sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

No natal


Tenho medo do papai noel, bebo muito espumante, como além da conta em uma tentativa gulosa de agradecer pela prosperidade de uma mesa cheia. No natal eu abraço mais as pessoas apesar de não gostar muito desse contato tão pessoal. No natal eu fico triste com tanta propaganda na tv anunciando coisas que ninguém precisa como se fossem essencial para a vida delas. Às vezes são e eu que não estou vivendo direito. Vai saber! Também não me agradam aquele mundo de luzinhas nas ruas, nas casas, nas árvores (pobres árvores, nem consultadas se poderiam servir de pisca pisca). A Dilma tentando reduzir nossa conta e chega o natal para estragar tudo. Mas o povo gosta né. Pelo menos pensa que. O legal do natal, para essa que vos escreve, é a reunião de família. O chato é que sempre tem o brigado e parece que a ausência dele é maior nessa época. Mas passa. E depois da ceia fica todo mundo com aquela cara de "fim de ano pois é". Outro vem aí. E a gente tem muito para andar. E a gente pensa nos que podem não estar mais aqui. E para onde eles vão, quando forem. A gente fica sem saber. Por isso o natal deixa todo mundo com essa cara de pensador melancólico. Deve ser porque é perto do fim do ano. Como se o nascer e por do sol tivesse fim. No natal eu penso que deveria talvez me mudar para o Polo Sul numa tentativa desesperada de fugir do natal. Resumindo, eu detesto natal. Pelo menos decretaram feriado. Sejam quais forem seus motivos, o bom convívio me manda desejar feliz natal. Bom, feliz todos os dias para você. 

Marina Costa

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guarda Roupa



Já diz Pessoa que chega uma hora em que aquelas roupas usadas, surradas, com a forma do corpo precisam ser deixadas de lado. Pessoa, do alto de toda sua sabedoria, te pergunto se você foi capaz de deixar aquela camisa velha, macia, quase companheira, das noites de preguiça, de despreocupação, de relaxamento. Questiono se você foi capaz de abandonar aquela calça certa, bonita, que te deixava diferente no meio de um monte de gente parecida. Como, Fernando querido, como fazer isso, sem sentir falta do contato do tecido na pele, do fácil achar na gaveta sem nem mesmo olhar, da certeza do que vestir, seja lá qual a ocasião...
Entendo a necessidade do conselho que você dá. Mas ensina a deixar ir sem sentir que se vai junto com o retalho uma parte de mim . Sem lamentar pela beleza da roupa que talvez nunca mais apareça em outra moda...
Desapegar desassossega a gente, Pessoa. Quisera Deus que não crêssemos no futuro. Daí ia ser uma tranquilidade só viver e deixar morrer.


Marina Costa

domingo, 18 de novembro de 2012

Minimalismo


Pois e então que de manhã eu acordo assim, meio que com dó de mim.
Espano o pó dos olhos secos. Inspiro e sopro bufando o ar frio e parado ao meu redor.
Já é tempo de um novo sorriso, me diz a parede.
Café quente. Gato mia. Chuva a respingar.

A vida não vai esperar o findar do meu infinito pensar.

Marina Costa

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre como amolecer com pedras


A moça na ponte, joga pedrinhas no lago para fazê-las quicar. Arremesa com jeito, a mão meio torta para tentar mandá-las ainda mais longe e fazer ondas ainda maiores. Seu bolso vai cheio de cascalho e sua cabeça de ideias tristes. A moça, ao atirar as pedras imagina lançar longe seus problemas e decepções. E assim, ela passa a tarde melancólica sob aquela ponte, a devanear.


Chateada, desamparada, ela olha para os lados do problema... e só consegue ver dois: o de dentro, caótico, e o de fora, solitário. O lago poderia ser todo tomado pelos seus arremessos mas ela tem a impressão de que nunca achará um motivo para deixar de se perturbar. São essas coisas do coração que pensou nunca iriam lhe afetar.

Até que chega um guarda, com muita cara de duende do carvalho, e lhe diz que ela não pode jogar pedras ali, pois afasta os peixes dourados. Epifania! Quando ela atira suas pedras chatas, ela afasta o brilho alheio! É isso! De repente, de círculo ela passa a ver um hexágono! E os outros lados, não amassados, são tão simetricamente belos que ela se ilumina.

Saltitante, ela beija o guarda e desanda a correr pela mata. Passam flores, passam pássaros, vai se o sol das seis da tarde. Em seus últimos e fracos raios ele dissolve no rosto dela as últimas rugas de incerteza. Ela corre sorrindo.

Toca a campainha, com o coração aos pulos. Ele não está. Roda nos calcanhares, chateada por um milésimo. Se lembra das pedras e da promessa a si mesma de que não mais iria atirá-las. Optou então pelo sorvete de gengibre na cafeteria da esquina. E quem sabe encontrar um belo livro no sebo ao lado.

Marina Costa

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Daemos Nos

 
Aperta o coração saber que posso acordar e não ouvir seu bom dia, um dia. Dá um nó na garganta ouvir um "hoje não posso" e tentar frear toda espécie de perversão que passa agora pela minha cabeça sobre esse seu não poder. Dói o estômago não saber o que você faz agora enquanto eu deixo meus afazeres para tentar imaginar. E me canso, até os ossos, de pensar em você, conjecturar sobre você, planejar coisas com você, tentando descobrir se você vai estar sempre aqui ou se eu vou conseguir ficar...
 

Esse círculo quebrado que me mantêm em seu interior se tornou um mundo, partido, onde piso em cacos e choro vidro. Quando  acontece de subir o sol sobre esses pedaços espalhados, ah, como eu sorrio, e como me sinto em paz no teu colo quente. Por isso que sempre guardo a mala no armário. Também por isso que penso em fazê-la todos os dias.

Não é culpa sua. Minha, menos ainda. É meu constante pensar que me dá essa inconstância toda. Talvez eu seja só mais uma dessas pessoas que acham pecado ser feliz e preferem o mártiro diário. Te coloco como mártir. Me coloco como vítima. Ou eu sou a heróina redentora de tua humana sina. E prendo a testa no muro das lamentações na esperança de que um Deus piedoso me ouça e me dê o que peço. Te ilumine ou me faça mais madre Teresa.

