quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Camaleã



Marina Costa 


Quarta empoeirada, brilho pobre de sol. Silêncio indesejado, amarelei.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cameleada





Marina Costa

Já na terça, crise existencial humanitária. Pela rua, verde escarrei.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Camaleão

Marina Costa

Sem motivo aparente, olhei para a segunda previsível e acinzentei.


domingo, 28 de agosto de 2011

Longe Tanto



Marina Costa

Sempre te vejo, no espelho, quando ele mostra meu pálido e ausente reflexo. Dói e oprime o peito, não te ter aqui por perto. Não intenciono fazer rima, pois de poeta pouco tenho, mas o amor-você me ensina a ser honesto.  Falar as verdades da vida. As tristes e as minhas. As que quero que você ouça e as que não posso sustentar sozinha. Palavras perdidas reunidas pela saudade do que nunca tive, mas vou sempre desejar. A vontade de te segurar. Com força, apertado, te abraço, quase, quase te esmago. E nunca, nunca mais deixo você ir. Nunca, nunca mais guardo o que devia ter sido dito. Miro o horizonte que te separa da minha ânsia e só vejo estrada. Mais nada. Nem sinal. Meus olhos, desde então, estão sempre rasos d'água. Cai a lágrima por ti, que desconheço desde que espero. Penso no teu campo de trigo. Longe tanto de mim...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Recalque



Marina Costa

Luana assistia a aula de anatomia muito atenta quando sua cabeça desancaixou do pescoço, caiu do colo para o chão e rolou até os pés do professor, que se calou. Os colegas, despertados pelo barulho oco, olharam sorumbáticos e o defunto, antes imóvel como um cadáver, ergueu os braços espantado. Muito vermelha, ela levantou-se cautelosamente, levou a mão ao rabo de cavalo e colocou, firme e protegida, a cabeça em baixo do braço. Saiu da sala para não mais atrapalhar a classe. De qualquer forma, há muito já tinha os pensamentos na lua.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Consolo



Marina Costa

A mão abanou, expressando o adeus final, na plataforma de embarque. O sorriso enganava, para que a despedida não fosse dolorida. Entrou no vagão. Ao ouvir o apito do trem, barulho de engrenagens que representava a certeza da distância, o pranto apertado finalmente rompeu e o corpo em desconsolo se dobrou sobre o solo, de tristeza. Depois de tanto procurar, perder trazia de volta a sensação de desalento com a qual tinha se acostumado a andar a vida toda. E aquelas poucas horas de encontro, só serviram para aumentar a certeza da enorme diferença entre si e o resto do mundo menos um, da enorme falta que aquela outra alma, tão igual, faria dali para a frente. Foi-se o trem. Ficou a ilusão. Alçou os olhos e do outro lado dos trilhos viu a mão que continuava a abanar, com um sorriso de traquinagem no rosto. Ela nunca partiria.

domingo, 21 de agosto de 2011

EsQuadro



Marina Costa

     Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. O mar, enlouquecido, lambia a pedra com fúria, tentando apagar a dor pela dor. Ao longe os raios iluminavam os destroços que o fogo deixou. Suas tranças claras e suas lágrimas frias se uniam para adiar a entrega do corpo sem vida. 
     Seu escudo não parou o tempo, sua espada não feriu a chuva. A armadura foi como vidro, partido pelas mãos do destino. Os olhos, na agonia da despedida, vidrados na morte que sorria, com medo e espanto ao pressentir que se fechavam prometeram voltar do outro mundo para lhe dar o abraço de adeus.
     Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. Soltou o corpo frágil e deixou-se cair no mar, enlouquecido, que afinal se calou.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Centeio



Marina Costa

Há vontades que o fogo não pode destruir. Raras e firmes, não como troncos secos ou ventos frágeis. São como lagos profundos e negros, onde a chama se une à água e formam um elemento maior, criador do desejo nascido de ser algo que era, até então, desconhecido. Isto é o caminho. Seja de honra ou vergonha. De honestidade em dívida ou traição cobrada. São preços da escolha da razão. E quando entendemos essa mesma razão, agindo sobre aquele mesmo fogo que não nos faz queimar, passamos a conhecer o que nos destrói. Mais sábio que aquele que responde por vaidade é o que não pergunta por parcimônia.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Momentâneo


Marina Costa

Acordar de manhã, com uma chuvinha fina e lembrar que é domingo. Abrir só um pouquinho o olho e rever seu ressonar tranquilo. Sorrir um sorriso doce e cair de novo no sonho do sono. Só que, mais uma vez, tenho sua mão na minha.

domingo, 14 de agosto de 2011

Espontâneo




Marina Costa


Abre os olhos sorrindo e outra vez suspira de alegria. Sonhou com ele. Passa o dia na correria querendo que se vá logo o sol, desejando ver a face brilhante da mãe lua e depois do banho quente de chuveiro, fecha janelas e sopra as velas, cerrando os olhos aconchega o corpo. Abraçada ao travesseiro, vem o embalo do sono e as imagens não pensadas entram devagarzinho pelo vão da porta. Mais uma vez, árvores floridas e pedras lisas, onde as mãos se unem. Não há palavras, não venta, nem a chuva cai. Apenas uma luz brilhante dourando os rostos ternos e imóveis. A não ser pelo sorriso de contentamento, sempre certo. Ele estava ali, mais uma vez, a esperar por ela. E até que o sonho perca a graça pelas mãos da realidade, ela estará sempre feliz a sonhar com ele. Sem querer.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Apreensões



