quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pelo Sim



Marina Costa

Depois de tanto, foi assim, um tchau, um até mais. Falou, enfim, liga para mim. E passa feira, passa loja, passa bar, passa cerveja, e nada de ouvir o telefone fazer trim. Nesses tempos comunicáveis, onde recados são deixados em nuvens cibernéticas, não aparece nada, nem um oi nem uma olhada, piscadinha ou cutucada, nem mesmo sinal de fumaça. Nas entrelinhas do que não é logo dito, abrem os pensamentos puxados pelo faceiro e venenoso se. Se pensa assim, diz logo isso ou se acha que fez pode desdizer. Se o mundo acabar aí pode tentar ou se não responder, quem sabe procurar um buraco e a cabeça esconder. Definhando em conjecturas, secando com os olhos certo celular que não toca, email que não atualiza, rezando para o telégrafo, ideia do vovô. Fica aflita. Procura o cheiro. Enche de águas os olhos antes secos. Tudo pelo sim. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ana Coreta



Marina Costa

No passado do espelho ficaram alguns sorrisos e muitos beijos não dados. Com os anos vieram também o discernimento para saber que umas escapadas reprimidas, no fundo nem fariam assim tão mal. O que acontecia é que ao constatar tal verdade todos preferiam ocultar por já terem passado da idade e assim ninguém podia saber. Agora não fazia mais tanta vista para pedir aquilo que um dia quiserem lhe dar de bom grado. As rugas de hoje assustavam e puxavam do fundo da garganta estupefata um "quanto tempo" dolorido. O branco do cabelo era um sintoma a mais de vida que escorria. As carnes, moles e escondidas, já não provocavam a luxúria libertina de outros dias. Tudo continuava igual pelos olhos. Mas de que valiam, se não havia mais quem buscasse tal olhar? 

Entretanto, ela gostava de se mirar. Com alegria, sempre pela amanhã, na hora do blush da tarde e antes do chá. Quando podia, ainda buscava seu reflexo pelas vitrines do caminho por onde ia. No final, e ela sabia que dali em diante tudo seria  final, ela sempre se amou mais do que todos aqueles tolos podiam expressar pelas palavras recicladas de outros carnavais. E mesmo que, por vezes parecesse amargurada, sempre preferiu sua própria companhia ao desejo incendiado de um corpo desprovido de mente ou repleto de  promessas de falso cultivo. Ela era, acreditem ou não, a tampa de sua própria panela. E se o poeta dizia que não se pode ser feliz sozinho é porque com certeza nunca tinha se apaixonado pelos próprios olhos e insistia na velha máxima amplamente aceita de buscar o verde em outro jardim...

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fugidio



Marina Costa

Ele está lá. De costas. Cinza. Ela sorri. Em frente. Ilumina. No curto trajeto que os separam ela memoriza o que dirá. Desde o primeiro e furtivo olhar, não sobrevivo sem lhe ver. Após o primeiro tinir da sua voz, não ouço mais outra melodia. E se desabrocha o que plantou em mim é pela tua vida que me cultivo. Ao entreabrir dos lábios dela ele cerrou a porta atrás de si. E a luz se apagou. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cultivo



Marina Costa

Ela, andante, filha de flora cigana, criou um desejo latente de rodar o mundo no vento que carrega o pólen e desde semente sentiu que o fluido da vida jorra além de palavras se espalhando por campos muito maiores do que o jardim que a gente acostuma a viver. Fincou em chão longe raízes tão fortes que nem a mão mais cruel, a da realidade, pôde arrancar. Sonhava. Todas as noites. Talvez, todos os dias também. Entretanto, adormecida depois de desiludida pela rotina de dias de calma, a pequena planta ficou como que morta, meio seca, meio verde, meio vazia de toda expectativa que criou para crescer. Imaginou que dentro em breve teria uma copa grande e carregada mas ainda era pouco mais que caule novo e não parecia que nada mudaria assim, tão cedo. E não mudou. Até que, ouvindo de novo o sopro de brisa que anuncia mudança de ares e traz a melodia da voz que cria,  rompeu com alegria o solo, subiu pelas paredes batidas e lá de cima do muro viu um novo raio de sol que nascia. Sorrindo, para ela prometia um horizonte amarelo brilhante que tinha tudo para ser um futuro de belos frutos. Era só cultivar. E voar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Subimundo



