quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Constatação






Marina Costa

Só para constar... muitas coisas podem vir com o fim do ano... um sequestro, uma gripe, um pneu furado, um funeral. Mas sabe o que invalida todas as frustrações? O sol vai nascer, as festas vão passar mas a vidinha vai estar ali, na mesma cadeira de balanço, tricotando nosso destino e esperando que a gente sorria para ela. 

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Turbilhão



Marina Costa

Contas atrasadas, colégio suspenso, trabalho indigesto. Ponto eletrônico, email não respondido, compras a fazer. Comida fria, cozinha suja e despensa vazia. Cansaço rotina, stress como hábito, baixa libido no fim do dia. Miado de gato em crise de existência. Dinheiro que falta, dinheiro que não sobra, cartão de crédito no vermelho. Telefone da pisiquiatria, família picuinha e salve-se quem puder. Carro enguiçado, eixos quebrados, gasolina além do aceitável. Unha lascada, cabelo pintado, jeans com um número a mais agora. Fim de jornada, volta para casa e a fonte de água continua cantando, pequena cachoeira de paz no meio do turbilhão. E, perdido nisso tudo, fica ao longe e chorosa a saudade que dói, o amor empoeirado, a amizade não polida e a vontade de que as coisas fiquem calmas e quietas para que a gente possa saber o que fazer desse presente muito embrulhado que chamam de vida.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Correntes

Marina Costa

     O pingo de chuva que era direcionado para as frias terras andinas do leste acabou acidentalmente em uma corrente de ar perdida. Perdeu-se com ela em nossas terras quentes. Depois de muito cair, terminou sua queda em uma janela do 18 andar de um prédio cinza e pouco amigável. Caiu com estrondo e fez os quatro olhos se elevarem, curiosos. Ele levantou da cadeira, perturbado com mais um barulho. Nunca havia visto um pingo tão grande. Cismado, abriu a persiana e olhou para o céu. Nem sinal de chuva. Mesmo azul de sempre com a mesma rotineira paz urbana. Ainda mais desconfiado, olhou para o pingo que já se espalhava pelo vidro. Viu refletida a gravata vermelha, os aros grossos, a falta de ânimo típica traduzida pela boca sempre arqueada em um sorriso triste. Ele era assim, como bem viu. O pingo, intimidado, analisou tal figura mas não soube situar sua classifiação, visto que vinha de um mundo onde só existiam nuvens serenas. Ficaram os dois estranhando-se. Por fim, o pingo, sem dar mais importância, secou, voltou ao seu meio natural por forma de vapor e dessa vez não dormiria na decolagem, para pegar o rumo certo e conhecido. Era feliz com sua viagem tendo sempre certo destino. Já o homem ficou a pensar em sua imobilidade, dada sua terrível condição sólida. resolveu, como o pingo, evaporar. Nem que fosse para um destino sempre certo. A paisagem do caminho, sabia de ouvir falar, sempre mudava. Resolveu. E antes que pulasse daquele 18 andar, pegou o elevador rumo ao térreo e um táxi rumo ao aeroporto mais próximo. A gravata vermelha ficou pendurada na janela, tal qual uma bandeira de um território agora perdido.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Azia



Marina Costa

Depois desse natal, eu não tenho inspiração. Não tenho novas idéias, nem um tema genial. Nada de metáforas, boas tiradas ou texto com moral. O que tenho são compromissos não cumpridos, promessas vãs e obrigações renovadas. Miado de gato, roupa suja e folhas na calçada. Muito o que arrumar, prateleiras para limpar e barba por fazer. Expressão, claro, deu para entender. Mas chega de rimas baratas. Depois dessa natal eu tenho uma mala vazia e um mapa. Junto dos dois uma caneta vermelha e óculos de sol. Ano novo vem aí e para variar, outros rumos. Para onde você for eu vou e se eu não gostar do seu gosto, entro no próximo trem. Boa sorte, amigo. Pega uma passagem para o nada e viaja também.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Humor Natalino

Marina Costa

     Eu não acredito em natal. Nem no papai noel, pobrezinho. Não gosto das compras desenfreadas, das ruas estericamente cheias e nem dos cheiros excessivamente apetitosos. Mas eu tenho coração, mesmo que não pareça. Eu, confesso, gosto do clima de benevolência que permeia tudo. Sei que é criado pelo constante bip das máquinas de cartão de crédito e caixas registradoras mas nem tudo é perfeito, nem mesmo no natal. Eu gosto de comer castanhas apesar de sempre ficar um restinho amargo no fundo da garganta. Metáfora da festa: depois do doce açucarado do dia 25 vem o sabor honesto da vida real pós 26.
     Para estragar só mais um pouco o clima dos que me lêm, queria dizer o clichê de sempre: que compras, comidas, bebidas e amigos ocultos não fazem a vida mais bonita, nem deixa a família mais amável nem transforma bandidos em mocinhos. Praticamente todas as culturas do mundo comemoram o nascimento de um ser especial que trouxe renovação, amor, promessa, renascimento. Não necessariamente acompanhado de peru da Sadia, Veuve Clicquot ou uma caixa cheirosa do Boticário. Enfim, presenteie sim, mas de verdade. Seja com uma flor de jardim ou uma Mont Blanc. Mas que seja por vontade de fazer alguém feliz e não por convenção social de datas programadas para vender.
     Vou dar um conselho para mim. Ouça se quiser. Quando chegar a inevitável hora da "noite feliz" vou fechar os olhos e pensar naqueles que eu desejaria que estivessem ao meu lado, sem obrigações ou ilusões. Somente presença no silêncio, sensação de estar perto, amizade pelos olhos, abraço com carinho. Se existe mesmo um velhinho que ouve nossos pedidos, seja ele da terra ou do céu, espero que me atenda. E permita que no ano que vem eu possa distribuir todo o amor que sinto mas que, pela busca sem rumo de vaidades das quais não preciso, acabo por reprimir.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desaguando


