sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Prendinha

Marina Costa

 A menina foi cumprir sua obrigação de mau humor. Abriu a geladeira e já derrubou a caixa de leite que, quicando, inundou o chão da cozinha. Em seguida, ao pegar o pote de farinha não notou a tampa solta e logo subiu a nuvem de fumaça branca, quando ele se espatifou no chão. Não aguentou e gritou. Com o rodo jogou toda a bagunça para debaixo do fogão e bufou ao retomar o trabalho. Tchaikovsky tocava alucinadamente no aparelho de som enquanto ela, tal qual um maestro ensandecido, misturava fermento com açúcar e ovos com manteiga. Espirra aqui, derrama mais um pouco ali e uma hora depois sai do forno um bolo murcho, rachado e cheirando a limão. Desconsolada, ela pensou que não poderia ter esperado outra coisa, visto que foi tentar cozinhar pensando nos tons de cinza com que pinta sua vida. Sentou-se no chão por fim e antes que a primeira lágrima caísse, Liszt sutilmente transbordou pela casa, o sol iluminou o pé de alecrim e o vento tocou seu sino com delicadeza. A menina olhou para aquela cozinha caótica e um tempo depois, quando espantou o diabinho do seu ombro resolveu que dessa vez faria uma apetitosa torta de cerejas.

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