segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Noiva da Verdade



Marina Costa

Ela entrou ao som de Mendelssohn como manda o bom clichê. Estava simplesmente deslumbrante dentro daquele amontoado de rendas e cetim, resplandecentemente claro em sua pele morena. Branco, apesar de há muito tempo não poder usá-lo mais, como pregam os bons constumes. Mas o que valia era a encenação e com isso todos concordam, claro. O grande dia. Já no altar o pai, orgulhoso e austero de cravo na lapela, a entregou a ele com um singelo beijo na testa e um caloroso aperto de mãos. Livrou-se de um problema, tinha certeza. E ele a recebeu com o cabelo bem penteado, os dentes muito brancos e os olhos brilhantes de colírio. Nesse momento os dois se lembraram do namorico da infância. Das idas e vindas. Do quase casamento dela. Da despedida dele. E finalmente da alegria quando ele a recebeu novamente e dessa vez para sempre, pensava. E dessa vez para sempre, ela suspirou acuada. Ao final do órgão, iniciou-se a ladainha. E ela, longe, perdida, sem ouvir nada do que dizia aquele senhor carola naquela cerimônia sem sentido da qual só participou para realizar o sonho dos outros. Pois dos dela ninguém queria saber já que davam trabalho, além de não ser lá bem o que chamam de convencional. Então quando ela sentia-se quase feliz por acreditar que o falatório jamais iria acabar, entrou na igreja uma corrente de ar trazendo um perfume com aroma de café quente. Começou lentamente, um cheiro amadeirado e logo em seguida se fez forte como vinho do porto em tonel de carvalho. O coração da noiva disparou. Ficou inquieta. As mãos em bicas. O noivo, certo de que era a emoção do momento, sorriu triunfante. O padre fez o sinal da cruz propositalmente alheio. No meio do turbilhão de sentimentos dentro daquele corpete apertado, ela não resistiu e o procurou com os olhos. E o encontrou. No fundo da igreja. Desgrenhado e estranhamento fantástico dentro de um terno menor que seu número. Emprestado com certeza, ele era um duro. Sentiu seu sorriso como beijos na nuca e sabia que não podia continuar com aquilo. Assim, quando a igreja rodou e percebeu todos os bancos virados de cabeça para baixo, retirou das mãos do velhinho de batina o microfone e começou o discurso que faria o noivo congelar e partir-se em mais pedaços vergonhosos do que estrelas brilhantes no universo. Era algo assim: "Então, pois é, pessoal! O fato é que - dizia enquanto desagarrava o véu dos cabelos com dificuldades - eu não posso me casar porque, então, o Fernando sabe, ele é assim olha! Olha para ele!! É bonito né? Ganha muito bem, bom partido, hein pai? - piscadinha - e tem muitos planos, quer filhos, lua de mel em Paris, casa de praia e inverno em Curitiba. Além de tudo, olha só, ele me ama! Ele me ama, minha gente! Só que, infelizmente, ele não é nada bom de cama. Então, eu desisto!" Deu de ombros e devolveu o microfone a um coroinha aturdido.
Arrancou a madrinha do altar, pois há muito sabia que aquelas escapadas entre os dois visando a decoração do casamento não eram bem o que parecia ser e entregou em suas mãos o buquê de laranjeira, ajeitou desastradamente a coroa de brilhantes em seus cabelos platinados e resolveu abandonar a cena. Ainda no tapete vermelho olhou para trás, enquandrou com os dedos o altar e depois de uma onomatopéia imitando um flash fotográfico, deu um tchauzinho sapeca para o pai aparvalhado e para a mãe já em vias de um iminente desmaio. Mandou beijos aos convidados fazendo a felicidade das tias fofoqueiras e ainda gritou para aproveitarem a festa e beberam bastante por ela!
Na porta da igreja, beijou o único homem com quem se casaria naquele momento justamente por ele ser o único que jamais a pediria em casamento qualquer fosse o dia.
O par de sapatos brancos ficou nos degraus da capela. Pequeno demais para qualquer outra cinderela que não tivesse aquele mundo de atitude e resolução.
E se posso contar o fim da história, que ouvi por aí em outra cerimônia qualquer tal qual lenda urbana, ela nunca mais viu nenhum daqueles convidados e nem soube se o Fernando melhorou a sua performance. Pegou as amigas e aproveitou a lua de mel na boemia parisiense. Dizem que nunca se viu tanto sorriso bonito aparentemente sem motivo!
No fim das contas parece que ela viveu muitos anos assim, alucinadamente feliz e inscontante enquanto conseguiu fazer de sua vida um pedaço de brasa permanentemente acessa pelo vento da liberdade solitária.

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