terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sonata do Homem Sozinho



Marina Costa

Pedro, sentado na porta de sua casa de sapé, com seus olhos velhos e infinitos, olhava a chuva. Pé rachado, calça puída e respingos frios na camisa formavam sua figura. Lá dentro, um rádio velho tocava uma música ainda mais antiga com uma tristeza infinita repleta de um passado enterrado. E no coração de Pedro, a dor da solidão da canção se unia ao barulho do vento e ele pensava em como não chorar.
Houve dias em que Pedro, nos idos de seus poucos anos, desperdiçou dinheiro e vida nas rodas do mundo. Largou uma Maria, que como todas as Marias, só queria um cantinho e um braço forte onde se aquecer. Era pouco para a sua urgência que precisava abraçar milhares de anos em poucos segundos.
Depois, quando a idade bateu à porta e mudou-se para seu quarto trazendo o discernimento dos anos, Pedro não tinha mais como voltar atrás, porque Maria, como todas as Marias, resignou-se da perda e seguiu. E Pedro, como muitos Pedros, ficou só, apenas com lembranças de uma vida que nunca soube se realmente quis viver.
Hoje ele passa o dia sentado em frente sua porta, vendo o mundo que não gira. O sol se levanta, a lua deita no céu, o milho cresce dourado e a seca assola a terra enquanto ele, como rocha, olha o tempo com seus olhos vazios.
O que espera, nunca soube. O que procura, nunca falou. Mas ele crê que quando a morte vier buscá-lo pela mão, ele vai voltar a ser o menino descalço e sujo, que imaginava que os velhos nasciam velhos e acreditava que ele seria para sempre uma criança cuja única certeza na vida era que o amanhã não existia.

5 comentários:

  1. que texto bonito. é uma honra que uma foto minha faça parte desse post.

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  2. Linda a sonata! É uma história ficticia???

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  3. Amore.... Vc está com 5 crônicas em atraso....
    Bjim

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  4. É fictícia sim, Anônimo... Na verdade a cena do homem em frente a sua casa no campo sempre me parece melancolica, daí a inspiração!

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