 Marina Costa

Eventualidade tamanha quanto esta crônica ter sido escrita da forma tradicional, a tinta e papel, foi outro dia eu estar vendo o jornal da tv pela manhã. Há muito desisti de desgraçar meu dia logo cedo, entretanto era uma dessas feiras em que estando só me sentia oprimida pelo silêncio e resolvi partilhar meu café fresco com o noticiário. O que me fez lembrar desse dia específico foi o caso mostrado. Pedro era o protagonista e abro aqui um parêntese para expressar minha admiração por esse nome que para mim representa o perfeito arquétipo do significado do homem: desde a rocha firme que demonstra estabilidade e coragem até a lama imunda que cobre de vergonha aquele que abandona crenças por convenção. Voltando ao caso, este nosso Pedro cuja carteira da OAB foi mostrada sem pudores (queria o cinegrafista julgar a espécie pelo espécime?) ao sair de uma festa a fantasia, cujo personagem que encarnou era um membro do batalhão de operações especiais, drogado pelo álcool (forte eufemismo jornalístico para bêbado) entrou em um coletivo e atravessou toda a zona sul do Rio de Janeiro. Não conheço o Rio, por isso tenho minhas dúvidas quanto a narrativa da repórter. O fato é que nessa corrida maluca , note isto não ser uma opinião da cronista que vos fala, ele raspou outro ônibus, acertou alguns táxis e deixou um pobre aposentado no hospital com algo na bacia, note a ênfase do jornal que clama pela imagem do velhinho indefeso. O que não parava de passar pela minha cabeça era uma crônica que escrevi há alguns anos onde eu era a motorista sequestradora. Diferença bem enfatizada pelo nosso Pedro (meu, se não quiser fazer parte disto, caro leitor) que com a boca ensanguentada e alguns dentes quebrados ressaltou que “não sequestrou nada pois não havia ninguém dentro do ônibus”. E foi tudo o que nos deixaram ouvir de sua aventura incomum.

Desliguei a tv. Ficou impresso em minha memória os olhares das testemunhas e do delegado que falou sobre o caso. Era uma expressão mista de deboche, surpresa e estupefação. Como se ao invés de um ônibus tivesse passado naquela madrugada uma nave espacial desordeira e então simplesmente desaparecido em meio a luzes verdes, deixando em todos uma sensação de algo que na verdade nunca aconteceu.

Quanto a esta que vos fala, aceitou tudo com muita naturalidade. Calhou de eu justamente estar a ler Dostoiévski e vi na vida real a representação perfeita do “homem do subsolo” e seu precioso ensinamento que me deixou boquiaberta como há muitos anos não ficava: as vontades que temos não as temos simplesmente por desejar os benefícios que poderiam nos advir. Certas vontades, meus caros, apenas as temos porque podemos tê-las. E, traga-nos desgraça ou até mesmo dor as executaremos, vez ou outra, para provar à nossa racionalidade que para poder basta querer. E dessa constatação absurda resulta toda a verdadeira humanização do ser que a tal sociedade moderna tanto anseia conter.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Cãopanheirismo



Marina Costa

Eu poderia apenas ser indiferente. Mas na maioria das vezes prefiro fingir que me importo. Não posso viver sozinha. Não posso enfrentar o fim de tudo e início do nada eterno sem levar alguém, ao menos, pela mão. É por isso que sorrio quando ouço seus problemas. Você acredita ser empatia, e me abraça. Eu, tenho certeza que é egoísmo e fecho os olhos. Não paro de pensar em quão honestos podemos ser quando somente nossa própria consciência pode ouvir. E me fizeram acreditar que essa honestidade é feia. Mas é ela que nos faz seguir. Ter o médico e o monstro dentro de si, é como ser ao mesmo tempo algoz e vítima. Num mundo como o nosso, de valores trocados, quem pode acusar? Eu poderia ser apenas indiferente. Mas quando olho nos seus olhos e vejo a minha urgência refletida, eu só posso me importar. E segurar sua mão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Stereo Tipo