Marina Costa

 
Um dia frio. Música depressiva no rádio. Me sento na poltrona enquanto meu olhar atravessa a janela de vidro. A chuva bate fraquinha, como lágrimas de pequenos Deuses. A cor do dia é cinza, mais ou menos como meus sentimentos. Estou de pijamas e meias, mesmo já tendo passado das quatro da tarde. Meu desânimo se sente melhor despenteado e desarrumado, podendo assim me martirizar e me fazer sentir ainda mais esquecida. O vento frio lambe meu rosto descoberto, fazendo gelar até minha espinha. Me aconchego ainda mais em mim, pois me sinto empedrada e não quero me levantar para pegar uma coberta. Gosto do frio. Pequenos cristais gelados que cortam vagarosamente a carne até não sentirmos mais nada, a não ser a doçura da inércia. Claro que essa metáfora não é minha. Mas o frio também me faz sentir viva. 

Lá fora a chuva não pára de cair. Pequenas gotas que formam bicas intermináveis escorrem por todos os lados. Grandes nuvens, como pesadas matronas, se apertam no horizonte. Raios dourados de fogo cortam o céu ao longe enquanto em meio às minhas apreensões, permaneço insensível a esse espetáculo natural. As árvores balançam felizes à medida que a água cai. Pássaros voam, sem se importar com suas penas molhadas. E eu me sinto voando para longe e sem rumo, com minhas tolas e dilacerantes apreensões...

Divagações. Desde que o homem construiu seus casulos de concreto e cortou seu cordão umbilical com a Mãe Natureza, ele se vê como o centro das coisas. Se a chuva cai é para ainda mais lhe entristecer. Se brilha o sol é para coroar sua felicidade. Criatura imperfeita. Mal sabe que é apenas um cisco em toda uma vastidão infinita. Eu sou apenas um cisco. Mas aqui, com minhas meias amarelas e a chuva que penso cair pra mim, teimo em acreditar que sou a causa, e não a conseqüência. Me vejo como aquela que chega para falar e não para ouvir. Como aquela que vê e não é vista. Pobre de meu espírito bobo quando cai nessas armadilhas de minha mente delirantemente sarcástica.

Os sorrisos impensados viram convites, na minha cabeça labiríntica. Os convites não ditos viram desinteresse em mim. O desinteresse mata meu ego inútil. E essa morte, que deveria ser boa, me deixa cinza. Não posso acreditar que as ações dos outros são simplesmente ações. Em minha mente doentia elas viram lanças para me caçar e ferir. Ou rede para me amarrar e fugir. 

Outro raio caiu ao longe, me chamando ao que é real. A chuva parece gritar querendo dizer que pode aumentar apenas por si. Alheio às minhas apreensões está o mundo, que tem mais com o que se preocupar do que com minhas questões pseudo-essenciais de sobrevivência. Pensamentos transviados que nunca passam. Não cabe ao homem ser certo como o Sol que saberá brilhar quando passar a chuva, apenas aguardando seu momento sem se preocupar com a demora do mesmo? Para quê, se este homem pode ser eternamente chuvoso, molhado de dúvidas? De que seria nossa existência se não fosse as conjecturas que fazemos em cima do nada? Viver o real? Conta outra, para isso não precisaríamos involuir como fazemos todos os dias. 

Uma borboleta pousa à minha frente e me olha com desprezo e graça. Me dando também pouca importância abre suas belas asas como a querer fazer-me inveja, e voa aproveitando a brisa que passa... Segundos depois de mais essa apreensão – até os bichos zombam de mim - consigo raciocinar: como ela poderia me olhar com desprezo e graça, ou querer minha cobiça por suas belas asas se ela nem mesmo sabe quem sou? Ou, melhor ainda, se ela não é nem um pouco humana para ter e entender esses sentimentos pequenos? Mais uma vez meu ego, gerando situações inexistentes. Sorrindo divertida, finalmente entendo que nada nesse mundo me pertence.

Então, ciente do meu nada e agora calma, escorro com a chuva, pego uma coberta e me transformo no cisco que deveria ser, a apreciar a verdadeira intenção do mundo que é apenas existir sem dor, nada mais.

10/10/2006.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lambada


Créditos da imagem: Juliana Andrade, MG - http://bambue.com.br/2010/11/duda/#more-337

Marina Costa

Molhada e meio áspera, a menininha sardenta levou uma lambida do menino atrevido, bem na bochecha direita. Ficou estática. Que absurdo, pensou ela. Que engraçado, ele disse. Que audácia, ela sussurrou. Me dá um beijo, ele pediu . Daí ela ficou vermelhinha, como a rosa que ganhou e largou no chão, quando se pôs a correr pelo pátio. Ele a recolheu e soprou o pó. Havia visto uma loirinha saindo da cantina e logo pensou outra vez na sensação engraçada de refrigerante no nariz...