segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Entropia



Marina Costa

A conversa não eram bem o que queriam ouvir ou dizer e do ápice ao fim esfriou como lenha velha na lareira. Os sorrisos, um dia tão brilhantes, ficaram apagados e frios, carregados de uma sentimentalidade que finalmente se extinguia. No meio de tantas palavras duras por si, não por nós, de uma situação que acabava, da despedida que não queria sair mas fazia-se inevitável, havia para ambos um conforto de morte que só aparece quando temos a epifania de nos sabermos seres transcedentes. Tudo termina pois tudo caminha. E dessa forma tudo funciona. No lugar onde algo floresceu e morreu, sempre fica uma semente para um e para o outro. Sempre há um depois. Uma página nova e repleta de nada em potencial.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sinfonia de Gorecki

Marina Costa

Há um som, belo som, que conta a história de um ser que encontrou o que esperava. Durante toda sua vida, tudo o que fez, cada palavra que ouviu ou pensamento que alçou, desde a primeira estrela que observou, tudo foi determinado na direção de encontrar aquele que agora se apresentava. E por esse encontro, tudo poderia terminar. A morte não seria mal recepcionada e uma possível explosão do universo culminaria em paz e calma. O fim traria a eternidade prometida e buscada por esse encontro de seres, lado a lado, até o fim dos tempos, até que a Terra parasse de girar. O um foi encontrado. A face nunca vista e sempre conhecida. Amada. O que se sabe, o que se aprende, o que se vive só leva a um ponto: a busca do encontro. A comunhão que encerra todos os outros desejos que não sejam o de olhar a noite, com o rosto tocando a grama. O um. O único. Encontrado. Quem duvida, ao ouvir o som, que tal conto inventado não exista? Desta vez, desta vez e por cada um que é capaz de sentir. Na sinfonia espalha-se o odor fresco de uma verdade bela.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Retruques



Marina Costa

Bom, te digo, meu amigo, eu não acredito. Já acho difícil sermos nós mesmos no dia a dia, imagina em um ambiente onde tudo o que é dito pode ser repensado e medido? A questão é que eu não devo ficar analizando as pessoas (eu sei e isso muito me atrapalha) pois  muitos não passamos de uma pilha de palavras impensadas, antro de informação mal colocada. Mas acredite: é uma espécie de tic, um toc inerente ao meu raciocínio que insiste em prestar atenção no que "tudo o que se move" diz... Me desculpe. Ou me dê um aperto de mão. Mas se teu personagem termina na falta do real, concorda que não dá para encontrar alguém/algo além do que foi gerado? Aonde? No imaginário? De quem? E como você pode definir tão bem essa separação entre criador/criatura em um lugar onde suas criações te definem, praticamente, para todo um mundo que tenta agir igual a ti? Meu caro, você gera muitas questões. E eu não sei não perguntar.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Num Ca



Marina Costa

Nunca, querida, nunca. Prefiro esvaecer-me a deixá-la sem minhas palavras. Navegar num pedaço esbranquiçado dessa página figurações sem sentido e sem raciocínio, apenas pelo seu bel prazer. Nunca, querido, nunca. Estarei a partilhar mesmo o nada que reina. Direi o que não passa pela minha cabeça mas desabrocha em minhas teclas viciadas. Nunca, digo a mim mesma, nunca. Trilharei o caminho de frases soltas até o sem fim dos confins, para empilhar fora de mim o caos que se instalou em você e em nós.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Telempatia


Marina Costa

Diz ela... sabe, eu nunca esperaria nada de nós dois como está acontecendo agora. Por mim, eu e você, a gente só fazia hora. Eram uns goles ali, beijos aqui e fica bom como está. Mas penso que, quando começa a render, é melhor sentar e discutir sobre o que fazer. Eu gosto do seu perfume doce-amargo como suas falas ferinas, do seu sorriso espontâneo de bicho do mato assustado, do seu jeito inseguro de me dizer o que fazer com medo de ouvir eu rir de você. E tem horas que eu não quero parecer grande para poder ficar só pedindo colo, no seu ombro, vendo o sol nascer. Pode ir agora que eu já disse o que queria dizer e confesso, não morreria se você resolvesse não voltar. Eu só precisava falar. Era só para você saber que apesar de não amar, eu prefiro ficar e não vou sofrer.

