terça-feira, 31 de agosto de 2010

O marido da minha amiga

Da série: "O namorado da minha amiga"

Marina Costa

Eles caminhavam rápido. Ele, se via de longe, estava nervoso. Ela, triste. Do outro lado da calçada, ele, o outro, ficou a olhar os dois que se afastavam. No dedo dela, o sol reluziu na aliança dourada. Enquanto andavam, ele – o marido – não pensava em nada. O choque fora grande demais. Sua mulher e seu melhor amigo. E pensava que isto só acontecia em novelas. Ou então, em música sertaneja.

Ela, tropeçando às vezes devido à combinação fatal de pressa, calçamento e salto alto, a custo segurava uma lágrima que teimava em querer descer. Não sabia o que fazer. Até ali, não fizera nada. Resistira, desconversara, dizia que seu marido a mataria. Mas ele – o outro – afirmou que seu amor era maior que tudo aquilo, e ela no momento em que indubitavelmente se deixaria levar, viu com uma surpresa aterradora ele – o marido – entrar, furioso, naquele restaurante.
 
Chegaram em casa. Ele não disse nada, sentou no sofá e chorou. Ela se trancou no quarto e me ligou.Me contou tudo o que eu ainda não sabia. Me sentia cúmplice por já ser conhecedora de uma parte daquela história. Pelo menos eu não estava ali, eu não tinha que encará-lo – o marido. Eu fiquei sem saber como consolá-la. Em parte, tinha vontade de gritar! De me contagiar com sua histeria. Mas também sentia pena dela. Deles. Do casamento, até ali, empurrado. Da constante ameaça de ex – malditos ex – que os vivia rondando, aos dois. Agora, tudo estava perdido. E eu, a quase 300 km de distância, não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Eu também tinha vontade de chorar.
 
Abruptamente, ela desligou. Meu sangue gelou! Em um segundo, tive a certeza de ler, nos jornais da manhã seguinte, como um marido quase traído, pela mulher e pelo melhor amigo, perdera a cabeça, esfaqueara ambos – usando certa faca de dois gumes da cozinha do casal – para depois se jogar da janela do apartamento dos dois, esquecendo, “uma fatalidade”, noticiaria o diário, que moravam no primeiro andar. Cenas de violência, membros decepados, lençóis ensangüentados me vieram à cabeça repentinamente. Larguei o emprego, alegando uma dor inexistente, que não passou nem perto de ser engolida pelo meu chefe e corri para a rodoviária. Quisesse Deus que ainda desse tempo.
 
Uma hora de viagem. Duas. Prolongava-se meu tormento. O celular, só desligado. Minha amiga, coitadinha! Eu podia tanto ter alertado. Aconselhado, amarrado ao pé da cama, eu devia ter feito alguma coisa. Ia, o resto da vida, me culpar daquela tragédia. Agia como se eu fosse a causadora de tudo. E olha que nem ex eu era.
Finalmente, entrei na cidade. O táxi não poderia ser mais lento, inevitavelmente. Paramos na porta, paguei e não peguei o troco. Corri, subi as poucas escadas aos pulos, como se fosse decidir minha própria vida. Com uma dor aguda no estômago, toquei a campainha. Ele atendeu – o marido. Não sorriu. Eu não esperava o contrário. Procurei sangue na camisa, nas mãos. Nada. Ele parecia sem rumo mas mesmo assim não entendia o meu olhar arregalado. Vi marcas de lágrima no rosto. Perguntei por ela, e ele disse que estava no quarto.Com olhar de cão desconfiado, eu subi mais alguns degraus. Empurrei a porta. Ela trocava de roupa. Gritou de alegria ao me ver. Me abraçou e não me deixava falar. Eu procurava algum corpo inerte no quarto – o do outro. Quando ela finalmente me acalmou e me certificou de que faca nenhuma ( o que seriam mesmo dois gumes?), encostara em ninguém, me sentei.
 
