terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conto de Paus e Pedras


Marina Costa

Há muito tempo atrás, mais do que a memória das antigas estrelas é capaz de lembrar, havia no meio de um campo, vasto e verde, uma única árvore seca. Ao seu lado, uma pedra cinza. Eram as duas eternas e imóveis, pelos idos destes tempos a sentir o vento e a chuva, depois o sol e o sereno, sobre seus corpos vegetais, acreditando-se imutáveis.
Acostumadas uma a outra, viveram por séculos em adormecimento, visto que a presença de uma era sempre sentida pela outra e tida como comum conforto. Passaram-se as eras.
Conta-se que, certo dia, um raio enviado pela Senhora da vida partiu ao meio o chão duro e separou pedra e árvore. O motivo, ouve-se dizer, é que esquecidas de amar, achavam-se proprietárias de Sua criação. Isso quer dizer que acabaram por matar o amor e a compaixão com o veneno da posse e do ciúme. E assim, sofreram o castigo do equilíbrio. De um lado, a madeira retorcida, de outro a frieza do minério. Devido ao grito que ecoou da garganta da terra, despertaram. Se olharam separadas e não se reconheceram. Sofreram, pois a distância era agora real e irreversível. Por isso, sentiram, mais do que nunca, a falta uma da outra. Não como mero pertence de outrora. Mas como parte de si.
Passaram-se as eras.
E depois de longos dias, quando a solidão já se fazia modo de vida, eis que a água, sábia condutora da emoção, começou a jorrar entre elas, em litros e litros, por anos e anos, sem descanso, cumprindo sua nobre função de ariar o mundo.
Então quando tudo já era esquecido, o solo cedeu e seres tornaram-se a se unir. Tornaram a se sentir como uno pois assim deve ser e este é o mistério da criação. A harmonia renasceu e se espalhou chegando até nós, que ainda a sentimos em ondas de paz. E este é o conto de paus e pedras.

Um comentário:

Para contato, nosso email é vidanacronica@gmail.com