terça-feira, 27 de setembro de 2011

Tropeção




Marina Costa

Não, sempre dizia ela, e sorria tentando amenizar a recusa. Talvez, se insistissem muito, mas viam em seus olhos as labaredas da confusão. Detesto, firme afirmava e apertava os lábios temendo contradição. Alheia, demonstrava indecisa e escondia o rosto que desconhecia, entre as mãos.

Um dia, como sempre distraída, caiu num buraco aberto no alto por alguém que brotou da escuridão. Caiu em pé  e surpresa só discerniu no escuro a cara enrugada da solidão. O grito não vinha, o choro morria e a lama quente a envolveu sozinha, em sonhos de nada, ideias vazias que corriam perdidas sem direção. Por anos viveu enterrada, abraçada aos próprios joelhos, gemendo em altos lamentos, com a cabeça no chão. E o coração ao invés de pó, virou semente doente, planta traiçoeira, venenosa e morteira, que já nasce torta e seca a repetir, pela boca do vento, para todo o sempre o mesmo intento, sussurrando o eco do não.

domingo, 18 de setembro de 2011

Elegia Branca



Marina Costa

Leva vento, leva folha, leva terra, leva pó. O que acaba, o que desmancha, sobra a brisa, sobra dó. Podre o fruto ou ao chão verde, morre a vida sem doer. Dói em mim que aqui fico e que te vi sofrer. Dormem as pedras, fenecem as plantas, o miado já não faz eco. Passa o mundo pela ampulheta, desce o gargalo do tempo. Morrem as grandes coisas, acabam os pequenos momentos. E da vida tão plural, de tudo o que os olhos vêem, fica pouco na memória, muito a morte leva embora e o resto é coisa imaginada, página que foi virada, fechada em caixão se vão as esperanças de sonho que era ilusão. Morre então tudo o que vive. E sempre, sempre há olhos rasos. Corações amolecidos, mas como não desabar perante o último abraço?

Deus, de ti não sei. De mim, menos talvez. Mas se és vida, porquê a morte? Se és amor, porquê nos deixa a deriva da madastra sorte?

Lágrimas no escuro não vão parar de correr. E na penumbra das horas, no sofrimento do viver, a inocência branca sabe que nasceu para morrer. Choremos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Plumbífero



Marina Costa



Na tabela fica a esquerda, mais em baixo. Lá em casa fica bem em cima da minha cabeça, principalmente às segundas, pela manhã... Ao longo da semana a tendência é entrar em estado de transformação. Conforme passam as feiras, vai do cinzento muito denso ao gasoso bem azulado. Acho que chamam isso de gaseificação. Não tenho muita certeza, afinal já se vão 10 anos de segundo grau. Que por sinal, deixou para mim coisas mais importantes do que nomenclatura de estados físicos. Químicos. Enfim, não concluí com méritos.
O fato é que, na sexta feira, após as 18 horas, já estou tal qual pluma, de tanta leveza. Mamãe diria que na verdade isso é certa falta de juízo carregando a responsabilidade para longe de mim. Papai falaria que eu preciso mesmo é estudar para um novo concurso e fazer carreira em uma grande empresa, visando ser ainda mais capitalista do que o mundo. E eu, dando de ombros, vendo o fim de tarde nas montanhas do curral, só quero saber das risadas soltas delas, dos casos aventureiros deles e do sabor bom de amizade fresca, única transformação possível do meu estado pesado em bolhas de sabão...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Convidado




Manoel de Barros


Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto.

Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Camale Ei



Marina Costa

Desce o manto sobre a sexta, cobre tudo o que pensei. Me recolho para nascer do meu próprio peito. Sempre enegrecerei.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Camaleando



Marina Costa


Se na quinta o sonho é breve, mesmo provocando sorriso, posso dizer que azularei?