terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conto de Paus e Pedras


Marina Costa

Há muito tempo atrás, mais do que a memória das antigas estrelas é capaz de lembrar, havia no meio de um campo, vasto e verde, uma única árvore seca. Ao seu lado, uma pedra cinza. Eram as duas eternas e imóveis, pelos idos destes tempos a sentir o vento e a chuva, depois o sol e o sereno, sobre seus corpos vegetais, acreditando-se imutáveis.
Acostumadas uma a outra, viveram por séculos em adormecimento, visto que a presença de uma era sempre sentida pela outra e tida como comum conforto. Passaram-se as eras.
Conta-se que, certo dia, um raio enviado pela Senhora da vida partiu ao meio o chão duro e separou pedra e árvore. O motivo, ouve-se dizer, é que esquecidas de amar, achavam-se proprietárias de Sua criação. Isso quer dizer que acabaram por matar o amor e a compaixão com o veneno da posse e do ciúme. E assim, sofreram o castigo do equilíbrio. De um lado, a madeira retorcida, de outro a frieza do minério. Devido ao grito que ecoou da garganta da terra, despertaram. Se olharam separadas e não se reconheceram. Sofreram, pois a distância era agora real e irreversível. Por isso, sentiram, mais do que nunca, a falta uma da outra. Não como mero pertence de outrora. Mas como parte de si.
Passaram-se as eras.
E depois de longos dias, quando a solidão já se fazia modo de vida, eis que a água, sábia condutora da emoção, começou a jorrar entre elas, em litros e litros, por anos e anos, sem descanso, cumprindo sua nobre função de ariar o mundo.
Então quando tudo já era esquecido, o solo cedeu e seres tornaram-se a se unir. Tornaram a se sentir como uno pois assim deve ser e este é o mistério da criação. A harmonia renasceu e se espalhou chegando até nós, que ainda a sentimos em ondas de paz. E este é o conto de paus e pedras.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sonata do Homem Sozinho



Marina Costa

Pedro, sentado na porta de sua casa de sapé, com seus olhos velhos e infinitos, olhava a chuva. Pé rachado, calça puída e respingos frios na camisa formavam sua figura. Lá dentro, um rádio velho tocava uma música ainda mais antiga com uma tristeza infinita repleta de um passado enterrado. E no coração de Pedro, a dor da solidão da canção se unia ao barulho do vento e ele pensava em como não chorar.
Houve dias em que Pedro, nos idos de seus poucos anos, desperdiçou dinheiro e vida nas rodas do mundo. Largou uma Maria, que como todas as Marias, só queria um cantinho e um braço forte onde se aquecer. Era pouco para a sua urgência que precisava abraçar milhares de anos em poucos segundos.
Depois, quando a idade bateu à porta e mudou-se para seu quarto trazendo o discernimento dos anos, Pedro não tinha mais como voltar atrás, porque Maria, como todas as Marias, resignou-se da perda e seguiu. E Pedro, como muitos Pedros, ficou só, apenas com lembranças de uma vida que nunca soube se realmente quis viver.
Hoje ele passa o dia sentado em frente sua porta, vendo o mundo que não gira. O sol se levanta, a lua deita no céu, o milho cresce dourado e a seca assola a terra enquanto ele, como rocha, olha o tempo com seus olhos vazios.
O que espera, nunca soube. O que procura, nunca falou. Mas ele crê que quando a morte vier buscá-lo pela mão, ele vai voltar a ser o menino descalço e sujo, que imaginava que os velhos nasciam velhos e acreditava que ele seria para sempre uma criança cuja única certeza na vida era que o amanhã não existia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sex on the Beach