Coitado de Deus, com meus pedidos obscuros. Com nossos ideais tortos. Ele faz bem em passear pelo campo ao invés de me ouvir. E eu faço bem em ir cuidar da vida que deixo de lado para pensar nos problemas que a bem da verdade, nem sei se tenho.



Marina Costa





terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Bruxa foi solta

 

 
Ela está aí, escondida na sua mãe quando ela te liga no exato momento antes de você fazer aquela besteira mal influenciada pelo amigo que ela nunca gostou. Está de mãos dadas com sua avó, que recebe sua visita surpresa te presenteando com o seu bolo de ameixa favorito, e nem época de ameixa é. A bruxa está no seu armário e pula para fora na hora em que você finalmente decide não receber mais as flores daquele babaca que sempre te apronta uma. A bruxa está solta quando você e suas amigas gargalham noite a dentro, achando que o mundo pode acabar em tequila e fofoca que para vocês está tudo é muito bom. Podem queimar, jogar pedra, procurar sinal do diabo. Podem colocar sal na porta da sala e lanterna na abóbora para iluminar a escuridão que dizem vir com elas. Mas nada vai parar essa revoada feminina que desde que o mundo é mundo se espalha noite a fora, haja Lua ou faça Sol. Mais dia menos dia a bruxa vem, para te lembrar que toda mulher plena, que todo olhar de ressaca, que todo sorriso de Monalisa hora ou outra vai despontar no rosto daquela sua feiticeira favorita, mostrando porque em tempos menos esclarecidos jogaram na fogueira nossa imagem divina, tentativa inútil de sufocar esse incrivelmente fantástico poder de criação.
 
Marina Costa
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Notícias



A nuvem cinzenta refletida nos olhos verdes divergia do sorriso claro e resplandecente. No peito irradiava um calor de aconchego, que se espalhava pelo corpo inteiro e explodia nas pontas dos dedos, tocando com amor um pedaço de papel. De longe se via naquelas mãos um misto de saudade e bem querer. Sabe-se lá como, despertados e despertos pelo desconhecido que em poucas horas de convívio tornou-se tão necessário. Troca de ideias e ideais, gostos, temores e amores. Foi assim que ficaram conhecendo o que nem eles mesmos sabiam. Há limites entre eles que como muros negros se impõem. Separados por milhas e milhas de terra, rocha. Longa distância percorrida todos os dias graças a modernidade da fibra ótica que faz traduzir as palavras escritas em sussurros sentidos e beijos de pé de ouvido. Assim foi até a tarde em que ele recebeu aquele bilhete, ali do início da história. Um papel brilhante e amarelo que trazia notícias do lado de cá. Causando alegria pela doçura da escrita e pela emoção do dizer. Eram poucas linhas, na verdade. Eu te amo, e estou indo te ver.

Marina Costa

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Porquê não?



O anúncio abaixo, apesar de fora do contexto, foi publicado em uma revista de automóveis, graças a criatividade da leitora:

“Eu não sou um avião. Mas também não sou um calhambeque aposentado. Estou mais para uma caminhonete 1.8. Compacta, acelarada, firme e com muita bagagem. Intelectual, obviamente. Por isso estou aqui a sua procura. Você, um jipe de estrada, acostumado a solidão de quem é incompreendido. Você que acampa com sua lona em qualquer vale gramado só para ver a lua nascer. Estou procurando sua conversa sobre astronomia, seu desprezo pela astrologia, sua admiração pelas rochas milenares e sua vontade de abrir asas sobre o mundo. Quero partilhar da sua estante literária e de um cantinho na sua mala para juntos gastarmos muita sola de sapato. Quem sabe, enquanto troca um pneu furado na estrada, te fazer uma massagem na nuca ou rir da sua condição de macho dominantemente mecânico. Em resumo, eu não quero alguém que só pense na troca de óleo, desprezando a categoria do motor. Preciso de um admirador de engrenagens. E, junto com ele, uma vontade gigante de fazer o resto do mundo comer poeira.”

 Dias depois, foi respondido. Não por um jipeiro, como era a pretensão. Mas por uma experiente motoqueira de trilhas.

Marina Costa

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Seiva




Houve, na história que ainda não terminou, tempos de abundante fartura. Era tanto e dado de tão bom grado que parecia que jamais faltaria, por mais que continuasse aquele esbanjar orgulhoso de quem recebe mais do que pede. Faltou sabedoria para entender que a vida não é uma corrente de ida só. E foi assim que um dia por motivos muitos, justos e não, o que antes transbordava pleno e claro começou a minguar, adoecido. De torrente forte e contínua passou a um gotejar oscilante, ameaçando afogar o que antes nutria.Assim brotou o desesperou na fonte rasa que gritava e nem todas as nascentes do mundo entenderiam como era para ela necessária que aquela fluência não se extinguisse. Não terminasse. Percebeu-se que a taça, antes sempre vazia, estava meio cheia e não era mais possível permitir que aquele líquido secasse. Pois se fez tanta coisa florir... Inundou tanto sentimento seco... Alimentou choro e risada como pão nenhum poderia... E haveria agora de morrer? A fração mínima que hoje ainda existe é encorajada com verdade e contrição. Há esperanças de que volte a correr, volumosa como o rio farto de outrora. Há sonhos ainda a regar. Vida a nascer. Sempre há.

Marina Costa

domingo, 30 de setembro de 2012

Dialogismo


Os diálogos circundam a luz ofuscante do néon, se misturam à fumaça de tabaco, aos hálitos refrescados pelo álcool e saem embriagados pela janela. Na rua, rodeiam outras conversas, vindas de leito raivoso que sofreu o embuste da falsa adoração. Andando juntos e se encarando, encontram pela noite os gritos alegres da mendicância do submundo, feliz com um simples prato de comida. E olhando de canto de olho, percebem as lamúrias das mulheres descontentes sem motivo, as perguntas das crianças incompreendidas sem idade e os lamentos de todos nós, perdidos em nossa incapacidade de comunicação. Acima de todas essas falas, mal ou bem ditas, lutando contra toda essa memória escorrida vem os sorrisos silenciosos de aceitação. Opinião é veste ajustável a cada corpo, seja magro ou gordo. Ideia é guarda chuva que cobre deixando respingar. Argumento é botina cansada que por vezes se rasga machucando o dedão. O que não pode é fechar a boca e deixar apertar o coração. Porque o dizer deve ser dito, o sentimento exprimido e o homem humano deve estender a mão para construir, com muito entendimento desentendido, um mundo claro e raso de compreensão.

