quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Elevados

Marina Costa 

O moleque correu e colocou a mão no elevador que, quase fechando, resmungou mas reabriu. Ele entrou, com sua calça caída, tênis desamarrados, chicletes na boca aberta e cara de "colé"! Os dois, das gravatas geometricamente estampadas, torceram os narizes muito finos fazendo escorregar os óculos de grau. A outra, com a bolsa de um tal de Calvin Klein, arredou um pouco o bico de seu "mata barata no canto" para não ser pisoteada por aquele all star insolente. Subiram os 4, cada qual no seu quadrado de mármore. Dado momento, um tranco parou o movimento anti gravidade daquela máquina menos segura que um avião (só para comentar o pensamento que passou em todas as cabeças). Silêncio. De repente as luzes piscaram e apagaram de vez. Gritinho. Mas não foi ela, que olhou de rabo de olho desconfiada. O do boné nem se mexeu tão acostumado estava a lata velha do seu prédio de blocos suburbanos. Já a gravata de triângulos, começou a lamentar sua jovem vida com múrmurios femininamente incompreensíveis. A gravata de losangos por sua vez não parava de olhar seu "swatch" made in china (mas não conte para ninguém) preocupada que estava com um atraso imprevisto. E a moça (com sua bolsa roubada da loja do tal do seu Calvin, ups!), fazia um toc toc interminável com seu sapato de couro de algum bicho de marte. Meia hora. Lentamente, viraram duas. Gravatas afrouxadas, maquiagem borrada e chicletes ainda expelindo cheirinho de frutas. Para quebrar o gelo, ele propôs contarem piadas sem graça. Para manter a distância, ninguém respondeu. Então, mais 10 minutos até chegar o corpo de bombeiros e finalmente, os quatro saíram de lá. Uma, agradecida, prometeu nunca mais usar aqueles malditos sapatos que martirizaram seus pés. Dois, estupefatos, resolveram que no dia seguinte saíram do armário pois a vida é muito curta para manter falsas aparências. Já o moleque continuou por aí com seu cadarço solto e seu chicletes como se nada tivesse acontecido, na verdade. Sua vida é cheia de contratempos a todo momento, afinal. E ele facilita as coisas gingando e fazendo bolas por aí, perdido nessa cidade sem fim.

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