segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Intempo Estiva






Marina Costa


Da janela, ela via o vento açoitar os galhos da árvore de rua. Via também um pedaço negro de céu, onde raios espantosamente brilhantes crepitavam sob antenas de edíficios. Em poucos segundos, a chuva começou a tamborilar no vidro. De uma vez, com toda a fúria prometida pelo tempo. Nada de chegar de fininho. Lá embaixo,as mulheres corriam, protegendo cabelos e segurando saias. Carros buzinavam para essas pedestres enlouquecidas. Homens, como cães raivosos, tentavam proteger os olhos com as pastas de couro escuro. Respingos eram arremessados das poças nos paletós e vestidos. E o mundo desabava. A chuva continuou, por horas e horas, com a mesma ferocidade do princípio. Se podemos dizer que a natureza tem sentimentos, classificaríamos aquela tempestade como a suprema expressão de sua raiva desorientada. Pelo que, não sabemos. Ou fingimos desconhecer. Mas ela gritava como uma mulher dilacerada ou um homem sem honra.
Muitas horas depois, tão sem motivo como quando começara, finalmente o barulho cessou. Todas estas personagens, assustadas, bisbilhotaram o céu para ter certeza de que não haveria novo castigo. Aos poucos, timidamente, retomaram o caminho de casa. Ela guardou a caneta na gaveta e desolada, foi até o ponto de ônibus para buscar a falsa segurança das paredes de seu lar emprestado. Fez uma prece tímida, como há muito não fazia, pois o mau tempo a fez perder-se em um medo negro e vazio. Sentiu-se ainda mais sozinha, pela chuva, pela noite e pelo mundo, indiferente ao significado de suas tormentas.

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