Marina Costa

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Duas pombas tem ideias


A juventude transviada, a promessa de uma liberdade libertina são formas quase extintas de viver a vida. O "se dar bem na vida" carrega uma maldição de responsabilidades inevitáveis para que a trindade adorada estudo-trabalho-relacionamento seja assim na prática tão maravilhosa como proclama a teoria. Considero uma utopia, discorde. Cedo, e hoje mais do que nunca, é colégio integral, escola de inglês, natação e tênis. Férias, cursinho de línguas, para aperfeiçoar. Intercâmbio, para divertir é que não dá. Há tanto museu e cultura para agregar. Faculdade, vestibular, agora começa a diversão prometida. Mas são listas e listas de exercícios para treinar nossa vã filosofia. Semana de provas, trabalho final, e os finais de semana floridos ficam protegidos pelo vidro da janela. Aqui dentro, estudo e silêncio. Nem moscas voam. Até elas se aborrecem com tanto teorema. Formatura, uma noite de diversão com os amigos em um baile de gala para comemorar quatro anos de privação. Em prol do conhecimento. E de um contra cheque gordo. Com ele, é possível fazer o tão sonhado casamento. Comprar o sítio de final de semana. Acumular garrafas de bebidas importadas, no bar que os amigos poucos visitam para fazer um happy hour entre uma semana e outra de mesmice. Agora sim, estabilidade para curtir a vida. Na hora em que o choro do filho parar de correr. Ou que o cachorro desistir de comer os sapatos e tentar te enlouquecer. Ou quando a preocupação com tantos gastos descer pelo ralo. E antes que se perceba, veio a aposentadoria. Como uma mulher sedutora, que abana um lenço branco, promessa de calmaria. E quando se está para tocar nessa pedra filosofal eis que toca a campainha, descem do carro os netos infantes e começa a barulheira, a trabalheira, as férias em família. A correria se dá casa a dentro e nos olhos dela há um reflexo melancólico de lembranças empoeiradas. Parece que pela sua cabeça passam alguns momentos que não foram vividos. Tenho quase certeza que ela se pergunta e se responde, num suspiro, que no final das contas, é a vida. Ficou tarde demais para ser irresponsável novamente. É melhor por o bolo para assar.

Marina Costa

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Repasto



Acordando de manhã, um pouco sonolenta, em mangas de camisa e descalços pés pequenos, ela entreviu, deliciada, aquela fumacinha faceira que saía da cozinha... Já sentia de antemão uma quentura gostosa se espalhando pelo corpo, dessas que só quitute de vovó na infância era capaz de provocar!  Lembrando da noite anterior a boca enchia de água, só de pensar! Fechando os olhos ela experimentava outra vez a textura, o sabor, o enebriante perfume apetitoso... Era alguma coisa entre baunilha com creme, salpicado de canela e cereja fresca com queijo brie derretido. Podia ainda parecer com castanhas em chocolate cremoso, cobrindo abundante um bolo de coco! Uma explosão de sensações, era isso o que ele era. Naquele avental então, sorrindo com a xícara fumegante na mão, era um deleite sem fim, banquete farto para os olhos famintos dela! Bom dia meu amor! Volta e vem deitar aqui comigo mais um pouquinho, que minha fome ainda não passou...

sábado, 1 de setembro de 2012

Havia entre todos um Etos luxurioso



- Mulher infame, é isso que ela é! Meu amigo nem bem desceu à cova e lá está ela, a balouçar sua falsa cabeleira dourada em antros como aquele…

- Bom, sabe-se desde da suntuosa cerimônia unindo a ambos, que eles representavam. Ele pouco homem e ela pouco nobre. Não sei como defende com tanto vigor seu amigo, que em vida tão pouca moral tinha. Escolheu com quem se casou, de qualquer forma. Uma mulher sem berço, que cheirava a golpe do baú e perfume nacional…

-Cale-se você também! Ele foi pressionado, sabe bem disso. Lhe contei toda a história, considerando a cumplicidade da partilha do meu leito e de tratar-se ele de meu amigo de infância.

- Querido, convenhamos, e ao partilhar seu leito, creio ter a liberdade de poder tolher sua saudosa e inventiva memória: você o detestava e o chamava de ouriço afeminado até que ele o convidou para sócio num empreendimento megalomaníaco absurdo como ambos, que resultou nesta sólida e milionária amizade feliz.

- Você é uma mulher asquerosa, sabia? Vira-se contra mim para defender a honra de uma meretriz desprovida de nascimento. O que deseja de mim? Posses e enterro, como ela, para andarem juntas a esbanjar o que o trabalho não lhes deu?

- Não, meu caro. Isso tudo faço com você bem vivo e certa de que de onde eu tiro você colocará mais. Na qualidade de sua companheira, apenas faço abrir-lhe os ouvidos às suas próprias asneiras, tentando lhe mostrar que é feito do mesmo barro podre que os sem escrúpulos ou falsa moral. Vá por mim, que nessa arte sou mestre: saiba quem você é para poder representar quando o mundo descobrir.

Ele, estarrecido, cuspiu o charuto na tapeçaria e saiu bufando e pisando duro pelo chão de mármore branco.

Ela, satisfeita, lançou sobre o pescoço a seda que caia ao colo e sorriu para o pequeno chiuaua no sofá carmim.

- Humanos, meu pequeno – ensinava outra moral ao cão – quanto mais vastos em seus devaneios gloriosos, mais devorados pelos vermes da luxúria em suas almas vendidas. Lembre-se bem disso.

Ele latiu, como se anuisse. Sairam para a cozinha, a buscar cupcakes.

