terça-feira, 21 de setembro de 2010

Abundância


Marina Costa


Por detrás da colina, verde como o mar da terra que deixamos, um raio de sol caminha, refletido na manta branca do homem que volta para casa.

Ele tem os pés descalços, a face suja da terra trabalhada, os olhos apertados para não enxergar o cansaço. Mas emana a paz daquele que cumpriu seu dever.

É primavera, e a terra, depois de cuidada, amada e cultivada, vai florescer.

Nos campos, a chuva, que foi anunciada por grandes e pesadas nuvens cinzetas, derrama seu perfume de mulher recém descoberta. Pingos. Gotas. Torrentes.

O barulho ensurdece. No solo, grandes buracos de lama começam a respingar em nossas vestes esfarrapadamente dignas. As mãos, erguidas para o céu, agradecem a benção que cai a cântaros.

Do fundo da terra pequenos brotos verdes lutam para chegar à superfície. Como todos nós. E de nossos rostos, o suor se mistura com a chuva e delineia o sorriso harmônico da criação. Como toda a natureza.

É a vida que criou a vida. E, depois de brotar e crescer, ela vai se espalhar pelo mundo, levando à cada mão vazia a plenitude de uma alma repleta. Pois o que a terra dá, o homem multiplica e compartilha ajudando cada um a seguir seu próprio caminho com mais calor no coração.

domingo, 12 de setembro de 2010

Acalento

Marina Costa

Sabe de uma coisa, eu não ligo para suas opiniões políticas e acho que você desperdiça seu tempo tentando mostrar que existe uma esquerda e uma direita. Já te disse, as coisas devem andar pelo meio. Também não me interessa qual posto de gasolina vende mais barato. Falo de novo, você devia começar a andar mais a pé, até porque é para isso que servem suas pernas. Se a cerveja está quente, se o trânsito está pior a cada dia ou se você não ganha o tanto que gostaria, é tudo problema seu. E não, eu não quero assistir esse filme porque ele é estupidamente comercial demais e a gente não precisa se enganar dessa forma. Olha pra mim. Presta atenção. Deixa eu falar agora. O que eu quero mesmo saber é qual é o seu maior sonho impossível, porquê sempre antes de comer você gira o garfo no ar, qual o motivo para você preferir o branco ao invés de todas as outras cores, desde quando você acredita em fim do mundo, como você imagina uma vida dentro de uma caverna nas montanhas, quais são suas vontades que nunca são satisfeitas, porquê o seu beijo tem sempre gosto de menta mesmo se você não escovar os dentes, qual foi sua maior alegria infantil, o que você pensa logo que abre os olhos de manhã... Sabe, me conta isso.  Me mostra o que tem aí dentro. E larga esse mundo cinza pra lá. Vem?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Feriado


Marina Costa

O relógio despertou pela quinta vez, por volta das onze da manhã. Ninguém alertou-o que deveria calar-se pelo 7 de setembro. Ele não entenderia, de qualquer forma. Como muitos, não se interessa pela comemoração da independência. Saimos do espeto e caimos na brasa, é o que acredita. Ruim com eles tanto pior sem. Se é que estamos sem.
 
Duas da tarde e continua olhando para esse trabalhador desocupado. Realmente não entende porquê só ele trabalha sem descanso. Ele que nem brasileiro é. Tawain, de repente, ficou familiar. Gostaria de voltar para a China ou pelo menos poder ter alguns dias de descanso, uma espécie de festival da fonte dos relógios digitais. Acha que merece.
 
4 da tarde e finalmente o sujeito sai da cama. Despenteado e com marca de baba na barba por fazer. Senta-se na frente da tv para ver os desfiles. Rumina a cerveja que bebeu na noite anterior para comemorar o dia de folga. Assiste o jornal que mostra as mortes do feriadão. Come o resto de marmitex frio da geladeira. Dorme no sofá. Afinal, é dia de descanso. Liga para sua colega de trabalho e combina um jantar. Pensa em finalmente dar o bote. Seria um bom jeito de terminar seu feriado. Liga em seguida e desmarca. Está com preguiça de deixar seu estofado. Prefere resolver seu problema sozinho e ir dormir. É uma ótima forma de terminar seu feriado. Finalmente toma um banho e olha o relógio. 20 para as onze da noite. Apaga a luz e dorme. Amanhã terá outro dia difícil de trabalho. Para em seguida descansar no merecido final de semana...
 
O relógio, desapontado, não vê mais motivos para continuar marcando as horas. Nessa casa, todas elas serão sempre iguais. Vazias e inférteis. Como mulheres frívolas. Cansado, seus números começam a falhar. E antes da meia noite, pifa definitivamente. Quis assim. Melhor queimar do que se apagar aos poucos. Que fique só o homem urbano, com seu tempo preenchido por nada e seus dias infinitamente iguais.