Marina Costa

Duas. Três. Na quarta xícara em menos de meia hora, a copeira já percebeu algo errado com a secretária. Horário de verão, dona Vera, pergunta ela. Não só isso, dona Cleusa, ando com insônia. Mas uma moça assim tão nova, sem filhos, não dorme porquê, retrucou com malícia. Sabe que também não entendo. Eu apenas trabalho o dia inteiro, estudo durante a noite, organizo a casa em que moro sozinha, ligo para o pai, controlo minhas contas, alimento o gato, faço as compras, ligo para a mãe, lavo as roupas, enfim, é tanto eu, tanto eu, tudo eu que acho que na hora de deitar, a cama fica tão cheia de mim que acaba uma atrapalhando a outra e nenhuma de nós várias dorme direito pois todas ficam a pensar em como criar uma Vera a mais para dar conta do dia que ainda não nasceu. Dito isso, encheu a quinta xícara e lançando à outra um olhar desafiador voltou, pisando firme, para sua mesa. A que ficou, percebendo que fora pega na própria armadilha de insinuações venenosas resmungou, hum, sei, eu né. Aposto que anda sassaricando com alguém por aí. Ainda pego ela. Ninguém pode ser tão certinha. Pobre secretária. Pagando o preço de ser mulher moderna e independente. Nem as olheiras e os ombros curvados conseguem salvá-la da ferina língua alheia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Infinito como Números



Marina Costa

Nem foi um dia como outro qualquer. E talvez seja uma daquelas poucas vezes onde diremos "infelizmente" pela rotina que se alterou. A cerveja ficou, milagrosamente, intocada. A futilidade da vida virtual pareceu ainda mais vazia pela distância fria de óticas fibras. Com exceção de estarem ali suas últimas lembranças. Nossas, agora. A morte nos rondou essa noite e toda alegria parece ter evaporado dos rostos jovens e felizes daquele feriado de dias atrás. Brindes por uma despedida disfarçada de reencontro. Tão perto. Agora, longe como nada mais. Nessa hora, quem não duvida da fé que contestamos, inocentes? Como conter a revolta, perante o que não volta? Como não querer uma justiça nossa por um amigo que somava? Restam lágrimas e nó na garganta. Resta um tempo que não sabemos medir. Até nos unirmos de novo a ele e vivermos outra vez aquela alegria despreocupada que parecia sem fim. Era. Até esse momento. Até sentir tanta dor. Era.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desayuno


Marina Costa

- Dia!
- Dia!
- E pra hoje?
- O mesmo de ontem, vida sombria.
- Pingado escuro?
- E com pouca alegria...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Retorno



Marina Costa

Por vezes, grande parte delas, tinha a certeza de andar em círculos. Mesmos erros provocados pelas mesmas mentiras auto impostas. Mesmas máscaras construídas pelas mesmas vaidades de um ego que parece contornar o mundo. Vinham outras estações.  Sofria com mais uma gélida primavera, lamentava pelas ruas seus vícios virtuosos em cada verão outonal. Todos sorriam, alheios. Queria que chorassem, compadecidos. E sempre, no cair da noite, ao apagar das luzes, ante a infindável algazarra dos próprios pensamentos conduzia seus pés para a rotatória criada com o intuito de oferecer segurança e certeza. Um caminho seu, que não fosse, como a vida, inesperado e desconhecido. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Esquina



Marina Costa

Na intercessão da rua, ficava ela, noite após dia, a decidir destinos. Raros eram os passantes que ante a insinuação da dúvida não sucumbiam à pressão do momento. Vendo os possíveis caminhos, perdiam o rumo no eco do dúbio silêncio de possibilidades, debatiam-se na quina da razão. Olhavam para frente, muitas mais vezes para trás com lágrimas a preencher a secura do rosto. Aperto no peito. Rugas na testa. A mensagem era sempre esta. Seguir adiante para voltar ao ponto de partida. Dizia aquela velha senhora, de roupas bufantes e olhos vidrados, mãos nervosas a embaralhar cartas surradas. Palavras tolas mas malditas que transformavam as esquinas em labirintos infinitos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Passeio