Marina Costa

sábado, 18 de agosto de 2012

Conscientia Sceleris


Todo o júri olhava, atordoado, a figura frágil monstruosamente transformada pelo promotor. O juiz, com a mão sobre os olhos, sacudia a cabeça ante o tamanho da acusação. A platéia, atônita como toda boa platéia, aguardava com água na boca o pronunciamento daquela que os jornais passaram a chamar de "viuvíbora". Sentença máxima, gritavam todos os olhos, sedentos de circo. E ela, a ré, ainda menor do que parecia ante a ostentação daquele tribunal, fixava firmemente o sol pela janela, que nesse momento se punha, banhando de laranja toda a sala de julgamento. Quando finalmente, após um longo gole d'água o nervoso meritíssimo permitiu que ela desse seu depoimento, a ré levantou-se, alisou a saia cinza, ajeitou os óculos sobre o nariz e esboçou um sorriso, doce como a brisa que adentrou ao recinto. Confesso que amei. Foi tudo o que se ouviu de seus lábios ternamente rosados. Então ela caiu.

Marina Costa

terça-feira, 31 de julho de 2012

Sublimação


Só, no meio da rua deserta,  ela pingava da raiz do cabelo aos pés, típico pinto molhado da nossa imaginação chuvosa. A noite desceu fria, pintando de azul profundo o céu antes alaranjadamente ensolarado. Não haviam estrelas dessa vez. A lua também se retirou, entristecida. Era ela, os pingos, e o escuro que chegou. O vento não susurruva e o barulho único e denso era o plic plic no asfalto. Imóvel, durante as longas horas em que não pode falar, ela aguardou o outro dia, que sabia, sempre nascia. E nasceu. O sol levantou, abrasadoramente intolerante. Já se ergueu majestoso e brilhante, queimando pés e plantas que não dispunham do aconchego de uma sombra. E a pegou, ali no meio da rua deserta, bem prevenida. Ela sorriu. E em poucos minutos, não passava de uma leve fumacinha branca, que subia nuvens acima. Diluída em seu novo estado, pensava em onde iria se condensar dessa vez. Ou se pararia de chover no molhado. Talvez seja uma boa vida, essa de voar com leveza sem se aprisionar em formas pobremente definidas.

Marina Costa

domingo, 15 de julho de 2012

Noturno Urgir


A campanhia soa sem parar casa a dentro. É um fluxo ininterrupto de aflição. No sexto toque da quarta ligação a esperança de ouvir um alô já há muito se esvaiu... Mas algo ainda mais obstinado retem o fone junto a orelha. Pode ser fé. Talvez teimosia. E antes que a voz metálica lance outra vez a maldição da caixa postal, uma voz longe, sonolenta e meio rouca atende. Oi amor - alívio. Oi - comoção. Que foi, me ligando essa hora? - apreensivo. Eu só precisava ouvir você - emoção.

Marina Costa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ana Gógica



Escorre, morna e ácida, pelo rosto de porcelana. Ela não vive, mas chora. Não ouve, mas se apavora com os gritos dos que tudo pedem sem doar. Não pode ver a miséria com seus olhos de vidro, mas sente a dor dos outros em seu coração de pano. Ela é uma boneca e tem seu destino atrelado a beleza que nunca vai morrer nem secar. Aos elogios que nunca vão mudar e ao tempo que não passando, vai se transformar na mesma rotina infinita e perturbadora. Insana. A vida sem morte não passa de quadro, ironicamente, paisagem morta. Se não há quem vai, não tem quem chega e o dia é sempre o mesmo, depois do outro e sem amanhã. Ela é uma boneca, de boca pintada e cílios salientes. Ela só deseja cair da prateleira e se quebrar em mil caquinhos. Quem sabe, uma mão honesta vai lhe colar os pedaços. E uma fada azul vai brandir sobre ela a varinha, deixando que as horas passem, as rugas apareçam e com elas o amor que lapida com dor mas edifica com sabedoria, como só ele sabe fazer.

Marina Costa

sábado, 30 de junho de 2012

Mimo


Quando o sol se põe no peitoril da janela alta o sorriso clareia a face dela, que mal pode esperar para ver o último raio sumir no céu. Corre ao espelho e coloca no lugar a mecha que insiste em disfarçar o olhar brilhante. Passa nos lábios um brilho com cheiro de pêssego e deixa no armário o cachecol, herança da avó. Parte em busca de calor de gente, que já passa da hora de ter. Corre contra o tempo, contra os carros, contra a saudade que invade o peito durante cada hora do dia cheio. Chega ao prédio onde ele vive, escondido em seu canto colorido, tal qual mimo gracioso em prateleira de mágicos amores… Nas escadas, já sente as pernas bambas de alegria, o coração chacoalhando de ansiedade e a boca rindo meio besta de tanta satisfação. Toca a campainha e espera, em desespero feliz! Silêncio. Pisca e entorta um pouco a cabeça, na esperança de que o movimento anuncie sua presença ansiosa. Silêncio. Ao levar a mão trêmula para tentar mais uma vez, ouve o trinco rangir e vê pela fresta fina a silhueta que tanto anseia. Não há como descrever aqui o deleite sentido e encerra-se nesse ponto a descrição desse encontro diário. Mas posso ainda ressaltar que o abraço que partilham ali é sentido por muitos amantes e perdura por muitas vidas.

Marina Costa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Entardecida


A luz laranja do entardecer entra sutil pela janela semi aberta da sala. Ilumina o livro melancólico esquecido sobre o aparador e lança raios dourados sobre uma cabeça baixa que, silenciosa, pensa sobre a morte. Sobre como o corpo outrora belo e jovem, fenece e como o sorriso claro de ontem, a gargalhada estridente sempre ouvida se anulam e se transformam em boca silenciosa e pálida, seiva ausente e seca. Sem encontrar justificativas ou mesmo razões divinas, cai em devaneios mais e mais negros, à medida que avança o dia. Extinguem-se as horas. Com pouco o sol finda e a brisa da noite iminente esfria os ombros magros e nus, cansados de tanta memória. Cai a lágrima que lamenta a perda. Desaba o pranto que tanto teme o fim.

