quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Infinito como Números



Marina Costa

Nem foi um dia como outro qualquer. E talvez seja uma daquelas poucas vezes onde diremos "infelizmente" pela rotina que se alterou. A cerveja ficou, milagrosamente, intocada. A futilidade da vida virtual pareceu ainda mais vazia pela distância fria de óticas fibras. Com exceção de estarem ali suas últimas lembranças. Nossas, agora. A morte nos rondou essa noite e toda alegria parece ter evaporado dos rostos jovens e felizes daquele feriado de dias atrás. Brindes por uma despedida disfarçada de reencontro. Tão perto. Agora, longe como nada mais. Nessa hora, quem não duvida da fé que contestamos, inocentes? Como conter a revolta, perante o que não volta? Como não querer uma justiça nossa por um amigo que somava? Restam lágrimas e nó na garganta. Resta um tempo que não sabemos medir. Até nos unirmos de novo a ele e vivermos outra vez aquela alegria despreocupada que parecia sem fim. Era. Até esse momento. Até sentir tanta dor. Era.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desayuno


Marina Costa

- Dia!
- Dia!
- E pra hoje?
- O mesmo de ontem, vida sombria.
- Pingado escuro?
- E com pouca alegria...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Retorno



Marina Costa

Por vezes, grande parte delas, tinha a certeza de andar em círculos. Mesmos erros provocados pelas mesmas mentiras auto impostas. Mesmas máscaras construídas pelas mesmas vaidades de um ego que parece contornar o mundo. Vinham outras estações.  Sofria com mais uma gélida primavera, lamentava pelas ruas seus vícios virtuosos em cada verão outonal. Todos sorriam, alheios. Queria que chorassem, compadecidos. E sempre, no cair da noite, ao apagar das luzes, ante a infindável algazarra dos próprios pensamentos conduzia seus pés para a rotatória criada com o intuito de oferecer segurança e certeza. Um caminho seu, que não fosse, como a vida, inesperado e desconhecido. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Esquina



Marina Costa

Na intercessão da rua, ficava ela, noite após dia, a decidir destinos. Raros eram os passantes que ante a insinuação da dúvida não sucumbiam à pressão do momento. Vendo os possíveis caminhos, perdiam o rumo no eco do dúbio silêncio de possibilidades, debatiam-se na quina da razão. Olhavam para frente, muitas mais vezes para trás com lágrimas a preencher a secura do rosto. Aperto no peito. Rugas na testa. A mensagem era sempre esta. Seguir adiante para voltar ao ponto de partida. Dizia aquela velha senhora, de roupas bufantes e olhos vidrados, mãos nervosas a embaralhar cartas surradas. Palavras tolas mas malditas que transformavam as esquinas em labirintos infinitos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Passeio



Marina Costa

Anda cinza. Com muitas rachaduras e pedaços quebrados em alguns rejuntes. Muitos passam, o que faz com que sua continuidade acabe confusa. Já não sabe mais se vai ou vem. Ocasionalmente, em sua extensão, nascem ervas daninhas. De quando em vez são arrancadas por uma mão mais carinhosa do que calejada. Em outros momentos, fortes pisões deixam inconfundíveis e dolorosas marcas que costumam ser soterradas pelo pó seco do tempo. Atualmente, espera as chuvas de março para lhe darem cara nova. Mas mesmo na quente opressão de setembro, aproveita o céu limpo. Vez ou outra sai para um passeio.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Saída




Marina Costa

Bateu a porta e chutou a pedra. Com um profundo suspiro desceu os degraus. No portão, sentiu a vertigem, apertou os olhos, segurou na pilastra, pisou em falso e esmagou o pequeno pé de pimenta, que morreu inocente. Logo passou. Olhou para o céu laranja de fim de tarde, limpou o suor da testa, apertou a gola em torno do pescoço e saiu na noite que começava. Não voltaria.