Marina Costa

Anda cinza. Com muitas rachaduras e pedaços quebrados em alguns rejuntes. Muitos passam, o que faz com que sua continuidade acabe confusa. Já não sabe mais se vai ou vem. Ocasionalmente, em sua extensão, nascem ervas daninhas. De quando em vez são arrancadas por uma mão mais carinhosa do que calejada. Em outros momentos, fortes pisões deixam inconfundíveis e dolorosas marcas que costumam ser soterradas pelo pó seco do tempo. Atualmente, espera as chuvas de março para lhe darem cara nova. Mas mesmo na quente opressão de setembro, aproveita o céu limpo. Vez ou outra sai para um passeio.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Saída




Marina Costa

Bateu a porta e chutou a pedra. Com um profundo suspiro desceu os degraus. No portão, sentiu a vertigem, apertou os olhos, segurou na pilastra, pisou em falso e esmagou o pequeno pé de pimenta, que morreu inocente. Logo passou. Olhou para o céu laranja de fim de tarde, limpou o suor da testa, apertou a gola em torno do pescoço e saiu na noite que começava. Não voltaria.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Tropeção




Marina Costa

Não, sempre dizia ela, e sorria tentando amenizar a recusa. Talvez, se insistissem muito, mas viam em seus olhos as labaredas da confusão. Detesto, firme afirmava e apertava os lábios temendo contradição. Alheia, demonstrava indecisa e escondia o rosto que desconhecia, entre as mãos.

Um dia, como sempre distraída, caiu num buraco aberto no alto por alguém que brotou da escuridão. Caiu em pé  e surpresa só discerniu no escuro a cara enrugada da solidão. O grito não vinha, o choro morria e a lama quente a envolveu sozinha, em sonhos de nada, ideias vazias que corriam perdidas sem direção. Por anos viveu enterrada, abraçada aos próprios joelhos, gemendo em altos lamentos, com a cabeça no chão. E o coração ao invés de pó, virou semente doente, planta traiçoeira, venenosa e morteira, que já nasce torta e seca a repetir, pela boca do vento, para todo o sempre o mesmo intento, sussurrando o eco do não.

domingo, 18 de setembro de 2011

Elegia Branca



Marina Costa

Leva vento, leva folha, leva terra, leva pó. O que acaba, o que desmancha, sobra a brisa, sobra dó. Podre o fruto ou ao chão verde, morre a vida sem doer. Dói em mim que aqui fico e que te vi sofrer. Dormem as pedras, fenecem as plantas, o miado já não faz eco. Passa o mundo pela ampulheta, desce o gargalo do tempo. Morrem as grandes coisas, acabam os pequenos momentos. E da vida tão plural, de tudo o que os olhos vêem, fica pouco na memória, muito a morte leva embora e o resto é coisa imaginada, página que foi virada, fechada em caixão se vão as esperanças de sonho que era ilusão. Morre então tudo o que vive. E sempre, sempre há olhos rasos. Corações amolecidos, mas como não desabar perante o último abraço?

Deus, de ti não sei. De mim, menos talvez. Mas se és vida, porquê a morte? Se és amor, porquê nos deixa a deriva da madastra sorte?

Lágrimas no escuro não vão parar de correr. E na penumbra das horas, no sofrimento do viver, a inocência branca sabe que nasceu para morrer. Choremos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Plumbífero