Marina Costa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Insosso

Marina Costa

O plim da máquina de escrever era ouvido a cada 5 minutos de batidas frenéticas nas teclas velhas. Ele se recusava a usar o computador. A modernidade que tudo acelera aumenta o ócio e o tempo onde se instala o tédio, dizia sério sob a haste grossa dos óculos. Os colegas riam dele. Entretanto era o único que não matava 2 horas de trabalho ao lado do cafezinho conversando balelas há muito já discutidas.

Era do tipo que ia do serviço para casa, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha para o quarto que se resumia em uma cama de solteiro e escrivaninha. Sob a mesa, papel e caneta. Passava horas a descrever lugares onde nunca esteve. Provavelmente onde jamais iria. O salário mal cobria o aluguel e as despesas daquele casebre, imagine uma viagem para o estrangeiro. E sua força de vontade bastava apenas para as tarefas essencias de sobrevivência. Trabalhar, comer, manter-se alinhado e distribuir distraídos bons dias. Contudo tinha sua imaginação, o que entretia e não gerava despesa. Escrevia, relatava, criava diálogos em línguas desconhecidas, por vezes até desenhava estruturas arquitetônicas inimaginadas. E ao cansar dos olhos e dos dedos respingados de tinta, se arrastava até os velhos lençóis e dormia. Sem sonhos.

o despertador, certo como a luz do dia, o libertava da imobilidade cadavérica do sono. Do quarto para a cozinha, molhar o estômago com pão velho e café quente, pelo menos. Da cozinha para o banheiro, daí para a sala e por fim a rua pelo caminho bem conhecido. Outro dia como todos.

O plim da máquina de escrever foi ouvido ainda por anos a fio. Até que veio o maior dos grilhões disfarçado de alforria. Aposentadoria. Aposentou-se o senhor antiquado. Ninguém em seu lugar e o trabalho a aumentar foi o único motivo para, vez ou outra, citarem sua falta. A máquina que usava virou peça empoeirada de almoxarifado. O caminho diário agora não passava mais pela porta da rua. Da sala para a cozinha então para o banheiro daí para o quarto e de novo a sala. Um constante volitar de passos cegos. De histórias inverossíveis em lugares incertos. Era a pachorra de um homem que virava as costas à vida. Era a morte de um velho que, insosso, terminava seus dias.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sereníssima



(Clara referência ao poeta da geração).


Marina Costa

Apegada a pouco ou quase nada. Somente ao material, praticamente. Ao que lê, ao que ouve, ao que bate asas coloridas. Ao vento que sopra nas pedras cantantes. E tudo cabe dentro da mala. Bem embalado, para não se partir. Afinal, existe o apego.

Calma como um vulcão adormecido. E não desejo para ninguém o jorro voraz do seu lamento. Branda frente a turbulência dos desejos alheios. Indiferente mostra a face que esconde pavor do anseio.

Andarilha do mundo, pisando em tortas ideias arremessadas pelos coerentes como entulho inútil. Sob elas se mantem em equilíbrio. Por amor a elas, se contradiz e se perde em paradoxos incompreensiveis do viver. Mas se hoje passa um, amanhã alguém poderá entender. Outro dia, quem sabe.

Sonha enquanto acorda, dorme enquanto sonha e no embalar do sono solto tenta entender o que tanto pedem, o que tanto julgam, o que tanto tudo. Olha alheia. E não entende porque ninguém quer ser, como ela, platéia. Só pensam nas estrelas. Longe e frias. Fica perto.

Não fala, não argumenta, não diz, não inventa, ao léu joga palavras, para quem quiser que intente. Não pode contar o que não sabe. Nem aumenta. Não responde a anelos cheios com realidades meias. Não as tem, ela. Não as tira, de súbito, do esgoto de uma ruela. E por isso (des)arma os punhos. Ouve, impassível. A cabeça meneia. Permanece, se querem. Apenas na presença que traduz-se, acredita.

Chega a noite, passa o dia, sob a lua que irradia, tira do sol o brilho para morrer no poente laranja. Quente e longíquo, como promessas. São só promessas. Mas, reconhece, belas. Serena o mundo, no colo escuro da madrugada que renova as ânsias cansadas e eternas do mundo que fica e fica para ficar sempre. É redemoinho, todas essas vontades juntas. É labirinto, tanto querer sem precisão. É choro, lágrima e sorriso num mesmo rosto ressequido esperando se não mais, um outro, diferente, para tentar decifrar o igual que ninguém sente. Ou sabe se sente. É calma em meio à certeza do turbilhão. É desilusão consentida e aceita, de bom grado. Serena.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Peregrina


Perdida no meio do cruzamento ela carregava além do bloco de notas, um mapa surrado que lia de cabeça para baixo. Um transeunte riu. Ela, divertida, deu de ombros, abaixou os óculos de sol e seguiu para a esquerda fazendo da lata de lixo uma cesta de basquete, onde enterrou o mapa limitador. O sol ia alto, o ar estava fresco e a sola do sapato, apesar de gasta, agarrava-se firme àquele chão por desbravar. Metros depois de muita fachada imponente e nativos apressados ela sentou-se em uma praça, com um sorvete de morango nas mãos. Ali chamavam de outro nome. Mas o gosto era o mesmo, em qualquer lugar do mundo. Assim como o brilho da vida pulsante. Como a alegria das crianças no chafariz. Como a malandragem do moleque na esquina. O mundo, pensava sorrindo, é mesmo um lugar só. E lembrando de súbito que era um lugar grande demais, levantou-se de um salto do banco, acenou para um cachorro peludo e dirigiu-se ao desconhecido, único lugar onde se sentia em casa.

