terça-feira, 21 de setembro de 2010

Abundância


Marina Costa


Por detrás da colina, verde como o mar da terra que deixamos, um raio de sol caminha, refletido na manta branca do homem que volta para casa.

Ele tem os pés descalços, a face suja da terra trabalhada, os olhos apertados para não enxergar o cansaço. Mas emana a paz daquele que cumpriu seu dever.

É primavera, e a terra, depois de cuidada, amada e cultivada, vai florescer.

Nos campos, a chuva, que foi anunciada por grandes e pesadas nuvens cinzetas, derrama seu perfume de mulher recém descoberta. Pingos. Gotas. Torrentes.

O barulho ensurdece. No solo, grandes buracos de lama começam a respingar em nossas vestes esfarrapadamente dignas. As mãos, erguidas para o céu, agradecem a benção que cai a cântaros.

Do fundo da terra pequenos brotos verdes lutam para chegar à superfície. Como todos nós. E de nossos rostos, o suor se mistura com a chuva e delineia o sorriso harmônico da criação. Como toda a natureza.

É a vida que criou a vida. E, depois de brotar e crescer, ela vai se espalhar pelo mundo, levando à cada mão vazia a plenitude de uma alma repleta. Pois o que a terra dá, o homem multiplica e compartilha ajudando cada um a seguir seu próprio caminho com mais calor no coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para contato, o email é vidanacronica@gmail.com