quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Feriado


Marina Costa

O relógio despertou pela quinta vez, por volta das onze da manhã. Ninguém alertou-o que deveria calar-se pelo 7 de setembro. Ele não entenderia, de qualquer forma. Como muitos, não se interessa pela comemoração da independência. Saimos do espeto e caimos na brasa, é o que acredita. Ruim com eles tanto pior sem. Se é que estamos sem.
 
Duas da tarde e continua olhando para esse trabalhador desocupado. Realmente não entende porquê só ele trabalha sem descanso. Ele que nem brasileiro é. Tawain, de repente, ficou familiar. Gostaria de voltar para a China ou pelo menos poder ter alguns dias de descanso, uma espécie de festival da fonte dos relógios digitais. Acha que merece.
 
4 da tarde e finalmente o sujeito sai da cama. Despenteado e com marca de baba na barba por fazer. Senta-se na frente da tv para ver os desfiles. Rumina a cerveja que bebeu na noite anterior para comemorar o dia de folga. Assiste o jornal que mostra as mortes do feriadão. Come o resto de marmitex frio da geladeira. Dorme no sofá. Afinal, é dia de descanso. Liga para sua colega de trabalho e combina um jantar. Pensa em finalmente dar o bote. Seria um bom jeito de terminar seu feriado. Liga em seguida e desmarca. Está com preguiça de deixar seu estofado. Prefere resolver seu problema sozinho e ir dormir. É uma ótima forma de terminar seu feriado. Finalmente toma um banho e olha o relógio. 20 para as onze da noite. Apaga a luz e dorme. Amanhã terá outro dia difícil de trabalho. Para em seguida descansar no merecido final de semana...
 
O relógio, desapontado, não vê mais motivos para continuar marcando as horas. Nessa casa, todas elas serão sempre iguais. Vazias e inférteis. Como mulheres frívolas. Cansado, seus números começam a falhar. E antes da meia noite, pifa definitivamente. Quis assim. Melhor queimar do que se apagar aos poucos. Que fique só o homem urbano, com seu tempo preenchido por nada e seus dias infinitamente iguais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para contato, o email é vidanacronica@gmail.com