Marina Costa

domingo, 25 de março de 2012

Aprisco


Ao se deitar ela ouviu o trovoar que anunciava uma assustadora tempestade. Era tamanho o barulho que parecia querer lavar o mundo ou quem sabe recriar o dilúvio. Batia na vidraça, provocando grandes gotas que escorriam densas. No aconchego da sua cama quente, no calor do seu corpo envolto em flanela nova, ela sorriu e fechou os olhos, ressonando. Rezou da forma que sabia. Grata pelo conforto de sua casa pequena, pelo amor de seu homem presente e pelo o ar que a vida lhe permitia respirar. Estranhamente teve a certeza de que era tudo. Quase adormecendo se viu na janela, sentada a olhar para a noite escura. Haviam estrelas. Olhando para fora, enxergou a si mesma mais uma vez, andando por um caminho gramado e enluarado. Usava branco. Mal tocava o chão. Parecia não existir. Éterica. Bela e infantil, harmoniosa como a brisa fresca. Era um sonho, percebeu. E olhando para trás, para si mesma na janela que via a si mesma no leito, abanou a mão em despedida. Nunca mais despertou. O choro correu, o corpo desceu ao escuro da cova recente e ali descansou. A alma se libertou e passou a vagar pelas pradarias dos sonhos dos outros. Porque, na verdade, ela estava de volta a seu lar. Corria pelos campos verdes sob o sol da tarde, enquanto sua Mãe, do céu, lhe sorria feliz. Era a filha que voltara.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Inspiração


Marina Costa

     O autor suspirou. Espreguiçou-se. Estalou os dedos e colocou as mãos cruzadas atrás da nuca. Empurrou a cadeira de rodinhas e se recostou de forma que pudesse enxergar as formigas que andavam na borda da luminária de seu escritório. Cinco minutos se passaram. Dez e nada. Nem um pingo de inspiração. Sua mente estava tal qual a folha na sua frente, completamente em branco. Resignado, se levantou. Olhou desconsolado para o cesto, repleto de papéis embolados. Correu os olhos pelas estantes, repletas de primeiras edições - era ele um fanático pelas primeiras edições - e tentou tirar dali alguma idéia, alguma luz, um mísero lampejo de brilhantismo. Mas quem disse. Ficou foi irritado em pensar em como milhares de escritores podiam produzir vários best-sellers durante a vida e ele não conseguia nem mesmo fazer sua crônica semanal. Saiu da sala e bateu a porta.
     Na cozinha, procurou em vão um copo limpo. Na ânsia de achar o fio da meda se esqueceu da própria casa e agora tomava café nas tigelas de cereal. A última limpa se fora esta manhã e ele, desolado, pegou seu casaco e foi até a padaria da esquina.
     Lá fora fazia frio. Ele gostava desse tempo, quando o nariz e as orelhas ficavam gelados com o ventinho que bate no rosto. Aconchegou-se satisfeito no casaco pesado, lembrando de que normalmente produzia mais em dias nublados. Menos dessa vez... e não saber o porquê é que mais lhe tirava o sono.
     Sentou-se em sua mesa e esperou a atendente. Ela chegou como sempre, sorrindo. Perguntou se podia trazer o capuccino com chantilly. Ele arrefeceu. Enquanto ela se dirigia à cozinha ele olhou seu rebolado e pensou em escrever um conto pornográfico. Sentiu-se como um viciado que na falta de bebida é flagrado tomando álcool na bomba do posto de gasolina. Virou-se para olhar a rua, pelo vidro. Tudo andava como sempre. Muito trânsito, muita gente, caras irritadas, lojas abertas. Só sua criatividade não era a mesma. E isso era o pior de tudo. O mundo que se danasse, mas ele ficar sem ter o que escrever era, sim, uma catástrofe!
     A atendente trouxe a bebida e ele sorriu, ainda envergonhado de seu último pensamento. Agradeceu e tentou ler o jornal que estava na mesa. Notícias de hoje, com cara de ontem e informações de todos os dias: atentados, assassinatos, corrupção. Pensou em suas crônicas e viu que elas também estavam repletas de informações já exaustivamente exploradas. Decidiu que era hora de mudar. Falaria de nada e diria tudo. Divagaria com a caneta no papel e em meio aos seus devaneios as pessoas se achariam. Sorrindo diriam "ei, esse cara sabe do que preciso!".
     Iria se transformar, da noite para o dia, em uma espécie de guru literário. Nada de misticismo barato. Ele seria mais como um Saramago das montanhas mineiras, mostrando à esse povo que come quieto o real valor das coisas pequenas da vida. Logo após despontar para o sucesso, uma mulher, bonita, morena, de chapéu coco, viria até ele dizendo, trêmula, que o amava desde sua primeira linha, pois ele a entendia como nenhum outro homem jamais poderia. Emocionados, os dois cairiam aos beijos no sofá e no dia seguinte ele estaria confiante o suficiente para se tornar o escritor mais renomado da literatura brasileira...
     A atendente interrompeu seus devaneios perguntando se ele aceitava um croissant. Ele educadamente recusou, lamentando internamente o fato de ela ser loira. Pagou o cappuccino e saiu.
     Antes de voltar para casa viu algumas crianças gritando e correndo, na praça. Sentou-se para observá-las. Não se lembrou de seus tempos de infância e isso o entristeceu. Via, agora, que era a melhor época para se viver: sem preocupações, sem conhecimento da maldade, sem a pressão de ter uma crônica nova e completamente engajada a cada semana que pague seu aluguel de subúrbio. Suspirou pela décima vez naquela manhã. Porém, quando ia deixando o banco, foi atingido por uma bola, que depois de bater em seu ouvido esquerdo, caiu aos seus pés.
     Os garotos olharam em completo silêncio. Ele segurou o ouvido  com a mão e olhou para aqueles meninos. Foi um momento de reconhecimento tenso. Várias coisas se passaram na cabeça de ambos. Estariam os meninos com medo da reação de alguém que foi atingido por uma bola perdida? Será que ele ia xingar e furar o brinquedo com um canivete? Ou chamar o guarda para estragar-lhes a brincadeira?
     Mas quando ele sorriu e chutou a bola de volta, a gritaria facilmente recomeçou. Muitos "obrigado" e "valeu" foram ouvidos por ele. Sentiu-se feliz, pela primeira vez naquela manhã.
     Era isso. Sua próxima criação deveria deixar no leitor o gosto inocente da infância. A sensação boa e gratuita de que a vida é bela e nada mais do que isso. De que todos os dias deveriam ser encarados como uma brincadeira em um quintal ensolarado. A sensação de que uma bolada na cabeça pode ser recebida com um sorriso, para deixar a dor mais leve...
     Voltou para casa pensando em como realizar a sua tarefa. E concluiu que a primeira coisa a fazer ao chegar lá seria pegar certa caixa de lápis de cor, que há uns bons anos não saía do armário do porão.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Ora da Manhã