Marina Costa



Na tabela fica a esquerda, mais em baixo. Lá em casa fica bem em cima da minha cabeça, principalmente às segundas, pela manhã... Ao longo da semana a tendência é entrar em estado de transformação. Conforme passam as feiras, vai do cinzento muito denso ao gasoso bem azulado. Acho que chamam isso de gaseificação. Não tenho muita certeza, afinal já se vão 10 anos de segundo grau. Que por sinal, deixou para mim coisas mais importantes do que nomenclatura de estados físicos. Químicos. Enfim, não concluí com méritos.
O fato é que, na sexta feira, após as 18 horas, já estou tal qual pluma, de tanta leveza. Mamãe diria que na verdade isso é certa falta de juízo carregando a responsabilidade para longe de mim. Papai falaria que eu preciso mesmo é estudar para um novo concurso e fazer carreira em uma grande empresa, visando ser ainda mais capitalista do que o mundo. E eu, dando de ombros, vendo o fim de tarde nas montanhas do curral, só quero saber das risadas soltas delas, dos casos aventureiros deles e do sabor bom de amizade fresca, única transformação possível do meu estado pesado em bolhas de sabão...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Convidado




Manoel de Barros


Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto.

Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Camale Ei



Marina Costa

Desce o manto sobre a sexta, cobre tudo o que pensei. Me recolho para nascer do meu próprio peito. Sempre enegrecerei.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Camaleando



Marina Costa


Se na quinta o sonho é breve, mesmo provocando sorriso, posso dizer que azularei?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Camaleã



Marina Costa 


Quarta empoeirada, brilho pobre de sol. Silêncio indesejado, amarelei.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cameleada





Marina Costa

Já na terça, crise existencial humanitária. Pela rua, verde escarrei.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Camaleão

Marina Costa

Sem motivo aparente, olhei para a segunda previsível e acinzentei.


domingo, 28 de agosto de 2011

Longe Tanto



Marina Costa

Sempre te vejo, no espelho, quando ele mostra meu pálido e ausente reflexo. Dói e oprime o peito, não te ter aqui por perto. Não intenciono fazer rima, pois de poeta pouco tenho, mas o amor-você me ensina a ser honesto.  Falar as verdades da vida. As tristes e as minhas. As que quero que você ouça e as que não posso sustentar sozinha. Palavras perdidas reunidas pela saudade do que nunca tive, mas vou sempre desejar. A vontade de te segurar. Com força, apertado, te abraço, quase, quase te esmago. E nunca, nunca mais deixo você ir. Nunca, nunca mais guardo o que devia ter sido dito. Miro o horizonte que te separa da minha ânsia e só vejo estrada. Mais nada. Nem sinal. Meus olhos, desde então, estão sempre rasos d'água. Cai a lágrima por ti, que desconheço desde que espero. Penso no teu campo de trigo. Longe tanto de mim...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Recalque



Marina Costa

Luana assistia a aula de anatomia muito atenta quando sua cabeça desancaixou do pescoço, caiu do colo para o chão e rolou até os pés do professor, que se calou. Os colegas, despertados pelo barulho oco, olharam sorumbáticos e o defunto, antes imóvel como um cadáver, ergueu os braços espantado. Muito vermelha, ela levantou-se cautelosamente, levou a mão ao rabo de cavalo e colocou, firme e protegida, a cabeça em baixo do braço. Saiu da sala para não mais atrapalhar a classe. De qualquer forma, há muito já tinha os pensamentos na lua.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Consolo



Marina Costa

A mão abanou, expressando o adeus final, na plataforma de embarque. O sorriso enganava, para que a despedida não fosse dolorida. Entrou no vagão. Ao ouvir o apito do trem, barulho de engrenagens que representava a certeza da distância, o pranto apertado finalmente rompeu e o corpo em desconsolo se dobrou sobre o solo, de tristeza. Depois de tanto procurar, perder trazia de volta a sensação de desalento com a qual tinha se acostumado a andar a vida toda. E aquelas poucas horas de encontro, só serviram para aumentar a certeza da enorme diferença entre si e o resto do mundo menos um, da enorme falta que aquela outra alma, tão igual, faria dali para a frente. Foi-se o trem. Ficou a ilusão. Alçou os olhos e do outro lado dos trilhos viu a mão que continuava a abanar, com um sorriso de traquinagem no rosto. Ela nunca partiria.

