segunda-feira, 16 de maio de 2011

Andasa Voada



Marina Costa

Sonhei que tinha acordado com asas. Uma meio torta, é verdade. Acho que amassou enquanto eu dormia. Mas o que importa é que elas funcionaram. Abri a janela, senti o ventinho e pulei. Dois metros antes de me esborrachar peguei o jeito e num rasante planante desastrado consegui subir até o telhado. De lá para o topo da árvore mais próxima foi um pulo curto e desengonçado. E aí ganhei o mundo, mesmo que capenga. Montanhas enluaradas, picos enevoados, verdes campos abertos. Com asas, eu não precisava mais do ponto eletrônico nem do monóxido de carbono. Voei por anos. E quando acordei tinham apenas penas no meu travesseiro. O despertador não se deixou embalar pelo sonho. Levanta e anda, disse-me. E, desolada, eu vim.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Chorinho



Marina Costa

Cheiro de cravo, rosa na lapela, gravata violeta em terno de marfim. Pele de baunilha, boca fresca de cereja, olho azeitonado, tirou ela de mim. Vejo, se vão longe, de mãos dadas e sorrisos, abraçados e perdidos em um amor que não tem fim. Vai feliz do lado dela, vai devota ao lado dele e eu que não abracei, não amei, não fiz que sim, fico no pó da esquina, sob a chuva e o sol do tempo, sozinho para contemplar esse meu coração ruim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Breu



Marina Costa

Acende o dia pois é nova a lua e se a vela apaga, a treva desce e engole os pés. Risca o fósforo, mínimo e parco, para afastar o negrume da frente dos olhos. Sopra a brasa para esquentar o peito e iluminar as sombras agigantadas. Cruza os braços mas ergue a cabeça e apura os ouvidos para os segredos que permitem viver. À meia noite a escuridão se avoluma mas é certo como a vida que o sol ainda vai nascer.