quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Stereo Tipo




Marina Costa

Duas. Três. Na quarta xícara em menos de meia hora, a copeira já percebeu algo errado com a secretária. Horário de verão, dona Vera, pergunta ela. Não só isso, dona Cleusa, ando com insônia. Mas uma moça assim tão nova, sem filhos, não dorme porquê, retrucou com malícia. Sabe que também não entendo. Eu apenas trabalho o dia inteiro, estudo durante a noite, organizo a casa em que moro sozinha, ligo para o pai, controlo minhas contas, alimento o gato, faço as compras, ligo para a mãe, lavo as roupas, enfim, é tanto eu, tanto eu, tudo eu que acho que na hora de deitar, a cama fica tão cheia de mim que acaba uma atrapalhando a outra e nenhuma de nós várias dorme direito pois todas ficam a pensar em como criar uma Vera a mais para dar conta do dia que ainda não nasceu. Dito isso, encheu a quinta xícara e lançando à outra um olhar desafiador voltou, pisando firme, para sua mesa. A que ficou, percebendo que fora pega na própria armadilha de insinuações venenosas resmungou, hum, sei, eu né. Aposto que anda sassaricando com alguém por aí. Ainda pego ela. Ninguém pode ser tão certinha. Pobre secretária. Pagando o preço de ser mulher moderna e independente. Nem as olheiras e os ombros curvados conseguem salvá-la da ferina língua alheia.

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