Marina Costa

Acorda, sol meu, ilumina meu dia. Respira fertilidade sobre meu colo ainda quente. Trabalha meu corpo em busca da harmonia próspera que cabe a ti plantar em mim. Erga-te, luz da vida, retome o controle do mundo com tua força que guia nossa jornada desperta. Abra os olhos, estrela minha, e limpe minhas lágrimas com seus raios. Ou inundarei com pranto nosso cômodo ainda frio e envolverei teu corpo ressonante até que o calor da tua essência viva queime a mim também.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Refluxo



Marina Costa

16:31. Suas pálpebras pareciam de chumbo. Tirou os óculos. Coçou com força os olhos, até sentir lacrimejarem. Repôs os óculos. Apoiou o queixo na mão, que apoiou na mesa, sob o cotovelo. Escorreu e quase bateu a testa na tela. Assustado, olhou para os lados. Ninguém fez sinal de chacota. Se recompôs. Abriu novo arquivo. Nem o sistema colaborava, tudo lento, lento, leeeeento... zzz... zzz... Acordou com o próprio ronco. Coração disparado, limpou a baba na manga da camisa. Não poderia ficar ali. Levantou. Tomou um gole de café frio. E mais um. 16:38. Segunda interminável. Olhou pela janela. Imaginou-se pulando. Deitado, olhos fechados, ressonando, que delícia! Quando viu, a xícara já tinha caído. Despistado, conferiu se alguém tinha sido acidentalmente acertado. Parece que estava livre dessa. Voltou. Sentou. 16:41. Não aguentou. Escondeu-se no almoxarifado. E lá ficou, entre pilhas de papel e cartuchos de tinta, até às 8 horas do outro dia. Nunca dormiu tão bem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Velha Folia


Marina Costa

Confete, serpentina e como em todos os anos o velho corpete de tia Dina.Todo carnaval era a mesma coisa. O batom ficava mais vermelho, o olhar mais brilhante e na quarta de cinzas tudo morria, ela voltava para o quartinho, sem sorrisos, sem aviso. Era uma história de família. A justificativa para Tia Dina, a Louca, viver a cantar marchinhas. Uma desilusão. Um amor que nunca vingou, uma ideia mirabolante, um sonho sem final feliz. Curiosa, certo dia perguntei para ela como foram suas primaveras. E ela me contou, receosa e tímida, que certa noite de ano novo, foi pedida em matrimônio, assim, somente pelo olhar. A cerimônia, secreta, se daria na terça de carnaval sob as bençãos do frei, cúmplice e primo. Tudo acertado, transbordante de júbilo, deitou-se com seu amado, para selar o laço conjugal. Ele a deixou com um beijo na testa e uma promessa de retorno. E até hoje ela espera, pois sabe que ele é honrado e leal. As mulheres, minha menina, sentem tal caráter, disse-me ela. Ele virá buscar-me antes do próximo carnaval, para enfim vivermos a vida de fantasia sonhada desde a primeira vez que o vi… Eu fiz cara de descrente, de quem não dá a mínima para o embuste dos contos de fadas. E ela, pobre desacreditada, abaixou a cabeça chateada e começou a cantar enquanto olhava através da vidraça: “Não devemos nos separar, Não vá me deixar, Por favor, Que saudade, É cruel, Quando existe amor…”!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Torvelinha

Crédito da imagem: Escultura "Knee Hug" de Jo Jones - http://www.jojones.net/index.php

Marina Costa

No sopé da colina, abraçada aos joelhos, ela olhava o sol que descia. Pés descalços na grama, cabelo solto no rosto e ideias longe, seguindo por uma trilha que parecia sem fim. No fundo da mente, ouvia um eco que insistia em não morrer. Longe assim. Assim. Im. Junto uma imagem pausada, um sorriso endurecido, uma despedida fria e a certeza de que a falta de jeito mandou embora alguém que não deveria ter vindo. Sofria sorrindo pela conquista abandonada. No íntimo, tão junto de si, podia confessar que foi melhor. Sem amarras, andaria por onde quisesse a partir de então. Todos os fins de tarde seriam seus. Suas palavras jamais contestadas, suas mãos soltas para sentir o vento entre os dedos. Suspirava, sem saber ao certo se de alívio ou de apreensão. Pensando bem, e pensava, não tinha tanta certeza de querer para si o peso de toda a melancolia do pôr do sol. Todos os dias! E não conseguia traçar, assim tão facilmente, um caminho por onde pudesse andar completamente só. Haveria escuridão. Isso dava medo! Incerteza! Quem seria a mão para segurar no escuro? Um sorriso de incentivo, às vezes, até que tinha seu valor, reconhecia. Mas, vá lá; sacudindo a cabeça afastava o comodismo. Afinal com pedras e paus sempre poderia fazer seu próprio fogo. E nunca faltaria quem atirasse as tais pedras. Superar. Poderia tentar encontrar o gato da própria Alice. E rir com ele. Dormir sob estrelas, sem ouvir que poderia se resfriar. O país das maravilhas estava aberto. Era só tirar o passado da mente e abrir as asas para ganhar tal presente!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Encarquilhado


Crédito da imagem: Conall McCaughey - http://www.flickr.com/people/16176711@N02/
Marina Costa
  
Abaixado e comprimido entre dois tocos secos de árvore, o velho senhor olhava o mundo ressentido. Dobrado como um galho murcho, esfarrapado como um pano de chão, em sua íris refletia o sol claro e aberto da manhã que ardia nova. Ele sempre desejou ser como o sol. Expandir mãos e braços, respirar a plenos pulmões, plantar na terra os dedos dos pés como se fossem raízes firmes. Mas seu sonho de expansão sempre foi tolhido pelas vozes que ouviu desde a infância dolorida. Monstro medonho. Criatura abominável. Terrível anormal. Acostumou-se a elas a ponto de não mais senti-las e poder olhar com indiferença a boca venenosa que as atirava. Conformou-se em crescer para o chão, ressentido e ressequido, como quis a vida. Encarquilhado, como ouviu um homem belo e imponente dizer entre risadas, durante certa exibição. Contudo, jamais deixaria de olhar o sol, desde que aquela boa mulher, a única entre muitas, lhe dissera ser para todos. As lágrimas que sempre escorriam ao nascer do dia, molhavam seus pés com a doçura de seu coração. Ao morrer, a semente que ficasse floresceria em algum futuro longíquo, em campos de beleza. Não beleza de pétalas ou reta envergadura de tronco. Beleza como a que cultivava dentro de si. De perdão e compaixão pelos que enxergam apenas o que os olhos procuram ver. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Estertor