Marina Costa

As nuvens em cima da cabeça dela ficaram muito negras, conforme a tarde ia caindo. De repente, eram raios e trovões para todos os lados, saindo de sua boca. Estava tal qual uma grande cumulonimbus, pronta a desabar. E pela madrugada a dentro, choveu e choveu pelos olhos. Encharcou o rosto, deixando-se com cara de campo revolvido. E, até que o sol atreveu-se a brilhar no alto, ela não parou de chover. Era muita tormenta para uma mulher tão pequena. Mas, quando a manhã bateu na janela, de leve, ela revirou-se na cama, já mais sensata. A nuvem agora, não passava de uma tímida cirrus. Sorriso, ainda não existia. Era pedir demais, afinal a colheita, a boa colheita, é demorada. Mas o plantio, apesar de turbulento, foi vasto. A mulher, que emergiu da menina, começou o dia arejando a casa. Enquanto isso, do seu coração, brotava muito verde uma folhinha de vida nova. Acho que era um pé de rosas.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Homeridades




Da série "Frase Solta"

Marina Costa


- "Como dizia Nelson Rodrigues, as mulheres só deveriam amar homens de 17 anos".
Silêncio perante o ponto.
Mas e onde caberia nosso amor pela liberdade sufocada e indecisa dos 25? Ou a urgência de um lar aos 30? Como deixar de amar o charme fulminante que ronda os 40? Ou ainda a sobriedade fixa dos 50? Há, ainda, concordem comigo, o olhar de conquista dos 60. A boca cheia de riso e história dos 70...
O fato é que, seja em que idade for, eles poderão contar com nossa admiração carinhosa. Seja por orgulho ou paixão, amaremos sempre o homem por trás do número.
Concordo que não há como deixar de amar o belo, o novo, o frescor, a vitalidade. Sejam meninos ou cães, receberão sempre de nós olhares deliciados ofertando colo pelo desejo da posse...
Mas, me perdoe Nelson querido, o tempo quando corre para eles, amadurece e adoça. O que para nós torna ainda mais saborosa a degustação.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Farei

Da série "Frase Solta"

Marina Costa

 - Ah, já pegou? Obrigada!


Sim, penso eu, em meu silêncio rigorosamente bem educado. Já fiz o que você deveria ter feito. Já busquei, analisei, verifiquei e concluí. Está tudo aqui. Nos devidos lugares. Colha meus louros agora com sua cara de pau oco de quem finge saber o que faz. Se ilumine frente aos holofotes do meu bom trabalho enquanto assisto impassível ao circo de babel onde ninguém sabe o que diz.

Ficarei na minha mesa escura e escondida onde regurgitarei cada tarefa sua que foi feita pelas minhas mãos. Devido a isso maquinarei meu plano de destruição dos incompetentes, preguiçosos, ociosos, fofoqueiros, enrroladores, incapazes e medíocres. Faíscas chispam nos meus olhos que sorriem com cordialidade mentirosa para a escória dos fingidos.
Acho que detonarei o mundo inteiro. Não salvarei ninguém, absolutamente, segundo meu conceito.

Explodirei.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Amigo dele

Marina Costa

E  seu amigo, está bem?
Ele não me responde. Não me atende. Não quer me ver. Disse que ficaria tranquilo mas vai saber. Esperei e esperei. Resolvi vir até você. Agora, não que eu não me importe com ele... mas e a gente, como vai ser?
Não sei se foram as nossas conversas enquanto ele me pedia um tempo. Ou as risadas sobre  coisas em que ele não via a mínima graça. Talvez compartilhar comida japonesa, longe da alergia que ele dizia ter. Ou quem sabe era porque, no fundo, não tinha mesmo nada a ver.
Fala para ele que a vida é assim. E a gente só insiste no erro quando o ego não quer perder. Mas não tem derrota. Ninguém é troféu. Vamos sorrir que o mundo é colorido. A vida transborda. E agora, eu amo você.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Convicções

Marina Costa

Sou conspiracionista difusora, comunista convicta, stalinista influenciada e anarquista moderada, misturada no liquidificador com amargura pela humanidade depreciada em suas sinapses neurológicas e descrente sobre a possibilidade de melhora do ser enquanto humano, pois para mim isso é um paradoxo irreversível. Mas quando penso em tudo isso, bebo - soma huxleano da vida real de agora - e tudo volta para os trilhos construídos para que não saíamos deles. Tim tim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Por minha vida

Marina Costa

Respiro, suspiro, inspiro e vou. Sem rumo, sem trégua, sem juízo, sem timo. Buscando, ouvindo, falando mais do que sentindo. E corro, e como, e amo mas acho que não vivo. Vivo? Ao vivo? Quando estamos juntos, será que não estamos perdidos? E se o dia chega e tudo clareia, penso que me encontro na cama sempre cheia. Mas a lua sobe e a noite me esvazia, nesse escuro que me anoitece reconheço minha sina. A buscar, contos de menina, uma estrela perdida. A sorrir, educada filha, criação que o mundo ensina. A pensar, para quê, se é dor que isso traz. A mentir, só quando mais mal não pode ser deixado para trás.

Vem a onda. Afogo. Tudo está longe enquanto me sufoco. E na réstia, no grito, no segundo infinito, venho a tona por mim e em meu colo encontro abrigo. Agora estou comigo. E tudo vai ficar bem.