segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Correntes

Marina Costa

     O pingo de chuva que era direcionado para as frias terras andinas do leste acabou acidentalmente em uma corrente de ar perdida. Perdeu-se com ela em nossas terras quentes. Depois de muito cair, terminou sua queda em uma janela do 18 andar de um prédio cinza e pouco amigável. Caiu com estrondo e fez os quatro olhos se elevarem, curiosos. Ele levantou da cadeira, perturbado com mais um barulho. Nunca havia visto um pingo tão grande. Cismado, abriu a persiana e olhou para o céu. Nem sinal de chuva. Mesmo azul de sempre com a mesma rotineira paz urbana. Ainda mais desconfiado, olhou para o pingo que já se espalhava pelo vidro. Viu refletida a gravata vermelha, os aros grossos, a falta de ânimo típica traduzida pela boca sempre arqueada em um sorriso triste. Ele era assim, como bem viu. O pingo, intimidado, analisou tal figura mas não soube situar sua classifiação, visto que vinha de um mundo onde só existiam nuvens serenas. Ficaram os dois estranhando-se. Por fim, o pingo, sem dar mais importância, secou, voltou ao seu meio natural por forma de vapor e dessa vez não dormiria na decolagem, para pegar o rumo certo e conhecido. Era feliz com sua viagem tendo sempre certo destino. Já o homem ficou a pensar em sua imobilidade, dada sua terrível condição sólida. resolveu, como o pingo, evaporar. Nem que fosse para um destino sempre certo. A paisagem do caminho, sabia de ouvir falar, sempre mudava. Resolveu. E antes que pulasse daquele 18 andar, pegou o elevador rumo ao térreo e um táxi rumo ao aeroporto mais próximo. A gravata vermelha ficou pendurada na janela, tal qual uma bandeira de um território agora perdido.

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