconhecidas, faço coisas mirabolantes.
E mais uma vez acordo cinco minutos antes do despertador. Já me acostumei e acabei entrando em uma silenciosa gincana onde não deixo ele me vencer. Olho pela fresta da cortina e vejo que será um dia igual, nem quente nem frio. Um pensamento me passa pela cabeça: “vai começar a mesmice.” E um sorriso largo se abre no meu rosto. Me espreguiço e cheia de um felicidade serena desejo um bom dia a vida.

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