Então ela contou que depois da tempestade inicial, os dois conversaram. Chegaram à conclusão que eram novos demais quando se casaram, que o amor não passou de uma paixão mais exacerbada e que resolveriam tudo amigavelmente. Literalmente, continuariam bons amigos. Eu fiquei abobalhada. Tive vontade de esmurrar, se isso fosse possível, minha imaginação fértil. Gaguejei, soltei muitos “mas”, outros tantos “então” como se tivesse ficado decepcionada com o final feliz daquela história. Nem eu mesma me entendia. Brasileiro gosta de sangue e sexo, como diria um sábio escritor. Fiquei envergonhada de perceber que, com toda minha cultura muito alardeada, eu ainda me encaixava nessa categoria. Enfim...

Ela, sempre sorridente, disse que foi melhor assim. Sem a interferência de ninguém, nem pais, nem avós, nem amigos, só os dois resolvendo suas próprias vidas, pela primeira vez. Eu engoli em seco todos os meus conselhos não ditos. Intimamente, agradeci por ter ficado calada daquela vez.
 
Em cima da cama, uma mala. Olhei e perguntei se então, ela iria viver com ele – o outro - agora. Ela, muito surpresa, me olhou abismada e soltou um sonoro não, como se estivesse refutando uma blasfêmia minha. Disse ter concluído que ele – o outro – é que não tinha nada a ver com ela mesmo. Foi só um pequeno deslize, um sonho bobo de amor mal resolvido, uma espécie de “Síndrome Bovary”. Me perguntei quando ela, que era avessa aos livros, teria lido Flaubert, mas isso não vinha ao caso. As malas, continuou, eram para umas férias há muito merecidas. Ia para o litoral, limpar o corpo e a alma das preocupações cotidianas nas águas salgadas do Rio de Janeiro, que devia continuar lindo. Seria uma espécie de lua de mel, agora com ela mesma. Ele – o marido, na verdade o agora ex-marido - sorriu de leve ao se despedir de mim, antes que eu entrasse no táxi, de volta à rodoviária em que eu desembarcara, atordoada, uma hora antes. Disse que, no final das contas, a vida era assim mesmo. Umas decepções aqui, outras ali, mas no fundo o que importa é a gente estar feliz. E ele queria que ela fosse feliz. Queria ser feliz também. E para os dois já não dava mais. Melhor cada um continuar sozinho, lembrando com carinho do que passou. Eterno enquanto dure, não é assim que dizem por aÍ? Ele perguntou. Eu, não entendi nada. Concordei com a cabeça e me despedi. Ele ainda me pediu para não sumir. Deslocada, como se tivesse sido o meu casamento a desabar, voltei pra casa resistindo aos protestos dela, para prolongar minha “doença” e viajarmos juntas. Imagina, uma lua de mel para nós duas... Recusei, educadamente! Eu estava mais para viúva do que noiva. Viúva de uma história que nem minha era. Maldita mania de tomar as dores dos outros. Eles mesmo, pareciam não estar sentindo muito com nada daquilo...

Tomei um café e fui me deitar. Sacudi a cabeça e deixei pra quem quisesse entender esses pseudo amores arrebatados. Não que não devesse ser comum... mas poderiam não banalizar demais! E eu entendo o que disso, afinal? Deixo pra lá, é demais pra mim.
 
Agora, enquanto tento achar outro emprego verifico os emails que ela me enviou de suas férias, que já se prolongam por duas semanas. Milhares de fotos de sua carinha sorridente, com um leve ar sapeca, entre surfistas loiros e bronzeados de Saquarema. Me diz ter encontrado o paraíso (brinca dizendo que os anjos têm pranchas ao invés de asas) e afirma ainda ter uma vaga à minha disposição em seu quarto. Balanço a cabeça. Não posso deixar de sorrir. E antes de dormir penso seriamente em investir meu seguro desemprego comprando um carrinho de água de coco...

Um comentário:

  1. muito bom, ri muito! é a pura verdade feminina, sempre tomamos a dor do outro! rsrs

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