quarta-feira, 30 de março de 2011

Frio de Brasa



Marina Costa

Foi um tímido aperto de mão. Mas suficiente para ver que elas suavam. Rugas nos cantos de ambos os olhos e grandes pupilas que ainda, esperançosas, procuravam brasas acessas. O contemplar foi longo e repleto. Histórias com lembranças, criadas ou vividas. Mais belas do que sofridas pois foram polidas pelo esquecimento. No fim, encolhidas, fecharam-se no fundo negro da memória abandonada e não saíram nem com o bater das vidraças. Era a chuva, receosa, e o frio que também tinha medo de entrar. Receio de ali, no aposento, congelar. E se no início deste capítulo ainda havia calor, este se extinguiu depois da última palavra dita prenunciando o fim silencioso de toda a tempestade.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Razão Bronca



Marina Costa

Os ares do mar, que sempre cheiram a fim de tarde, demoraram até acalmar pensamentos de angústia. Pelo vidro da varanda, claros olhos de lágrimas constantes viam o refluxo do oceano como metáfora para as próprias emoções. Nem o tempo, nem o vento servem para aplacar sentimentos quando estes ainda insistem em gritar. Mas a distância fria, as conversas vazias e a razão bem medida construíram juntas a falsa vontade de não voltar. Eis o grande mérito de toda a lucidez aprendida. Agir de forma contrária ao que realmente é desejado e ser congratulado por tão acertada decisão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Calor de Brisa



Marina Costa

O abraço tímido foi partido pelo soar do alarme, indiferente ao barulho macio do contato. As alças da pequena mala não facilitaram sua saída. O perfume que ficou, quando a porta foi fechada, lembrava um colo quente que talvez não passasse de invenção desprotegida. A cortina fechada deixou passar pela réstia uma brisa indecisa, que não sabia se deveria apagar ou reacender o resto da brasa que morria. Talvez ninguém soubesse, ainda, se havia certo calor.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Luz Branda



Marina Costa

No sofá, olhos levantavam-se da página. A claridade do abajur incidia sobre quem chegava. A chave foi deixada silenciosamente sobre a estante e a mão levada à testa por longos dois minutos antes que se vissem. A sala se fez mais clara no cruzar dos olhares. E depois de tanto tempo ainda haviam pequenos sorrisos. Não mais deslumbrantes e magníficos. Brandos e desbotados. De reconhecimento ou compreensão, apenas. Fechado foi o livro.

domingo, 20 de março de 2011

Latência



Marina Costa

Perdoem-me a displicência com minha própria obra mas a hora é morta. Ignorem a falha constante mas há ainda o instante. Não pensem na falta do tempo pois já vai longe o meu último momento. Esqueçam o compromisso assumido pois não posso mais com isso.

Abençoem o abandono que gera o reencontro. Enobreçam a ausência da letra, declínio do que surge e glorifiquem o nascimento do morto, os adornos refeitos, colados, a cópia do não visto, o regurgitar do engolido.

Lembrem-se que tais fatos precisam de incubação. Fermentação. Silêncio e negrume. E eis que da mente resurgem.


sexta-feira, 18 de março de 2011

Saudadeu



Marina Costa

Há dias, como em muitos dos últimos (talvez tantos que eu mal me  lembre) em que acordo sentindo falta de mim. De vocês também, mas menos. Desculpe. A idade anda me fazendo honesta demais. Ontem ainda falei comigo enquanto observava sulcos de tsunami no espelho. Pisquei por detrás do reflexo e disse para deixar de ser estúpida. Ondas gigantes de destruição chegam, não importa o charme do rostinho. Não pensem que eu precise de uma auto-elogiosa-biografia. Mas digo que realmente ando sentindo saudades de mim. Volto?