domingo, 21 de agosto de 2011

EsQuadro



Marina Costa

     Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. O mar, enlouquecido, lambia a pedra com fúria, tentando apagar a dor pela dor. Ao longe os raios iluminavam os destroços que o fogo deixou. Suas tranças claras e suas lágrimas frias se uniam para adiar a entrega do corpo sem vida. 
     Seu escudo não parou o tempo, sua espada não feriu a chuva. A armadura foi como vidro, partido pelas mãos do destino. Os olhos, na agonia da despedida, vidrados na morte que sorria, com medo e espanto ao pressentir que se fechavam prometeram voltar do outro mundo para lhe dar o abraço de adeus.
     Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. Soltou o corpo frágil e deixou-se cair no mar, enlouquecido, que afinal se calou.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Centeio



Marina Costa

Há vontades que o fogo não pode destruir. Raras e firmes, não como troncos secos ou ventos frágeis. São como lagos profundos e negros, onde a chama se une à água e formam um elemento maior, criador do desejo nascido de ser algo que era, até então, desconhecido. Isto é o caminho. Seja de honra ou vergonha. De honestidade em dívida ou traição cobrada. São preços da escolha da razão. E quando entendemos essa mesma razão, agindo sobre aquele mesmo fogo que não nos faz queimar, passamos a conhecer o que nos destrói. Mais sábio que aquele que responde por vaidade é o que não pergunta por parcimônia.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Momentâneo


Marina Costa

Acordar de manhã, com uma chuvinha fina e lembrar que é domingo. Abrir só um pouquinho o olho e rever seu ressonar tranquilo. Sorrir um sorriso doce e cair de novo no sonho do sono. Só que, mais uma vez, tenho sua mão na minha.

domingo, 14 de agosto de 2011

Espontâneo




Marina Costa


Abre os olhos sorrindo e outra vez suspira de alegria. Sonhou com ele. Passa o dia na correria querendo que se vá logo o sol, desejando ver a face brilhante da mãe lua e depois do banho quente de chuveiro, fecha janelas e sopra as velas, cerrando os olhos aconchega o corpo. Abraçada ao travesseiro, vem o embalo do sono e as imagens não pensadas entram devagarzinho pelo vão da porta. Mais uma vez, árvores floridas e pedras lisas, onde as mãos se unem. Não há palavras, não venta, nem a chuva cai. Apenas uma luz brilhante dourando os rostos ternos e imóveis. A não ser pelo sorriso de contentamento, sempre certo. Ele estava ali, mais uma vez, a esperar por ela. E até que o sonho perca a graça pelas mãos da realidade, ela estará sempre feliz a sonhar com ele. Sem querer.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Apreensões



Marina Costa

 
Um dia frio. Música depressiva no rádio. Me sento na poltrona enquanto meu olhar atravessa a janela de vidro. A chuva bate fraquinha, como lágrimas de pequenos Deuses. A cor do dia é cinza, mais ou menos como meus sentimentos. Estou de pijamas e meias, mesmo já tendo passado das quatro da tarde. Meu desânimo se sente melhor despenteado e desarrumado, podendo assim me martirizar e me fazer sentir ainda mais esquecida. O vento frio lambe meu rosto descoberto, fazendo gelar até minha espinha. Me aconchego ainda mais em mim, pois me sinto empedrada e não quero me levantar para pegar uma coberta. Gosto do frio. Pequenos cristais gelados que cortam vagarosamente a carne até não sentirmos mais nada, a não ser a doçura da inércia. Claro que essa metáfora não é minha. Mas o frio também me faz sentir viva. 

Lá fora a chuva não pára de cair. Pequenas gotas que formam bicas intermináveis escorrem por todos os lados. Grandes nuvens, como pesadas matronas, se apertam no horizonte. Raios dourados de fogo cortam o céu ao longe enquanto em meio às minhas apreensões, permaneço insensível a esse espetáculo natural. As árvores balançam felizes à medida que a água cai. Pássaros voam, sem se importar com suas penas molhadas. E eu me sinto voando para longe e sem rumo, com minhas tolas e dilacerantes apreensões...

