quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Narciso

Marina Costa

Sabe quando a gente finge? Sabe quando a gente finge que está fingindo e depois de tudo não sabe mais aonde foi parar o nó da verdade pelo fingimento, onde desata tudo? Sabe quando a gente lê cartas rasgadas, muito tempo depois do choro, e não sabe mais quem escreveu pela nossa mão? Hoje eu te vi e fiquei pensando assim...

Fiquei pensando se eu não procuro coisas em lugares que eu não devo abrir... E para pegar a chave eu acabo falando palavras mágicas que não entendo bem o querem dizer...

Eu poderia te perguntar mas acho que você também finge.

E aí seríamos dois, a questionar nossas prórprias ambições sem motivos. Sem fundamento. Buscando algo que dê para segurar. E arremesando bem longe, em seguida, para não olhar por uma segunda vez.

Uma segunda vez verdadeira... como uma vela por detrás da sombra no espelho. 

A realidade é madrasta. Machuca e ensina. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beijo

Beijo - Fernando Scheidt

Marina Costa

O cheiro de canela vinha do brinco na orelha e enebriava o sentido já atordoado pelo calor do corpo dela. Quente e úmido. Sentiu, no bigode, a respiração morna e macia, rápida mas equilibradamente constante. Quando encostou-lhe os lábios sentiu o frio do gloss que ela usava. Frio com gosto de cereja em conserva. Relevou. Nesse momento já havia fechado os olhos. Depois de conferir se ela fechara os dela. Três mordidinhas depois ele entreabriu a boca pequena com sua língua firme. Buscando o que ele já sabia estar ali. E ela cedeu. Com um pequeno suspiro estremecido. E ele sentiu se inundar de uma sensação de afogamento no calor de uma tarde de sol forte. Lento, molhado, ressaca. Como o mar. Infinito. Perdeu-se ali. Para sempre no beijo que sonhou e do qual nunca mais ia acordar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Réstia

Marina Costa

Quando o sol, mais uma vez, se levanta na janela branca do quarto dela, ela sorri porque sabe o que a espera.
Quando a lua sai triunfal, arrastando seu manto de ponta laranja pelo horizonte a dentro, ele sente uma certa dose de desalento, que não deixa de ser emoção.
Se a noite, que é retrato dela, se retira misteriosa, é para deixar vir o dia sereno, pleno, como o que ele mostra.
Da treva, caldeirão do mundo, vem o pulsar da semente que ela carrega.
Da luz, fertilidade da vida, vem o jorro brilhante que move os céus.
E assim para sempre, no branco e no negro, estarão juntos a criar eras, seres, pensamentos e susurros. Nas folhas secas e nos galhos tortos do silêncio retumbante. Nas labaredas vermelhas e ondas transparentes de efervescente harmonia. Unidos por uma força invísivel mas inegável. Que gera tudo. Que compõem o nada. Escondida na luz da noite. Alardeada no escuro do dia.