quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Apreensões



Marina Costa

 
Um dia frio. Música depressiva no rádio. Me sento na poltrona enquanto meu olhar atravessa a janela de vidro. A chuva bate fraquinha, como lágrimas de pequenos Deuses. A cor do dia é cinza, mais ou menos como meus sentimentos. Estou de pijamas e meias, mesmo já tendo passado das quatro da tarde. Meu desânimo se sente melhor despenteado e desarrumado, podendo assim me martirizar e me fazer sentir ainda mais esquecida. O vento frio lambe meu rosto descoberto, fazendo gelar até minha espinha. Me aconchego ainda mais em mim, pois me sinto empedrada e não quero me levantar para pegar uma coberta. Gosto do frio. Pequenos cristais gelados que cortam vagarosamente a carne até não sentirmos mais nada, a não ser a doçura da inércia. Claro que essa metáfora não é minha. Mas o frio também me faz sentir viva. 

Lá fora a chuva não pára de cair. Pequenas gotas que formam bicas intermináveis escorrem por todos os lados. Grandes nuvens, como pesadas matronas, se apertam no horizonte. Raios dourados de fogo cortam o céu ao longe enquanto em meio às minhas apreensões, permaneço insensível a esse espetáculo natural. As árvores balançam felizes à medida que a água cai. Pássaros voam, sem se importar com suas penas molhadas. E eu me sinto voando para longe e sem rumo, com minhas tolas e dilacerantes apreensões...

Divagações. Desde que o homem construiu seus casulos de concreto e cortou seu cordão umbilical com a Mãe Natureza, ele se vê como o centro das coisas. Se a chuva cai é para ainda mais lhe entristecer. Se brilha o sol é para coroar sua felicidade. Criatura imperfeita. Mal sabe que é apenas um cisco em toda uma vastidão infinita. Eu sou apenas um cisco. Mas aqui, com minhas meias amarelas e a chuva que penso cair pra mim, teimo em acreditar que sou a causa, e não a conseqüência. Me vejo como aquela que chega para falar e não para ouvir. Como aquela que vê e não é vista. Pobre de meu espírito bobo quando cai nessas armadilhas de minha mente delirantemente sarcástica.

Os sorrisos impensados viram convites, na minha cabeça labiríntica. Os convites não ditos viram desinteresse em mim. O desinteresse mata meu ego inútil. E essa morte, que deveria ser boa, me deixa cinza. Não posso acreditar que as ações dos outros são simplesmente ações. Em minha mente doentia elas viram lanças para me caçar e ferir. Ou rede para me amarrar e fugir. 

Outro raio caiu ao longe, me chamando ao que é real. A chuva parece gritar querendo dizer que pode aumentar apenas por si. Alheio às minhas apreensões está o mundo, que tem mais com o que se preocupar do que com minhas questões pseudo-essenciais de sobrevivência. Pensamentos transviados que nunca passam. Não cabe ao homem ser certo como o Sol que saberá brilhar quando passar a chuva, apenas aguardando seu momento sem se preocupar com a demora do mesmo? Para quê, se este homem pode ser eternamente chuvoso, molhado de dúvidas? De que seria nossa existência se não fosse as conjecturas que fazemos em cima do nada? Viver o real? Conta outra, para isso não precisaríamos involuir como fazemos todos os dias. 

Uma borboleta pousa à minha frente e me olha com desprezo e graça. Me dando também pouca importância abre suas belas asas como a querer fazer-me inveja, e voa aproveitando a brisa que passa... Segundos depois de mais essa apreensão – até os bichos zombam de mim - consigo raciocinar: como ela poderia me olhar com desprezo e graça, ou querer minha cobiça por suas belas asas se ela nem mesmo sabe quem sou? Ou, melhor ainda, se ela não é nem um pouco humana para ter e entender esses sentimentos pequenos? Mais uma vez meu ego, gerando situações inexistentes. Sorrindo divertida, finalmente entendo que nada nesse mundo me pertence.

Então, ciente do meu nada e agora calma, escorro com a chuva, pego uma coberta e me transformo no cisco que deveria ser, a apreciar a verdadeira intenção do mundo que é apenas existir sem dor, nada mais.

10/10/2006.

Um comentário:

  1. Velinha... do tempo em que eu pensava que se falasse muito as pessoas entenderiam. Agora sei que posso falar pouco porque eu entendendo, e só, basta.

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