quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pelo Sim



Marina Costa

Depois de tanto, foi assim, um tchau, um até mais. Falou, enfim, liga para mim. E passa feira, passa loja, passa bar, passa cerveja, e nada de ouvir o telefone fazer trim. Nesses tempos comunicáveis, onde recados são deixados em nuvens cibernéticas, não aparece nada, nem um oi nem uma olhada, piscadinha ou cutucada, nem mesmo sinal de fumaça. Nas entrelinhas do que não é logo dito, abrem os pensamentos puxados pelo faceiro e venenoso se. Se pensa assim, diz logo isso ou se acha que fez pode desdizer. Se o mundo acabar aí pode tentar ou se não responder, quem sabe procurar um buraco e a cabeça esconder. Definhando em conjecturas, secando com os olhos certo celular que não toca, email que não atualiza, rezando para o telégrafo, ideia do vovô. Fica aflita. Procura o cheiro. Enche de águas os olhos antes secos. Tudo pelo sim. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ana Coreta



Marina Costa

No passado do espelho ficaram alguns sorrisos e muitos beijos não dados. Com os anos vieram também o discernimento para saber que umas escapadas reprimidas, no fundo nem fariam assim tão mal. O que acontecia é que ao constatar tal verdade todos preferiam ocultar por já terem passado da idade e assim ninguém podia saber. Agora não fazia mais tanta vista para pedir aquilo que um dia quiserem lhe dar de bom grado. As rugas de hoje assustavam e puxavam do fundo da garganta estupefata um "quanto tempo" dolorido. O branco do cabelo era um sintoma a mais de vida que escorria. As carnes, moles e escondidas, já não provocavam a luxúria libertina de outros dias. Tudo continuava igual pelos olhos. Mas de que valiam, se não havia mais quem buscasse tal olhar? 

Entretanto, ela gostava de se mirar. Com alegria, sempre pela amanhã, na hora do blush da tarde e antes do chá. Quando podia, ainda buscava seu reflexo pelas vitrines do caminho por onde ia. No final, e ela sabia que dali em diante tudo seria  final, ela sempre se amou mais do que todos aqueles tolos podiam expressar pelas palavras recicladas de outros carnavais. E mesmo que, por vezes parecesse amargurada, sempre preferiu sua própria companhia ao desejo incendiado de um corpo desprovido de mente ou repleto de  promessas de falso cultivo. Ela era, acreditem ou não, a tampa de sua própria panela. E se o poeta dizia que não se pode ser feliz sozinho é porque com certeza nunca tinha se apaixonado pelos próprios olhos e insistia na velha máxima amplamente aceita de buscar o verde em outro jardim...

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fugidio



Marina Costa

Ele está lá. De costas. Cinza. Ela sorri. Em frente. Ilumina. No curto trajeto que os separam ela memoriza o que dirá. Desde o primeiro e furtivo olhar, não sobrevivo sem lhe ver. Após o primeiro tinir da sua voz, não ouço mais outra melodia. E se desabrocha o que plantou em mim é pela tua vida que me cultivo. Ao entreabrir dos lábios dela ele cerrou a porta atrás de si. E a luz se apagou. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cultivo



Marina Costa

Ela, andante, filha de flora cigana, criou um desejo latente de rodar o mundo no vento que carrega o pólen e desde semente sentiu que o fluido da vida jorra além de palavras se espalhando por campos muito maiores do que o jardim que a gente acostuma a viver. Fincou em chão longe raízes tão fortes que nem a mão mais cruel, a da realidade, pôde arrancar. Sonhava. Todas as noites. Talvez, todos os dias também. Entretanto, adormecida depois de desiludida pela rotina de dias de calma, a pequena planta ficou como que morta, meio seca, meio verde, meio vazia de toda expectativa que criou para crescer. Imaginou que dentro em breve teria uma copa grande e carregada mas ainda era pouco mais que caule novo e não parecia que nada mudaria assim, tão cedo. E não mudou. Até que, ouvindo de novo o sopro de brisa que anuncia mudança de ares e traz a melodia da voz que cria,  rompeu com alegria o solo, subiu pelas paredes batidas e lá de cima do muro viu um novo raio de sol que nascia. Sorrindo, para ela prometia um horizonte amarelo brilhante que tinha tudo para ser um futuro de belos frutos. Era só cultivar. E voar.