sexta-feira, 29 de abril de 2011

Paráfrase



Guimarães Rosa

É no junto dos bão que a gente aprende o mió.

Porquê adiar? Pra quê ficar longe? Se o amanhã é hoje, não devemos esperar um depois. Agora, hoje, já vou. Está saindo? Te busco aí? Quer carona? Filosafando, dando conselho, dividindo a garrafa. Porque, eu vivo falando, a vida passa. E se nem palavras ficam, de que vale a espera por algo que a gente nem sabe se vai acontecer? É hoje! Com você. 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pingo



Marina Costa

No finzinho, a gente aperta os olhos para enxergar longe o que está perto. Mão reta sobre as sobrancelhas e o que se busca lá espirra aqui. Vem um cheiro doce e frio e bem no meio da cabeça meio oca, cai  o pingo de epifania. Você esteve sempre aqui e era eu que te partia.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Impressões em 1/4 de Guardanapo



Marina Costa


A uva é malbec, e raios me partam, não faço a mínima idéia da diferença. A música, um jazz comum e insosso, que ninguém sabe se gosta ou não. Senhoras com sacolas finas de lojas requintadas e a sede de viver o que elas pensam ser o que resta de suas parcas vidas. Segunda, dias para o natal e todos eufóricos, como nos anos anteriores e nos anteriores e nos antes dos que passaram. Menos o garçom, é novato. E eu, que além de esperar, não me encaixo. Detesto jazz e natal. O que só não é mais típico do que gostar de jazz e natal. 
Na mesa da direita, um jovem de grisalhos cabelos questiona com longos olhares minha lânguida solidão feminista. Se ele pensou em brindar comigo, teve que mudar de ideia pois a minha espera começou a terminar. E quando ele finalmente chega, crônica em guardanapo respingado de vinho tinto acaba virando história embolada e parando no cesto de lixo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mensagem para você



Marina Costa

No ponto de ônibus, em cima do banco, foi achado um bilhete rosa e bem dobrado, com uma única frase em vermelho vivo: "por mim e por você, saí de nossas vidas". Nada de perfume ou lágrimas ressacadas, apenas a frase em belas letras. Sabe-se lá porquê alguém guardou o tal pedaço de papel no bolso do paletó. Talvez a melancolia da enunciação escrita tenha afetado a sobriedade solitária daquele velho senhor.
E o bilhete foi almoçar, voltou ao escritório, acabando por fim no chão do banheiro, umidecendo com o vapor quente do chuveiro. Na hora de ir para a máquina de lavar encontrou mãos ávidas e curiosas que pareciam esperar por ele há longos anos. "Por mim e por você, saí de nossas vidas", susurrou a boca pálida e seca. E os olhos cor de chumbo se crisparam para segurar o pranto.
Malas prontas, táxi no portão. E o bilhete foi deixado em cima do travesseiro para que a mensagem cumprisse novamente o papel ao qual se destinou. O taximetro foi ligado e o carro partiu, enquanto na outra esquina, chegava em pijamas e surpresas aquele senhor pacato que acreditava na alegria de dias sempre iguais.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Consideração



Marina Costa


Se a gente pensa em ligar, vem a conta para pagar e o pensamento acaba ficando esquecido, em cima do caixa eletrônico. Outra hora é mandar um email, coisa rápida de fazer, daí aparece na tela aquela promoção irresístivel de agora e o email, coitado, fica para inglês ler. Assim passa uma semana ou três, passam dias, passa mês e a hora que a gente vê e se dá conta, assusta, ou o quê, o meio do ano está aí, mais marcas no canto do olhar aqui e a gente não sabe porquê não ligou, não escreveu, não procurou, não enviou um bombom se quer, enrrolado em papel marchê.

Já dizia vovó Maria, o tempo do homem é invenção e quem é regulado por relógio acaba sempre atrasado na vida. Eu acho que ela tem toda razão. Já passou da hora de ir te ter, te estender a mão! Te dar abraços e beijos, falar como gosto de você e declarar, ao vivo e a cores, que por mais que a vida corra você sempre vai me ver.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ichduwir



Marina Costa

Sento para ver o dia acabar enquanto imagino beber uma xícara de café e penso em tudo o que gostaria de falar para que muitos, senão todos, possam ouvir...
O tempo cíclico me impede de ver os cantos e contornos mas partilho da energia de morte que todos sentem um pouco, nos inícios e nos fins... Talvez ficaríamos mesmo loucos se entendêssemos de eternidade, então só vez por outra colocamos alguns pingos nos muitos is.
Na vida tudo acontece meio fora do planejado apesar da gente insistir em controles, agendas, planilhas e extratos. São muitas as arestas não previstas e em cada quina aparece alguém talvez para a vida inteira, mais certo que não permaneça um ano ou dois. Sério e triste o que eu disse. Para a vida inteira, pensamos. E não dura um ano ou dois... O fato é que nos copos de cerveja, nas taças tintas ou no entendimento mal entendido de mensagens interceptadas pelo achismo que reina em cabeças duras, os outros acabam expandindo pontos onde por vezes pensávamos haver uma definitiva conclusão final. Alguns olhos passam a verdade que às vezes parece não mais existir. Uma verdade que não pode ser dita pois não sabemos ainda como dizer. Mas que nos faz continuar a buscar uma realidade por detrás dessa, mesmo não acreditando muito nisso.
Tenho esperanças que nossas almas um dia irão despertar. E então estaremos mais próximos da superfície que tanto procuramos.  O importante é não esquecer de olhar o céu, nublado ou estrelado, não importa muito. Acabam sendo dois lados da mesma moeda... E mostrando para nós que se há algo que não termina, está tão inacessível agora quanto a nossa insistência em viver a vida só para complicá-la demais...

Desculpem os devaneios, cheios de entremeios... mas há dias em que me sinto meio esfumaçada...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sombra Branca



Marina Costa

Outras páginas para os mesmos olhos cansados de se levantarem. Percorrerem linhas enquanto olham para dentro e esperam, sem saber, ouvir o trinco da porta se mover. A luz, estática no ambiente intacto, traduz a calma que se instalou satisfeita no aconchego da solidão. Não há mais frio. O calor extinguiu-se. No criado um copo com um líquido amarelado, há muito esquecido. Silêncio em todos os cômodos transmitindo a inquieta quietude de apenas um. Selados estão os lábios que desaprenderam a se mover. Imerso em sombras brancas o coração que ante tal clareza decidiu parar de bater. Apenas seguir. Caminhar num peito sem porquê.