segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Subimundo



 Marina Costa

Eventualidade tamanha quanto esta crônica ter sido escrita da forma tradicional, a tinta e papel, foi outro dia eu estar vendo o jornal da tv pela manhã. Há muito desisti de desgraçar meu dia logo cedo, entretanto era uma dessas feiras em que estando só me sentia oprimida pelo silêncio e resolvi partilhar meu café fresco com o noticiário. O que me fez lembrar desse dia específico foi o caso mostrado. Pedro era o protagonista e abro aqui um parêntese para expressar minha admiração por esse nome que para mim representa o perfeito arquétipo do significado do homem: desde a rocha firme que demonstra estabilidade e coragem até a lama imunda que cobre de vergonha aquele que abandona crenças por convenção. Voltando ao caso, este nosso Pedro cuja carteira da OAB foi mostrada sem pudores (queria o cinegrafista julgar a espécie pelo espécime?) ao sair de uma festa a fantasia, cujo personagem que encarnou era um membro do batalhão de operações especiais, drogado pelo álcool (forte eufemismo jornalístico para bêbado) entrou em um coletivo e atravessou toda a zona sul do Rio de Janeiro. Não conheço o Rio, por isso tenho minhas dúvidas quanto a narrativa da repórter. O fato é que nessa corrida maluca , note isto não ser uma opinião da cronista que vos fala, ele raspou outro ônibus, acertou alguns táxis e deixou um pobre aposentado no hospital com algo na bacia, note a ênfase do jornal que clama pela imagem do velhinho indefeso. O que não parava de passar pela minha cabeça era uma crônica que escrevi há alguns anos onde eu era a motorista sequestradora. Diferença bem enfatizada pelo nosso Pedro (meu, se não quiser fazer parte disto, caro leitor) que com a boca ensanguentada e alguns dentes quebrados ressaltou que “não sequestrou nada pois não havia ninguém dentro do ônibus”. E foi tudo o que nos deixaram ouvir de sua aventura incomum.

Desliguei a tv. Ficou impresso em minha memória os olhares das testemunhas e do delegado que falou sobre o caso. Era uma expressão mista de deboche, surpresa e estupefação. Como se ao invés de um ônibus tivesse passado naquela madrugada uma nave espacial desordeira e então simplesmente desaparecido em meio a luzes verdes, deixando em todos uma sensação de algo que na verdade nunca aconteceu.

Quanto a esta que vos fala, aceitou tudo com muita naturalidade. Calhou de eu justamente estar a ler Dostoiévski e vi na vida real a representação perfeita do “homem do subsolo” e seu precioso ensinamento que me deixou boquiaberta como há muitos anos não ficava: as vontades que temos não as temos simplesmente por desejar os benefícios que poderiam nos advir. Certas vontades, meus caros, apenas as temos porque podemos tê-las. E, traga-nos desgraça ou até mesmo dor as executaremos, vez ou outra, para provar à nossa racionalidade que para poder basta querer. E dessa constatação absurda resulta toda a verdadeira humanização do ser que a tal sociedade moderna tanto anseia conter.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para contato, nosso email é vidanacronica@gmail.com