domingo, 1 de agosto de 2010

Não falem comigo


Marina Costa

Acordei com dois pés esquerdos hoje. Isso mesmo. Me sinto revirada, visível ao avesso e por isso mesmo transtornada. Motivos? Não me pergunte. O tal ser racional e seus sentimentos são uma caixa tão secreta que nem ele próprio sabe o que contém. O tempo hoje está frio e nublado e o que tanto me deixa feliz em dias normais agora me faz ficar ainda mais irritada. Será que não mereço nem ver o sol  brilhando em dias como hoje? Mas, sabendo de minhas próprias controvérsias, acredito que se houvesse sol brilhando me sentiria escarnecida e ainda mais aborrecida. 

Não quero que falem comigo, nem que olhem para mim. Sorrir ao me ver então é querer brigar. Se possível passe por mim como passaria pela porta de sua casa, pelos mendigos de sua rua, sem se dar conta dessa existência infeliz. Hoje quero ficar só, inerte em meus pensamentos raivosos, meditando sobre todas as loucas situações que armo em minha cabeça, chorando de ódio por aquilo que nem sei se realmente desejo mas que mesmo assim insiste em não acontecer. Hoje prefiro ser obrigada a agüentar apenas eu mesma.

Por favor não chame meu nome. Não o gaste. Me enerva vê-lo profanado em sua boca inútil que não diz nada além de asneiras. Caso eu ouça me chamar poderia te dar uma má resposta em troca, mesmo contrariando meus princípios de doces sorrisos e boa educação. Mamãe me perdoe, mas tem dias que nem mesmo a senhora me aguentaria.

Para aquele que me lê, digo que seu problema agora é ainda mais seu. Não quero mesmo saber e me importa pouco se algo te faz feliz, talvez até mesmo eu fique contente em ver que, ao contrário, algo te entristece. Chega de ser boazinha, solícita, meiga, delicada. Que se dane o céu a que tantos aspiram. Já chega de meus próprios fardos, reais e inventados. Estou cansada de achar que carrego o mundo nas costas. Hoje quero me libertar, me soltar dos grilhões, gritar com o mundo, dizer que não, eu não sou como Cristo e estou cheia de ser pregada na cruz por esse viver ingrato.

Árvores e flores se virem ao me ver passar. Nem o bom dia diário que dou a vocês com tanto gosto sou capaz de dizer hoje sem que caia uma gota de fel em suas folhas e pétalas. Não, não exagero. Me sinto como um dragão enfurecido, pronto a cuspir fogo em tudo que estiver em meu caminho, tenho medo até mesmo de que essa crônica não saia caso minha ira se volte contra o papel.

Maldito telefone que insiste em tocar. Será que não ouviu o que eu disse? Nem você quero atender agora e digo que te defenestrarei com gosto se insistir em me incomodar. Loucura. Acesso. Acho que é disso que preciso. Literalmente, enforcar alguém. Corruptos e cínicos, não ousem passar em minha frente até que acabe esse dia de nervosia. Ou não me responsabilizarei pela justiça cega que serei capaz de fazer por mim mesma.

Mundo, mundo, me perdoe! No fundo não tenho raiva de você. Minha raiva é dessa sociedade que corrompe o homem bom por natureza e faz com que sentimentos contraditórios me invadam ao despertar e ter que aceitar essa realidade doentia. Meu ódio é pelas minhas vontades desnecessárias e insatisfeitas que não me deixam em paz um momento sequer. Meu desprezo é pelo capitalismo incorreto que vigora e me devora roendo meus ossos, lambendo meu sangue, desvalorizando meu suor. Minha tristeza é pelo cinza do dia que reflete toda a tempestade dentro de meu coração, é pelo amor que corre na minha frente sem nem mesmo olhar para trás e escarnece de mim. Minha rebeldia é pelo fato de que enquanto escrevo essas palavras sombrias e nervosas, enquanto lanço minha ira no papel, a vida não pára de caminhar, a estrela que tanto desejo brilha em outro céu e eu, completamente confusa nessa mistura de razão e emoção não sei nem mesmo o que fazer com tanto entender dentro de mim e tenho medo de que no final acabe morrendo envenenada por minhas próprias convicções.

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