Marina Costa

Ela fazia a cereja girar dentro do copo de vodka com suco... o drink não leva, todos sabem, mas o que fazer se ela simplesmente ama lábios vermelhos e doces?
Ele, de longe, olhava, com sua cara de bobo.
Ela, de perto, sentia, com seu corpo incandescente.
A promessa, feita para si mesma, estava indo para o espaço no meio de todo aquele fogo.
E a noite acabou, entre drinques e pegadas, no chão da sala.
De manhã, sol tímido querendo entrar. Ela acordou, meio sonza e inebriada. O álcool? O amor? Um pouco dos dois, talvez.
Ao abrir os olhos, viu a meia dele jogada, ao lado do sofá. Sorriu. E voltou a ressonar, sonhando com uma praia e uma paixão louca para todo o sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pelas tantas de tarde

Marina Costa

Da copa sai o cheiro do café novinho. Na mesa ao lado, a colega fala da pedra no dedo da futura princesa. Ainda existem, no mundo, princesas. Lá embaixo, do alto de 10 andares escuto o barulho da vida: buzinando, acelerando, gritando a última do jornaleco diário. E aqui, na minha tela escura, passam números, passam letras, passo eu.
Alguém sabiamente me diz que estou com cara de "puta merda". Preguiça, retruco eu. Mas nunca ouvi melhor definição para minha cara de 3 da tarde. Cara de quem segura no peito a explosão de um vulcão.
Tenho vontade de defenestrar o calendário. Largar sem mãe a bagunça de papéis, sair batendo a porta e dizendo até uma hora aí.Desligar o celular. Subir numa colina. Sentar debaixo de um pé de goiaba vermelha para ver a vida correr sem mim. Ver que ela não corre, afinal. Nem eu.
Mas insisto em terminar a tarde. Outra tarde. Tarde. Tarde...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lá Vai Ela


Marina Costa

Sempre que a gente olhava pra ela e via seu tamanho, pensávamos: esse mundo é meio pequeno para esse tanto de mulher. E aí os meses correram atrás das semanas, que fugindo dos anos nos trouxe essa vida de agora. E lá vai ela outra vez. Pelo mundo a fora, procurando o que nenhuma de nós, sábias meninas, sabe bem do que se trata. Lá foi ela, atrás de um trabalho, de um amor, de uma outra vida, de um novo canto, de flores mais coloridas, quem sabe. Corre. A saudade chegou, para tomar seu lugar, com uma mala grande demais para caber no meu guarda roupa egoísticamente enlutado. Mas, delicada como você mesma, me trouxe um lencinho lilás para secar a lágrima que cai do meu olho quando a sua falta aperta. Lá se foi você, menininha grande. A gente espera pra ti o que esperamos pra gente. Muito sorriso. Muita alegria. Um pouquinho de choro no travesseiro quando a noite cai porque isso é sinal de que você foi mas volta. Lá vai ela. Um dia vamos também.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Toque bem tocado


Marina Costa

Uma leitora hábil, sagaz e íntima ligou me hoje e fiquei estupefata. Queria reclamar que há dias não posto. Tentei argumentar, alegando desmotivação, pois penso que ninguém me lê. Ela retrucou, dizendo que minha obrigação é escrever por mim. Ergui a sobrancelha e parei de fazer quatro coisas ao mesmo tempo para ouvi-la. Pois ela disse mais. Disse que espera ler minhas criações para entender outras vidas. E que às vezes me manda energias positivas para eu ser mais doce em meus dizeres. Outras vezes me direciona uma certa raiva do mundo que acaba cuspida em minhas palavras. Fiquei abismada. Quer dizer então que, enquanto eu imaginava retratar minhas próprias vontades e criações, alguém envia pensamentoas à minha mente desavisada? Sou apenas manipulada e meus dedos agem independente de meus sentimentos? Não sei, respondeu ela, e não quero saber de seus problemas. Se você está com crise de identidade, não serei eu a lhe ajudar a desatar o nó da sua própria cabeça. O que quero, em minha vontade egoísta de leitora é que continue escrevendo e agora espero uma nova crônica por dia até o fim deste mês!! Tenho dito! 

Tu, tu, tu...
Desligou. Na minha cara. 
E desde então, vivo o dilema de me saber criatura em mãos de criador. Mas não arrisco mais a deixar a publicação para amanhã! Vai que ela resolve me dizer outras verdades que ainda não posso ouvir...