 
Marina Costa

A vida dá voltas, uma hora, seja porque a gente ora mesmo quando ignora. Se um dia manda embora, no outro quase implora e prefere dos males o maior a ficar a deriva, sem leme e sem timão. Sorrisos falsifica e enterra em mentiras o pedaço de coração. Descrente, impaciente, ausente, clama por não ter mais um ídolo falso por quem chorar. Felicidade viscosa e asfixiante. Mas que acontece agora. Agora.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Desapreço



Marina Costa

Puxou nas costas o fecho e alisou o corpo, levantando os seios morenos por trás do vermelho profundo e infinito do vestido pouco. Do tornozelo às coxas as mãos subiram sentindo a textura sedosa da fina meia ressaltando com brilho o torneado das pernas longas. Os pequenos pés, escondidos no sapato fino, rápido se equilibraram sob a altura da ostentação. No rosto, pós e cores induzindo à sensualidade exagerada de uma idade fingida. Por fim, ao puxar o elástico, derramou sobre o colo a cascata de negros cabelos contrastando com a beleza esverdeada da safira, ainda que um pouco ofuscada entre curvas salientes.

Ao fechar a porta deixou no ar por longos minutos o perfume doce de baunilha fresca. Espalhado pelo sala e chegando lento até os pedaços rasgados de um papel, jogados pelo chão. Era a letra dele. Era a vida que deixou para trás junto com os cacos de um coração que resolveu colocar a venda.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Isósceles

Marina Costa


De rabo de olho a loira, atenta, observava os dois. Era um olho no peixe e outro no gato, como dizia vovó. Enquanto reparava o cabelo brilhante, a boca úmida, a voz meio rouca captava cada reação do seu namorado, o simpático e sorridente ruivo da esquerda. Não era nada burra. Sabia, que durante uma briga, enquanto estavam separados, aqueles dois tiveram um afair. Mais que isso nem quis ouvir. Soube apenas, por amigos em comum, que a tal morena caiu aos encantos do sorriso sedutor dele. Não era para menos. Um e noventa e cindo de puro charme e um caráter de dar inveja em muito monge budista. Maldita hora que ela pediu aquele tempo. Bendita quando ouviu que eles voltariam, porque ele descobriu que nunca poderia amar outra mulher na vida. Mas vai entender cabeça de homem, pensava ela... Era um rabo de saia e lá se vai o tal do amor para o beleléu...

Continuava prestando atenção. Discretamente, afinal não queria confusão. Dar justificativa para ele se irritar. Mas tomaria conta do que é seu, isso sim. Por fim, os dois se despediram. Com beijinhos inocentes no rosto. A morena se encaminhou para ela. Que jeito de andar! Abriu o sorriso feminino mais encantador que ela jamais conheceu! Era a pele morena mais bem cuidada que já tinha visto na vida. E todo o conjunto da obra só a deixava mais arrasada por saber que seu amor já passara por aqueles belos braços torneados. Se sentiu um pouco infeliz. Foi quando a outra, de repente, parou na sua frente. Deu na loira um abraço verdadeiro e apertado, sussurrou em seu ouvido um "bom te ver" que tinia admiração e completou a cena com uma piscadinha que disse tudo. Ela era vistosa, diria o vovô, e parava até carro de boi. Mas por obra do cupido, travesso e sabido como ele só, as duas sabiam muito bem que os belos olhos do homem que compartilharam só teria, pela vida inteira, uma única direção. E era para aquele rosto de querubim, loirinho e inseguro. Para a expressão que fascinava e iria prender por toda a vida o coração bom e ruivo daquele que poderia ter todas, mas preferiu ser, sempre e completamente, de uma apenas.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Imprimida



Marina Costa

Às vezes acontece da lágrima ficar querendo escorrer olho abaixo. Enquanto a mente não permite, não entende, ela rola de um canto a outro, esperando se entra ou sai. Até que dá para fazer um esforço e deixar ela cair mas daí, como não tem razão aparente, fica meio feio chorar sem motivo. Mas o aperto no coração existe. E a tristeza está espreitando. Tem dias que a gente fica perdido no próprio corpo, esquecido da própria vida. E se não balança a cabeça e presta atenção na tevê, acaba mesmo é chorando sem porquê.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quentura


Marina Costa

Rodando o copo na mão, enquanto a torrente de palavras fluía em resposta aos argumentos dela, a cabeça dele voava longe. Os olhos descendo pelo decote do colo e voltando, surpresos, aos negros cílios paravam de repente na boca vermelha e pequena, que mexia sem cessar. Não que ela falasse demais. Só não conseguia prestar atenção no que dizia. Meio alto, meio tonto, meio em chamas. Ela nunca iria desconfiar. Ele precisava soprar. Pegou a mão dela, pequena também, e a levou para fora dali. Longe do barulho, longe das outras vozes, longe de copos cheios de nada e brindes sem qualquer motivo. Com os braços e lábios, mãos e susurros mostrou para onde iria todo aquele assunto. Na verdade, não passava de princípio. O meio era o agora, entre os corpos quentes ainda vestidos. E o fim, que estivesse bem longe, seria permeado de muitos e muitos momentos como aquele onde frases compridas terminavam em longos beijos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Outro dia

Marina Costa

O sol saiu mais cedo naquele dia novo. Brilhou como nunca e prometeu como sempre tudo o que até então não tinha sido sequer pedido. E foi assim que conseguiu o sorriso dela. Levantou os braços para espreguiçar e sentiu a leve brisa fina. Fechou os olhos por instantes e desejou, em sussurros, toda a harmonia que houvesse para poder seguir depois da turbulência da noite que durou dias. Pela vida agora iria se erguer. Um raio brilhou em seu rosto. Era um outro dia. Era um novo dia. E tudo o que ela desejou, sem saber porque, teve certeza que encontraria.