Divagações. Desde que o homem construiu seus casulos de concreto e cortou seu cordão umbilical com a Mãe Natureza, ele se vê como o centro das coisas. Se a chuva cai é para ainda mais lhe entristecer. Se brilha o sol é para coroar sua felicidade. Criatura imperfeita. Mal sabe que é apenas um cisco em toda uma vastidão infinita. Eu sou apenas um cisco. Mas aqui, com minhas meias amarelas e a chuva que penso cair pra mim, teimo em acreditar que sou a causa, e não a conseqüência. Me vejo como aquela que chega para falar e não para ouvir. Como aquela que vê e não é vista. Pobre de meu espírito bobo quando cai nessas armadilhas de minha mente delirantemente sarcástica.

Os sorrisos impensados viram convites, na minha cabeça labiríntica. Os convites não ditos viram desinteresse em mim. O desinteresse mata meu ego inútil. E essa morte, que deveria ser boa, me deixa cinza. Não posso acreditar que as ações dos outros são simplesmente ações. Em minha mente doentia elas viram lanças para me caçar e ferir. Ou rede para me amarrar e fugir. 

Outro raio caiu ao longe, me chamando ao que é real. A chuva parece gritar querendo dizer que pode aumentar apenas por si. Alheio às minhas apreensões está o mundo, que tem mais com o que se preocupar do que com minhas questões pseudo-essenciais de sobrevivência. Pensamentos transviados que nunca passam. Não cabe ao homem ser certo como o Sol que saberá brilhar quando passar a chuva, apenas aguardando seu momento sem se preocupar com a demora do mesmo? Para quê, se este homem pode ser eternamente chuvoso, molhado de dúvidas? De que seria nossa existência se não fosse as conjecturas que fazemos em cima do nada? Viver o real? Conta outra, para isso não precisaríamos involuir como fazemos todos os dias. 

Uma borboleta pousa à minha frente e me olha com desprezo e graça. Me dando também pouca importância abre suas belas asas como a querer fazer-me inveja, e voa aproveitando a brisa que passa... Segundos depois de mais essa apreensão – até os bichos zombam de mim - consigo raciocinar: como ela poderia me olhar com desprezo e graça, ou querer minha cobiça por suas belas asas se ela nem mesmo sabe quem sou? Ou, melhor ainda, se ela não é nem um pouco humana para ter e entender esses sentimentos pequenos? Mais uma vez meu ego, gerando situações inexistentes. Sorrindo divertida, finalmente entendo que nada nesse mundo me pertence.

Então, ciente do meu nada e agora calma, escorro com a chuva, pego uma coberta e me transformo no cisco que deveria ser, a apreciar a verdadeira intenção do mundo que é apenas existir sem dor, nada mais.

10/10/2006.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lambada


Créditos da imagem: Juliana Andrade, MG - http://bambue.com.br/2010/11/duda/#more-337

Marina Costa

Molhada e meio áspera, a menininha sardenta levou uma lambida do menino atrevido, bem na bochecha direita. Ficou estática. Que absurdo, pensou ela. Que engraçado, ele disse. Que audácia, ela sussurrou. Me dá um beijo, ele pediu . Daí ela ficou vermelhinha, como a rosa que ganhou e largou no chão, quando se pôs a correr pelo pátio. Ele a recolheu e soprou o pó. Havia visto uma loirinha saindo da cantina e logo pensou outra vez na sensação engraçada de refrigerante no nariz...


sábado, 30 de julho de 2011

Snuggling


Marina Costa

Dia a toa, passeando solta pela cidade grande, sem relógio. Sem rumo. Passarinhos, flores roxas, no ouvido música boa. Solzinho de fim de tarde. Fechei os olhos. E a luz nas pálpebras cerradas deixou tudo laranja em tons lilás. Mente calada. Mas eu penso em gatos ronronando, sorrisos com vinho tinto, mãos dadas com a desculpa de afastar o frio. Pôr do sol. E por trás dos olhos fechados, entendo que vida é sensação. Amor, carinho, emoção. Ficar quietinha em colo quente sentindo cafuné no cabelo e sem pensar em adeus, deus, eu. Ele. Não há como descrever. Mas todo mundo já sentiu. Lembra aí.