Diz ele... enfim vou falar para a menina cheia de idéias mirabolantes que se esconde atrás desses trinta anos pretensos a sobriedade, porque é a ela que eu quero atingir ao me ouvir. Você sempre soube que eu nunca vou fingir. Se eu não falo o que manda o roteiro ou se eu pareço perdido em tiroteio é porque seu cheiro de cereja me desorienta, pequena. Me enebria. Me faz cair neste palco inventado para não ser mais do que um bobo palhaço aos pés de sua risada cristalina. Lolita Messalina. Não aceito essa sina. Digo então que não quero ficar e confesso também que prefiro não gostar. Mas eu vou voltar. Pelo seu abraço macio que me faz dormir. Pela sua mão que nunca me segura e sempre me deixa ir. Pelo seu olhar que por muito tempo, espero, ainda vai me fazer sorrir.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tom do Dia



Marina Costa

Às vezes a conversa fica séria. O lábio apertado entre uma arcada e outra, o nome dito de forma articulada em alto e bom som. A garganta aperta, o peito suspira. E ouve-se o som de vidro partido, de papel amassado, de choro reprimido. Tudo para dizer que as coisas, por vezes, não vão crescer. Tudo para entender que a gente não escolhe o destino e que esse papo de livre arbítrio faz parte de conto de fada mal amada. No final, depois da tempestade, de tudo revirado pelo vento da verdade, sobra o chão seco, o rosto úmido, as mãos cansadas. Sobra uma melodia feia que não serve para nada. E tem gente que se deixa abater. Tem aqueles que nunca mais se levantam. Fim da linha.
Mas também tem que faz rir. Quem tenta imitar rouxinol. Quem pensa em provérbio chinês. Colhe quem planta. Ama quem chora. Vive a vida quem menos se apavora. Agora.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sem Compromisso

Marina Costa

A manhã  raiou com um sol do tamanho do mundo, rachando cocos e cocorutos. Na cama, a cabeça era maior do que o próprio astro, visto a ressaca que assombrava ambos os seres. Do lado, alguém escolhido a dedos tortos para partilhar de uma festa a dois. No olho borrado e no hálito de azeitona estragada a falta de sincronia, agora sóbria, falava alto. Sem graça e quente, eis o dia nada perfeito que começou. Um foi preparar o café. O outro, vestir as calças. E comendo o pão frio, com risadas fingidas de rabo de olho nos ponteiros, se despediram antes que um insuportável "e agora?" se erguesse da xícara já vazia. Porta fechada. Suspiro fundo, de cá e de lá. Já na rua um pensava que, afinal, não foi assim tão mau visto que de muito pouco se lembrava. Trocando os lençóis o outro dizia que, quem sabe, ligaria no próximo domingo desde que já estivesse suficientemente alterado por fartas doses de bebida. E o sol lá em cima em sua infindável tarefa de tostar o mundo,  só não conseguia entender porque todos acham tão díficil deixar morrer o que claramente não vinga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Rotimeio

Marina Costa

Amarrei o cadarço e dei uma corridinha para terminar a crônica do dia antes do almoço. Mas, tendo ao meu lado a inimiga da perfeição, não saiu tema e faltou inspiração. Assim, olhando o relógio e contando os 8 minutos que me faltam, miro a pilha de papéis, a garrafa de água quente, a caneta marca texto e susurro pela janela para os passantes: admirável platéia urbana, em cena outra quarta feira, afinal. Esse meio de semana morteiro que vos apresenta, sem graça e sem sonhos. Está aqui, empurrando o início para longe do final e tentando nos consolar com um entremeio completamente desinteressante. Sem perspectivas. Suando de calor. Sem imaginação. Assim seguimos, caros espectadores, nessa vidinha dita urbana de uma modernidade delirante. Aguardando a liberdade fingida que vem com o depois de amanhã e morre na ressaca do domingo. Planejando a cara de canseira que virá sem pestanejar na próxima segunda feira. Senhoras e senhoras, divirtam-se. Eis a vida que vos espera dia após dia.