Marina Costa
Leva vento, leva folha, leva terra, leva pó. O que acaba, o que desmancha, sobra a brisa, sobra dó. Podre o fruto ou ao chão verde, morre a vida sem doer. Dói em mim que aqui fico e que te vi sofrer. Dormem as pedras, fenecem as plantas, o miado já não faz eco. Passa o mundo pela ampulheta, desce o gargalo do tempo. Morrem as grandes coisas, acabam os pequenos momentos. E da vida tão plural, de tudo o que os olhos vêem, fica pouco na memória, muito a morte leva embora e o resto é coisa imaginada, página que foi virada, fechada em caixão se vão as esperanças de sonho que era ilusão. Morre então tudo o que vive. E sempre, sempre há olhos rasos. Corações amolecidos, mas como não desabar perante o último abraço?
Deus, de ti não sei. De mim, menos talvez. Mas se és vida, porquê a morte? Se és amor, porquê nos deixa a deriva da madastra sorte?
Lágrimas no escuro não vão parar de correr. E na penumbra das horas, no sofrimento do viver, a inocência branca sabe que nasceu para morrer. Choremos.

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